Emprego não é para adoecer

Bancários cobram fim das metas abusivas e do assédio moral, mas bancos não aceitam avanços nesse sentido. Negociação segue na quinta-feira para tratar também de segurança

  • Publicado em 02/09/2015 19:51
São Paulo – Uma categoria que adoece em níveis epidêmicos (veja quadro abaixo) tem mesmo de manter, como uma de suas prioridades, o fim das metas abusivas para melhorar a saúde e as condições de trabalho nas agências e nos departamentos. Foi com essa disposição que o Comando Nacional dos Bancários reuniu-se na quarta-feira 2 com os representantes da federação dos bancos (Fenaban).

Na rodada desta quarta-feira, a segunda da Campanha Nacional Unificada 2015, os bancos reconheceram que pode haver excessos na cobrança de metas por parte dos gestores e aceitaram uma das reivindicações do movimento sindical: informar as soluções dadas aos casos de assédio moral apurados também pelos canais internos dos bancos. Outro compromisso assumido pelos bancos é avaliar a inclusão de uma cláusula na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) que garantirá ao empregado o direito de pedir realocação quando estiver sendo comprovadamente assediado e a empresa avaliará a possibilidade.

“Reforçamos junto à Fenaban que o trabalhador não quer emprego para adoecer. Quer sustentar a família e temos de achar meios de mudar esse quadro que mostra mais de 18 mil bancários afastados em 2013 (últimos dados anuais disponibilizados pelo INSS)”, afirmou a presidenta do Sindicato, Juvandia Moreira, ao criticar o fato de que o grupo de trabalho sobre adoecimento não teve muitos avanços. “O GT mostra que a maioria dos adoecimentos está nas áreas comerciais e inclusive gestores.” Além disso, lembrou que garantias previstas pela CCT, estão sendo desrespeitadas nos locais de trabalho, a exemplo da proibição de enviar mensagens para o celular pessoal dos bancários e a publicação de rankings de performance. Os negociadores da Fenaban ficaram de estudar o que pode ser feito para que esses “desvios sejam eliminados”.

“Não tem como sair dessa campanha sem a melhoria das condições de trabalho. Quase todas as agências tem um bancário afastado ou tomando medicamento. Isso demonstra a urgência das nossas reivindicações”, diz Juvandia.

Metas – “Os bancos dizem que o interesse na saúde do trabalhador não é unilateral, que o empregador não quer que o empregado fique afastado. Quer que trabalhe, cresça e produza. Então por que não permitir que as metas sejam definidas com a participação dos bancários, por agência ou departamento e com caráter coletivo? Por que não aceitam debater de forma séria as condições de trabalho com o movimento sindical”, questiona a dirigente.

A posição da Fenaban, no entanto, segue a mesma: as metas, para eles, estão “em conformidade” com o respeito ao trabalhador e não são excessivas. Para eles, a questão é a forma como as metas são distribuídas nos locais e se os indivíduos têm os instrumentos necessários para batê-las.

Os representantes dos bancários insistiram na importância de criar uma cláusula que proíba a pressão excessiva e as metas abusivas. E reforçaram: os bancos precisam entender que as pessoas são diferentes, a necessidade de analisar a região, o porte da agência, o indivíduo, lembrando que muitas vezes o funcionário é forçado a vender um produto que não é adequado.
Os “nãos” – A Fenaban informou que os bancos não vão reduzir o prazo de apuração das denúncias de assédio moral, atualmente em 45 dias. Também rebateram a crítica feita pelo movimento sindical de que divulgam mais seus canais internos do que o instrumento de combate ao assédio moral negociado e garantido na CCT.

Sobre a reclamação do movimento sindical de que os dados sobre adoecimento repassados na mesa temática de saúde são insuficientes, a Fenaban alega que se os dados são precários é devido à falta de informação do INSS ao empregador. E fizeram outra crítica, quando cobrados a mudar a forma de reabilitação dos profissionais que voltam após afastamento por doença ou acidente de trabalho: a Previdência não conseguiria fazer o papel de reabilitar o trabalhador por falta de recurso, segundo eles.

Os bancos também reforçaram que pretendem manter a análise dos atestados pelos médicos contratados por eles. Para o Sindicato, o atestado do médico do bancário tem de ser aceito sem restrições.

E se recusam a aceitar a reivindicação de que os trabalhadores participem da avaliação da qualidade dos exames do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO). Também não querem a participação do movimento sindical na elaboração da programação da Semana Interna de Prevenção a Acidentes (Sipat). “Isso tudo vai contra a Convenção 161 da Organização Internacional do Trabalho [OIT] que garante nossa participação na defesa da saúde do trabalhador. Temos o direito de participar”, ressalta a presidenta do Sindicato.

Segurança – A rodada de negociação segue na quinta-feira 3 tratando de temas de saúde como comunicado e programa de retorno ao trabalho, que ainda ficaram pendentes, e de segurança. Os bancários reivindicam abertura e fechamento remoto das agências; instalação de biombos nos caixas; melhor atendimento aos bancários e demais vítimas de assaltos, além do fim da revista de funcionários, praticada em muitas agências pelo país. Outro item da pauta é a extinção das tarifas para transferências de dinheiro via DOC e TED com o objetivo é combater o crime de “saidinha”, já que muitas vítimas sacam grandes quantias em espécie para evitar as tarifas.


Cláudia Motta – 2/9/2015


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