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Chapéu
Saúde e Condições de Trabalho

Audiência no Senado discute adoecimento bancário e define GT sobre o tema

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Mesa d audiência pública no Senado que discutiu adoecimento bancário

O adoecimento da categoria bancária foi tema de uma audiência pública no Senado Federal, na manhã desta quinta-feira 26. O debate ocorreu na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa da Casa, por requerimento da senadora Augusta Brito (PT-CE), e reuniu dirigentes sindicais de todo o país, representante dos bancos e especialistas do Ministério do Trabalho, do Ministério da Saúde, da Fundacentro e do Ministério Público do Trabalho.

A presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, foi uma das convidadas. Juvandia lembrou que saúde é pauta das mesas de negociação com a Fenaban tanto nas campanhas nacionais da categoria como em mesa permanente específica sobre o tema, e que, apesar de alguns avanços, os bancos ainda se negam a admitir a relação causal entre o alto índice de adoecimento dos bancários e o ambiente de trabalho nas instituições financeiras.

Ela lembrou que no início dos anos 2000, o maior índice de adoecimento entre os bancários eram as LER/Dort, mas hoje as doenças mentais como depressão, síndrome do pânico, burnout e ansiedade são a grande maioria. “Lembro que quando começamos a debater as LER/Dort, as negociações na mesa já eram muito difíceis porque os bancos também negavam a reconhecer estavam relacionadas ao trabalho, até que ficou difícil de negar. Hoje a principal causa de afastamentos na categoria são as doenças mentais e isso é uma consequência da mudança na gestão dos bancos que passou a ser por resultados, com metas impostas de cima para baixo, sem considerar a redução do quadro de funcionários e a realidade de cada agência. Isso faz com que as metas se tornem inatingíveis e, associadas à pressão constante dos gestores, leva ao alto adoecimento dos trabalhadores.

A dirigente citou dados que comprovam o problema: “A categoria bancária representa apenas 0,9% dos empregos formais no país, mas somos 3,7% dos afastamentos no INSS. Isso já mostra uma distorção. É impossível que esse grande número de afastamentos seja coincidência. Não dá para culpar o mundo moderno pelo problema, pois se há depressão no mundo de hoje, entre os bancários o índice da doença é muito maior.”

“Mas para além dos números, existem os casos de bancárias e bancários adoecidos que chegam diariamente até nossos sindicatos”, acrescentou, citando ainda os resultados da consulta nacional realizada anualmente pelos sindicatos junto à categoria.

“As consultas são respondidas por cerca de 40 mil trabalhadores e sempre perguntamos quais os impactos da cobrança excessiva pelo cumprimento de metas em suas vidas. Neste ano, 68% responderam que têm preocupação constante com o trabalho; 61% apontaram cansaço e fadiga frequentes e 51% se disseram desmotivados, sem vontade de ir trabalhar. E o número de bancários e bancárias que disseram já ter feito uso de remédios controlados aumentou: em 2022, 35% disseram já ter tomado, e em 2023, esse percentual subiu para 41,9%. Todos os indicadores mostram que é necessário fazer mudanças na gestão dos bancos. Quem paga a conta disso não são só os trabalhadores adoecidos, é também a sociedade e o Estado. É preciso acabar com as metas abusivas, com a pressão e o assédio moral no setor financeiro.”

Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT

Fenaban nega o problema

Em seu pronunciamento durante a audiência, o diretor de Relações Institucionais, Trabalhistas e Sindicais da Fenaban (federação dos bancos), Adauto Duarte, questionou o nexo causal entre o adoecimento mental e trabalho, e disse que a metodologia que “presume a doença” precisa ser revista, destacando que sem diagnóstico correto não se tem como realizar a prevenção adequada.

Epidemia entre bancários

Ao se abrir o debate para manifestação do público, a fala do representante da Fenaban foi criticada pelos dirigentes sindicais presentes. Vários se manifestaram dizendo que era necessário atacar as causas do adoecimento e não o diagnóstico, e relataram exemplos de bancários adoecidos que procuram seus sindicatos.

Presente à audiência, a secretária de Saúde do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Valeska Pincovai, criticou o fato de os bancos só aceitarem laudos dos médicos do trabalho, que são contratados pelas empresas e que, por conta disso, não emitem CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) comprovando a relação entre a doença e o ambiente de trabalho.

“Só de janeiro para cá já atendemos no Sindicato mais de mil bancários e bancárias adoecido psicologicamente. Estamos vivendo uma epidemia e os bancos não reconhecem isso.”

Valeska Pincovai, secretária de Saúde do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região

GT e mesa de negociação

Ao final da audiência ficou acertado que a mesa de Saúde e Condições de Trabalho, entre Comando Nacional dos Bancários e Fenaban, será retomada na próxima semana. A senadora Augusta Brito sugeriu ainda que, antes da mesa, fosse formado um Grupo de Trabalho (GT) com as entidades presentes na audiência para debater o problema, e que o GT se reunisse antes da mesa. Ela também colocou seu mandato à disposição para participar do GT e da mesa de negociação.

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