Isolamento

Temer rechaça renúncia apesar de graves denúncias

"Por isso quero registrar enfaticamente: a investigação pedida pelo STF será território onde surgirão todas as explicações. E demonstrarei não ter envolvimento com esses fatos. Não renunciarei"

  • Rede Brasil Atual, com informações de Hylda Cavalcanti e edição da Redação
  • Publicado em 18/05/2017 17:16 / Atualizado em 18/05/2017 18:27

Imagem: Reprodução TVNBR

São Paulo – O presidente Michel Temer (PMDB) anunciou que não vai renunciar (leia abaixo a íntegra do discurso), mesmo após denúncia publicada na noite de quarta 17, que acusa, em delação do dono do frigorífico JBS, Temer de dar aval à compra do silêncio do deputado cassado e ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha. Temer confirmou o encontro com o empresário, mas negou as acusações de irregularidades. 

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Temer afirmou ter entrado com requerimento no Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir a íntegra das delações feitas por executivos da JBS. Após pedido expedido na quarta 17 pela Procuradoria-Geral da República, o presidente passou a ser formalmente investigado.

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Isolamento - O ambiente no Congresso, porém, é de isolamento e debandada das bases do governo, uma vez que a recomendação pela renúncia parte de integrantes da base. Enquanto nos bastidores se sabe de divisões entre os próprios peemedebistas, os partidos que trabalharam pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e atuaram próximos de Temer até agora passaram a pedir sua renúncia imediata ou sua cassação.

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O ministro da Cultura, Roberto Freire, que é deputado pelo PPS, foi o primeiro da equipe de governo a deixar o cargo. Freire confirmou que sai atendendo a decisão do partido. Teria de ser seguido pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann (do mesmo PPS), mas este afirmou que permanecerá no governo e deixará a legenda. No PSDB, o ministro das Cidades, Bruno Araújo (PE) já anunciou que fará o mesmo.

No caso do PSDB, a ruptura é ainda mais grave. A legenda, que tenta salvar a pele do próprio presidente, o senador Aécio Neves (MG) – suspenso hoje de suas atividades parlamentares – protocolou hoje um outro pedido de impeachment contra Temer. E decidiu, em reunião da Executiva, pela saída dos tucanos dos cargos ocupados no governo. Bruno Araújo, de acordo com fontes próximas, estaria aguardando apenas a oportunidade de falar pessoalmente com o presidente. O PSDB ocupa ainda os ministérios das Relações Exteriores e dos Direitos Humanos.

Efrahim Filho (DEM-PB), líder do DEM na Câmara, foi o primeiro que se manifestou nessa linha. Disse, desde quarta 17, que as acusações contra o presidente são gravíssimas e que Temer precisa ser investigado. No PPS, o líder Arnaldo Jordy (PA) defendeu a renúncia e destacou o que definiu como “grave crise institucional”.

Ilusão sobre a base - Em reservado, um senador do PMDB contou que ontem foram vários os pedidos feitos, durante reunião no Palácio do Jaburu, de pessoas mais próximas a Temer para que ele renunciasse. O presidente repetiu diversas vezes a frase “não saio daqui” e disse viver uma situação diferente da observada por Dilma Rousseff. O “trunfo” apontado pelo presidente é o fato de contar, ao contrário de Dilma, com um presidente da Câmara a quem é muito ligado, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ele também teria se gabado de ter amplo apoio da base aliada.

O parlamentar disse que a avaliação feita por ele e esses assessores, era de que, talvez por conta do nervosismo e inesperado da denúncia, Temer não estaria percebendo a realidade que o cerca. Nas palavras deste senador, “Maia não tem a liderança, carisma, nem poder de articulação que tinha Eduardo Cunha”.

Em segundo lugar, a leitura que se faz do perfil da base aliada é que, ao contrário das legendas de esquerda, que ficaram com Dilma Rousseff, até o final, a maior parte das legendas tende a abandonar o governo da mesma forma que fizeram com a petista. “Há um outro fato que é a integração dos movimentos sociais que foram para as ruas defender a então presidenta. Isso não vai acontecer com ele (Temer)”, ponderou ainda este senador.

