São Paulo

Mais de 100 mil pedem diretas já e enaltecem as ruas

"É algo extraordinariamente interessante sobre a consciência do que significa votar", disse Osmar Prado. "Muita gente acredita que é possível mandar governo Temer para o arquivo morto da história", diz Erundina

  • Rede Brasil Atual
  • Publicado em 05/06/2017 11:51 / Atualizado em 05/06/2017 12:26

O músico Mano Brown encerrou o ato em São Paulo

Foto: Coletivos Diretas Já

São Paulo – Mais de 100 mil pessoas compareceram ao ato SP pelas Diretas Já, no Largo da Batata, zona oeste da capital paulista. A manifestação convocada por artistas, ativistas da mídia independente e apoiado por movimentos sociais reuniu em um mesmo palco debate político, cidadania, música e poesia. Foram cerca de sete horas de shows, segundo matéria da Rede Brasil Atual, com presenças de importantes nomes do cenário cultural brasileiro, como o músico Mano Brown, que encerrou a noite, os rappers Criolo e Rael, a atriz e poeta Elisa Lucinda, entre outros.

Os artistas que passaram pelo palco defenderam as pautas centrais: queda do presidente Michel Temer (PMDB) e convocação de eleições diretas. Também não faltaram críticas à agenda política de Temer, com suas propostas de reformas, como a trabalhista e da Previdência, que de acordo com os presentes "atacam direitos" e representam um retrocesso na cidadania brasileira.

"O que está acontecendo agora é algo extraordinariamente interessante em um sentido de consciência ampliada do que significa votar e o que significa neste momento pedir por diretas já. Estamos falando da verdadeira reforma política no Brasil", disse o ator Osmar Prado. "O ato de hoje representa o quanto há uma insatisfação. Neste sentido os artistas podem colaborar falando, cantando e usando sua imagem à favor daquilo que eles acreditam", ressaltou a atriz Mel Lisboa.

Mano Brown disse que a participação de artistas populares tem um peso importante no movimento pela democratização. "Os artistas têm acesso ao povo. Às vezes o artista comunica muito mais do que os políticos através da música. A classe artística tem muito tempo que está envolvida na política."

A primeira atração do dia ensolarado na capital foi o cantor paraibano Chico César. “O Brasil não suportaria a possibilidade de uma eleição indireta tendo um Congresso completamente contaminado”, disse. “É importante que o povo se manifeste hoje pela queda de Michel Temer (PMDB). Parece que esse governo que entrou há um ano quer desfazer tudo que foi conquistado nos últimos 100 anos. Ele deseja a precarização completa das relações de trabalho, levando o país a um sistema de semiescravidão”, completou. O cantor ainda levantou a bandeira da necessidade da realização de uma greve geral no país. “A greve significa a classe trabalhadora unida para assegurar direitos conquistados arduamente”.

Após o show do artista, um dos apresentadores do evento, Leo Madeira, chamou o coletivo carnavalesco Arrastão dos Blocos. “Os blocos de carnaval são as pessoas unidas. E isso não acontece apenas em cinco dias. Os blocos entendem que o papel da mobilização não é só o escape, mas o posicionamento político, especialmente em um momento tão delicado como esse.” Arrastão levantou o público com marchinhas tradicionais e composições dedicadas ao tema da manifestação: a queda do presidente Temer e a realização de eleições diretas. “Fora Temer! Ele é golpista, ladrão devoto, quer roubar o trabalhador. Arrastão está nas ruas para derrubar esse imposto”, cantaram, ainda de acordo com a Rede Brasil Atual.

Integrantes de movimentos populares utilizaram o microfone para reforçar a unidade do ato. “Sem ampliar a luta, não vamos conseguir derrubar o Temer. Os grupos de cultura estão de parabéns”, sisse o coordenador do Movimento dos Trabalhadores sem teto (MTST) e da Frente Povo sem Medo, Guilherme Boulos, sobre a organização dos artistas. “A única forma de construir uma saída da crise é resgatar a soberania popular, chamando o povo a decidir. Isso não resolve tudo, mas é o princípio de um caminho democrático. No nosso entendimento, o movimento das diretas é a bandeira hoje que pode barrar as reformas da Previdência e trabalhista, que ninguém conseguiria se eleger nas urnas com essas propostas. Vamos derrubar essa agenda política”.

O presidente da CUT-SP e integrante da Frente Brasil Popular, Douglas Izzo, ressaltou a importância da união em torno das diretas. “Estamos todos aqui, Frente Brasil Popular, Frente Povo sem Medo, artistas, CUT. Nós, das centrais sindicais, lutamos também contra a retirada de direitos, contra reformas apresentadas por Temer. É a luta pela garantia de direitos, para que o povo possa definir quem será o próximo presidente. Não aceitamos eleições indiretas. Precisamos ficar de olho. O Congresso é totalmente envolvido com corrupção e com as mais diretas falcatruas deste país”, disse.

Presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, também da Frente Brasil Popular, elogiou a iniciativa. "Esse ato é muito importante. A luta pelas diretas tem que ser de todos. Das pessoas, dos artistas, dos partidos, dos cidadãos comuns que podem e devem se unir nesta grande campanha. Venham juntos e vamos derrubar o Temer e conquistar as eleições diretas", disse.

