Sindicato Cidadão

Doria derruba muro na Cracolândia e deixa três feridos

Prefeitura de São Paulo pretende desocupar dois quarteirões na região. Durante ação, gestão começou a demolir conjunto que contava com 10 pessoas dentro, sem checar condições da operação

  • Gabriel Valery, da Rede Brasil Atual
  • Publicado em 24/05/2017 13:59 / Atualizado em 24/05/2017 14:00

"Há de se convir que é um fato inusitado", disse o secretário de Obras sobre feridos

Foto: Reprodução / a craco resiste

São Paulo – As ações do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), na Cracolândia deixaram três feridos na tarde de terça 23. A gestão ordenou a demolição de imóveis na região e assim o fez, mas com pessoas ainda dentro de suas casas. “Tinha 10 pessoas no imóvel, a maioria dormindo. Não avisaram que iam derrubar. Muitas pessoas pediram para parar, mas a Guarda Civil Metropolitana (GCM) disse para continuar”, afirma, para a Rede Brasil Atual, Valdete Souza, inquilina responsável pela pensão afetada na demolição de um muro que fica na Rua Dino Bueno, 148. 

No domingo 21, a prefeitura organizou uma operação policial em parceria com o governo estadual do também tucano Geraldo Alckmin. A operação foi considerada de extrema violência por entidades de defesa de direitos humanos. O argumento utilizado pelos gestores foi de “limpar” a área do tráfico de drogas. Mesmo a Secretaria de Direitos Humanos afirmou que desconhecia as intenções da ação.

“Todos os imóveis dos dois quarteirões no bairro serão removidos. Estamos agindo nos imóveis vazios inicialmente e retirando as pessoas aos poucos dos outros”, disse o secretário municipal de Serviços e Obras, Marcos Penido, em entrevista coletiva.

Penido defendeu a ação da prefeitura e não assumiu erro ao demolir um muro e ferir pessoas. “Lacramos a frente do imóvel e a lateral. Agora falam que deveríamos ver todo o imóvel antes de demolir? Vamos fazer isso daqui para frente, mas há de se convir que é um fato inusitado”, disse. O argumento é que as pessoas presentes no imóvel utilizaram uma entrada paralela, que não constava na planta do imóvel. “Não diria que foi um erro, mas pela peculiaridade do local teremos que tomar cuidados adicionais”, completou.

Para o coletivo de ativistas que fornece apoio aos moradores e frequentadores da região, a Craco Resiste, a ação mostra despreparo da prefeitura. “Na ânsia por abrir espaço para os amigos do mercado imobiliário, Doria derruba parede errada e machuca pessoas na Cracolândia. Fica cada vez mais evidente que o massacre contra os frequentadores da região é apenas uma parte do plano para garantir o lucro dos empresários amigos do prefeito”, acusam. De fato, de acordo com o secretário Penido, a intenção da prefeitura é de abrir espaço para a construção de moradias populares.

Para desocupar a região e entregar ao empresariado, que deve tocar as obras das moradias da região, chamada pela prefeitura de “Nova Luz”, a gestão Doria entrou com dois decretos de utilidade pública no sábado, para retirar os moradores dos dois quarteirões. “As áreas passaram a responder ao interesse do Estado. Mesmo os terrenos sendo de origem privada, passaram ao domínio do Estado. Vamos ainda publicar uma requisição administrativa para que o município requeira os imóveis. Podemos fazer isso, autorizados pela lei, porque devemos tomar providências em situações extraordinárias. Neste caso, o interesse público se dá pelo domínio do tráfico na região, esse instrumento faz com que não exista necessidade de reintegração de posse. O Estado vai indenizar os proprietários após as desocupações”, explicou o secretário municipal da Justiça, Anderson Pomini.

Os três feridos durante a ação sofreram escoriações leves e não correm riscos. Dois recusaram atendimento médico e o outro foi encaminhado para o Pronto-Socorro da Barra Funda. Mesmo sem assumir o erro, durante a coletiva, os secretários afirmaram que a intenção hoje era apenas derrubar um muro para preparar ações futuras. A vistoria que não verificou a presença de 10 pessoas no local foi realizada pelo próprio secretário Penido, em conjunto com membros de seu gabinete. As pessoas estão proibidas de entrar no local, onde foi deixado um termo de interdição. “Agora tem gente com fome e sem poder trabalhar pois seus documentos estão lá dentro. Onde ficam nossos direitos? Só aqui isso acontece. Você paga o aluguel e a prefeitura derruba seu imóvel sem avisar”, completou Valdete.



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