No momento em que desceu do gabinete para fazer seu pronunciamento, Temer procurou citar indicadores positivos da economia. Algumas tentativas de palmas por parte de alguns assessores não foram adiante – o que causou certo constrangimento. Logo depois, como forma de estratégia da comunicação, o presidente passou a circular por todas as alas do Palácio do Planalto, para visitar assessores e passar pessoalmente a imagem de que está tudo bem e que “o trabalho deve continuar”.

Obstrução da Justiça - A secretaria da Casa Civil chamou vários líderes dos partidos citados acima para novas reuniões com a equipe ministerial e o próprio presidente ainda nesta quinta-feira, na tentativa de evitar a desintegração da base.

A oposição, enquanto isso, avalia que não tem mais jeito. “O ambiente é de fim desse governo”, reiterou o líder da oposição na Câmara, José Guimarães (PT-CE).

Ainda na quinta 18 PT, PDT, PCdoB, Rede, Psol e PSB protocolariam na Câmara novo pedido de impeachment de Temer. Será o quarto a ser apresentado desde quarta 17, sendo que desta vez, com a força de cinco legendas em conjunto. “O diferencial, além da força do pedido conjunto, é o fato de destacarmos neste novo pedido a tentativa do presidente da República de obstrução à Justiça, que é um absurdo”, afirmou o líder do Psol, Glauber Braga.

Os outros pedidos foram protocolados pelo líder da Rede, Alessandro Molon (RJ); pelo deputado João Henrique Holanda Caldas, mais conhecido como JHC (PSB-AL). Mas o que mais chamou a atenção foi o apresentado por oito deputados do PSDB.

À espera dos áudios - Segundo reportagem do Valor, aguardavam a divulgação dos áudios para definir posição em relação ao governo: PSDB (47 deputados e 11 senadores); PR (39 deputados, 4 senadores); PRB (23 deputados, 1 senador). O Podemos (ex-PTN), Podemos, ex-PTN (13 deputados), já anunciou saída da base, ponderando que não fará oposição.

A íntegra do discurso de Temer

Quero fazer uma declaração à imprensa brasileira e uma declaração ao país. Desde logo ressalto que só falo agora, os fatos se deram ontem, porque tentei conhecer, primeiramente, o conteúdo de gravações que me citam. Solicitei oficialmente ao Supremo Tribunal Federal acesso a esses documentos. Mas até o presente momento não consegui. 

Quero deixar muito claro dizendo que meu governo viveu nesta semana seu melhor e seu pior momento. Os indicadores de queda na inflação, números de retorno ao crescimento da economia e os dados de geração de empregos criaram esperança de dias melhores.

Hoje mesmo as reformas avançavam. Ontem, contudo, a revelação de conversa gravada clandestinamente trouxe de volta o fantasma de crise política de proporção ainda não dimensionada. Portanto, todo um imenso esforço de retirar o país de sua recessão pode se tornar inútil. E não podemos jogar no lixo da história tanto trabalho.

Houve o relato de um empresário que por ter relações com um ex-deputado, ajudava a família de um ex-parlamentar. Eu solicitei que isso acontecesse. Repito e ressalto. Em nenhum momento autorizei que pagassem a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silencio de ninguém. Por uma razão singela, porque não temo delação. Não preciso de cargo público nem foro especial. Nada tenho a esconder, sempre honrei meu nome.

Nunca autorizei que utilizassem meu nome indevidamente. Por isso quero registrar enfaticamente: a investigação pedida pelo STF será território onde surgirão todas as explicações. E demonstrarei não ter envolvimento com esses fatos. Não renunciarei.

Esta situação de dubiedade não pode persistir. Tanto esforço e dificuldades superadas. Meu único compromisso é com o Brasil. E só esse compromisso me guiará.



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