Para a economista Laura Carvalho, professora da USP, a luta contra a desigualdade social passa pela ampliação da democracia e não sua supressão. "A gente não quer esse Michel Temer nem outro Michel Temer para fazer isso. A gente quer mais democracia e novos direitos. Mais direitos e mais participação dos movimentos. A gente quer mais igualdade. Tudo isso a gente só conquista com o voto. Fora Temer e Diretas Já."

"Muita juventude, muita gente bonita, muita gente acreditando que na ruas é possível mandar o governo Temer para onde ele deve ir: o arquivo morto da história", disse a deputada federal Luiza Erundina (Psol-SP). Ela estava na praça, junto com os demais manifestantes que querem a volta da democracia e do direito de decidir. Ali no chão da praça também estavam outros políticos como os vereadores Eduardo Suplicy (PT) e Sâmia Bonfim (Psol), os deputados federais Paulo Teixeira (PT-SP) e Ivan Valente (Psol-SP) e o deputado estadual Carlos Gianazzi (Psol).

"Estamos reunidos porque não fugimos da luta. O Brasil precisa de nós. A civilização que fez esquecer as premissas dos povos originários, do negro e do índio, deu nisso", disse a atriz e poeta Elisa Lucinda, em matéria da Rede Brasil Atual. "Uma quadrilha de ladrões brancos" no poder. "Não tem nenhum preto na Lava Jato. Precisamos de uma vassoura. Quem tem vergonha de ter um tataravô senhor de engenho, não se esqueça que existiram brancos abolicionistas. Quem teve avô da chibata, mude a história quando chegou na sua vez. Observem, vamos mudar (...) Somos (artistas) representantes de muitas vozes. Parece que estou sozinha mas sou uma tribo", disse.

Elisa ainda trouxe uma mensagem da cantora Beth Carvalho, que se recupera de complicações médicas após sentir fortes dores na coluna no fim do mês passado. "Beth está se recuperando, golpeando a morte, graças a Deus, forte e brava. Ela pediu para que eu dissesse algo. Uma honra. Ela pediu para eu dizer: Beth Carvalho exige diretas já", disse.

À frente do Acadêmicos do Baixo Augusta, um dos blocos de carnaval que organizaram, o cantor Simoninha disse que "felizmente esse governo chegou ao fim" e que é hora de encontrar novas saídas. "Democraticamente acima de tudo. O Brasil precisa e merece mais do que os políticos que hoje estão em Brasília. Estamos aqui dizendo que esse governo não nos representa."

O rapper Emicida foi recebido com euforia pelo público com suas canções de conteúdo crítico. "A base desse sistema somos nós. Vamos nos mover para acabar com ele. Não só aqui, onde a bala é de borracha, mas também na periferia onde a bala é de verdade. É importante se mover", afirmou. Na sequência, subiu ao palco o sambista Péricles que agradeceu pela presença dos manifestantes: "Obrigado pela chance de poder ver o país mudar e vocês são a mudança. É o momento de tomarmos os rumos da nossa vida e do nosso futuro."

O guitarrista Edgar Scandurra também deixou seu recado ao lembrar das reformas trabalhista e da Previdência, propostas pelo governo Temer. "Estamos aqui contra esse pacote de maldades desse governo completamente corrupto. Um governo denunciado com provas, gravações feitas nesse país de dedos duros. Temos de fazer uma limpeza e quanto maior e mais alto for o grito, mais ele vai sair de uma bolha para atingir toda a população. Vamos tirar esse presidente e conseguiremos novas eleições."

Scandurra ainda desabafou: "Se eu pudesse realizar um sonho seria: volta Dilma e termina seu mandato. Mas como não é possível, vamos lutar por diretas".

O pernambucano Otto subiu ao palco para cantar duas canções, Crua e Janaína, e engrossou o coro dos manifestantes. "Ou o povo escolhe agora seu presidente ou estamos perdidos nesse sistema podre. Essa luta não é só dos músicos, estou aqui mais como cidadão. Precisamos participar, fazer uma mensagem direta e democrática. Uma troca de experiências. Não da para o Congresso escolher mais nada nesse país. Chega de corrupção, chega de golpe."

A cantora Tulipa Ruiz ressaltou a importância da organização de artistas que resultou no ato de hoje. "É fundamental a organização da classe artística. todos estamos aqui porque ninguém quer retrocesso. Não ao retrocesso e diretas já! Todos somos contra o golpe e vamos mudar isso", disse.

Depois de Tulipa, o apresentador até então, Leo Madeira, deu lugar à atriz Mônica Iozzi que afirmou que "isto sim é cidade linda", ironizando as diretrizes da gestão do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). "Estou muito feliz de estar aqui e lembrar que esse ato foi organizado por artistas. É muito legal ver tanta gente diferente. Se o Temer não cair, ele vai escolher em dois meses o novo PGR. Ou seja, o criminoso vai escolher seu delegado. Então vamos gritar juntos Fora Temer! Juntos por um país mais justo", completou.

O fim da tarde democrática ficou por conta dos rappers Rael, Criolo e Mano Brown. "Meninos mimados não podem representar a nação. Eu não quero viver assim", disse Criolo.



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