Formação Sindical

Professora da 28 de Agosto lança livro sobre mudanças tecnológica

Trabalho bancário: inovações tecnológicas, intensificação de controles e gestão por resultados, da pesquisadora e bancária Ana Tércia Sanches, aborda impactos da tecnologia no setor financeiro e suas relações de trabalho; lançamento será na segunda 4, às 19h, na sede do Sindicato

  • Felipe Rousselet, Spbancarios
  • Publicado em 04/09/2017 13:15

Foto: Faculdade 28 de Agosto

São Paulo – Smartphones, aplicativos, biometria, conta digital. Até pouco tempo atrás, estes termos não faziam parte da realidade do bancário. Porém, com as mudanças tecnológicas, estas palavras são cada vez mais presentes no dia a dia dos trabalhadores do setor financeiro. Para entender as consequências para bancários e toda a sociedade desta nova relação de trabalho dos bancos, a professora da Faculdade 28 de Agosto e bancária, Ana Tércia Sanches, desenvolveu a tese A grande corporação bancária e os meandros do processo de trabalho, que deu origem ao livro Trabalho bancário: inovações tecnológicas, intensificação de controles e gestão por resultados.

O lançamento será na segunda-feira 4, às 19h, na Sala 1 da sede do Sindicato (Rua São Bento, 413, Centro de São Paulo), com palestra da autora. O evento, aberto ao público, marca o início da Semana do Administrador na Faculdade 28 de Agosto. No mesmo dia, às 15h, a professora apresenta o livro para o público interno do Sindicato, com a presença dos pesquisadores Iram Jácome Rodrigues, André Accorsi, Selma Venco e Liliana Segnini.

“Meu objeto central de estudo é o processo de trabalho bancário. Para discutir isso, você tem que discutir o que acontece no setor. Porque que o trabalho mudou? Mudou por que a estratégia do próprio negócio mudou. Sobretudo, nos anos 90 e 2000, houve um processo de fusões e privatizações, que elevou a concentração no setor financeiro. Outro fator é o processo de inovações tecnológicas. E outro é a reorganização das formas de trabalho como, por exemplo, o crescimento da terceirização”, explica Ana Tércia.

A pesquisadora lembra que as mudanças provocadas pelos avanços tecnológicos no setor não se dão somente na relação entre cliente e banco ou no direcionamento de recursos para canais digitais de atendimento, em detrimento das unidades físicas. Impactam também na chamada gestão por resultados.“Hoje, um gestor pode monitorar os resultados de uma agência em real time, a distancia. Se os trabalhadores batem a meta do dia no período da manhã, por exemplo, o gestor pode reposicionar a meta e exigir mais do que o cobrado inicialmente da equipe”.

Ana Tércia alerta que este tipo de gestão, que coloca a tecnologia a serviço exclusivamente do lucro, tem sérias consequências para bancários e sociedade. “No caso dos bancários, vemos um aumento do adoecimento. Em 2015, pela primeira vez, a ocorrência de doenças mentais superou as LER/Dort como maior motivo de afastamentos no setor. Já os clientes perdem a qualidade do serviço, uma vez que o bancário é cobrado por metas cada vez maiores, o que limita o tempo que pode despender para um atendimento, prejudica a qualidade da informação e até mesmo incentiva a realização de operações irregulares, como vendas casadas. Além disso, ao mesmo tempo em que o cliente assume parte do trabalho bancário através dos meios digitais, não se observa uma redução nas tarifas.”

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Para a pesquisadora, é essencial que o movimento sindical bancário esteja atento às mudanças tecnológicas para defender os direitos e empregos dos trabalhadores. “É fundamental que o Sindicato faça um diagnóstico preciso das mudanças e consiga, a partir delas, exigir que os trabalhadores sejam respeitados nos seus direitos e que nós possamos fazer uma transição - considerando que muitas funções serão automatizadas - na qual as pessoas possam se recolocar, aprender novas funções. O processo de automação elimina etapas de trabalho. Mas, por outro lado, também pode gerar outras formas de trabalho como, por exemplo, controle de fraudes.”

Para Ana Tércia, o desenvolvimento de instituições como a Faculdade 28 de Agosto, iniciativa do Sindicato, é uma forma de equilibrar o debate sobre a quem devem servir as inovações tecnológicas.

“Todos os setores empresariais bancam pesquisas, possuem institutos de pesquisa. Sempre existe um núcleo de investigação colado a quem toma decisões no campo empresarial. Então, os trabalhadores também precisam apoiar iniciativas de pesquisa. A Faculdade 28 de Agosto vem agregar a outras entidades que pensam a dinâmica dos trabalhadores na sociedade. O segmento empresarial de pesquisa traz uma visão parcial. Então, nós queremos trazer uma visão que represente o maior segmento da sociedade, os trabalhadores”, diz a professora da Faculdade 28 de Agosto.

“Dependendo da forma que a sociedade escolher implementar as novas tecnologias, elas vão favorecer um grupo em especial, um grupo econômico. Estamos disputando uma visão de sociedade. Ter a Faculdade 28 de Agosto, nossos estudos, é uma forma de entrar neste debate com mais argumentos e mais reflexão. Não somos contra a tecnologia, mas acreditamos que ela deve servir em última instância ao ser humano e à sociedade, distribuindo as conquistas decorrentes das inovações”, conclui Ana Tércia. 
 



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