Xenofobia

"Os imigrantes vão roubar nossos empregos"

Estrangeiros são vistos por parte dos brasileiros como ameaça externa; xenófobos demonstram desconhecimento das próprias origens

  • Redação Spbancarios
  • Publicado em 22/10/2018 18:44 / Atualizado em 23/10/2018 16:55

Haitianos acolhidos em abrigo alvo de tiros na região do Glicério, centro de São Paulo

Foto: Laura Daudén/ Conectas.Org/Fotos Públicas

Em um país continental e de enorme miscigenação, ganha corpo o discurso de que o imigrante é uma das ameaças externas ao Brasil. As manifestações xenófobas demonstram que, além de história, parte da população desconhece as origens de seus antepassados. Ou faz questão de negá-las.

A figura do brasileiro cordial de Sérgio Buarque de Holanda descrita em Raízes do Brasil (1936) foi recentemente confrontada pelo sociólogo Jessé de Souza na obra A Elite do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato. Fora das teses contemporâneas, a suposta generosidade e hospitalidade descrita pelo historiador na década de 1930 é desconstruída quando venezuelanos são hostilizados em Pacaraima (Roraima) e médicos cubanos são alvos de ofensas racistas em aeroportos por colegas brasileiros de profissão, só para citar dois casos midiáticos recentes.

A justificativa é de que venezuelanos, sírios, bolivianos, haitianos e nigerianos, entre outras nacionalidades, aqui chegam para desempregar brasileiros. “Haitianos, vocês roubam nossos empregos!”, foi o que seis imigrantes que estavam em frente às escadarias da Igreja Missão da Paz, no Glicério, região central de São Paulo, ouviram antes de serem baleados por atiradores motorizados, em agosto de 2015. Como se os algozes ou os entusiastas da barbárie e da xenofobia fossem todos capazes de ganhar a vida com os subempregos oferecidos aos que fogem da fome, do autoritarismo, de grupos extremistas, de terremotos, da miséria etc. em busca de sobrevivência e do mínimo de dignidade.

Entre 2014 e 2015, ano do ataque aos haitianos em São Paulo, os casos de xenofobia aumentaram 633% no país, saltando de 45 para 333 as denúncias recebidas pela Secretaria Especial de Direitos Humanos via Disque 100. Na Justiça, contudo, praticamente não há registros de processos ou de agressores punidos. Isto porque a maioria das vítimas não sabe como fazer a denúncia. Ou então é orientada por autoridades policiais a não levar os casos adiante.  

Crimes resultantes de “discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” são tipificados e punidos pela Lei 9.459, de 1997. Mas tanto as instituições quanto a maioria da população – que descende de antepassados explorados neste país, sejam eles africanos, europeus ou asiáticos - parecem ignorá-los.

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