"Era um sábio, um mestre e um grande amigo". Essa frase de Gilmar Carneiro, ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, abre o livro lançado neste 9 de maio e descreve o homenageado do dia. "Augusto Campos: os bancários e a estratégia sindical que mudou o Brasil" chegou às mãos do público nesta manhã de sábado, em evento na sede do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, no centro da capital paulista.
A obra celebra o legado do ex-presidente do Sindicato (entre 1979 e 1985), liderança do processo conhecido como Retomada, que reorganizou a categoria nos tempos de ditadura e iniciou uma nova era de mobilização bancária por direitos e democracia. Em breve, o livro será disponibilizado digitalmente no site do Sindicato (spbancarios.com.br).
O lançamento reuniu figuras fundamentais para o nascimento do livro, como os autores Luiz Azevedo e Paulo Salvador, e importantes quadros do sindicalismo e da política nacional. Entre eles, estavam o ex-ministro José Dirceu; a presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira; e a dirigente histórica do Sindicato dos Bancários de SP e companheira de Augusto Campos, Lúcia Mathias.
A primeira mesa da atividade foi conduzida por Lucimara Malaquias, secretária-geral do Sindicato, e reuniu Erica de Oliveira, secretária de imprensa e comunicação do Sindicato, Ana Lucia Ramos, secretária-geral da Fetec-CUT SP, Maria Rosani Gregorutti, presidenta da Afubesp e Lúcia Mathias. Ao abrir a atividade, Erica destacou a relação de Augusto Campos com as novas gerações do movimento sindical. Segundo ela, Augusto tinha um olhar muito especial para os dirigentes mais jovens e enxergava potencial na nova geração do Sindicato.
“Para a gente, o Augusto era um dos nossos: companheiro de churrasco, de amigo secreto, de convivência diária. Dividia sua sabedoria o tempo todo, sempre com muita paciência. Ele deixou para a nossa geração um legado muito importante: o amor e o respeito pelo Sindicato. E é por isso que ele continua vivo em cada um de nós e segue sendo uma pessoa tão especial" relatou a dirigente.
Na mesma linha de Erica, Lúcia Mathias destacou a preocupação permanente do dirigente com a formação de novos quadros para o movimento sindical. "O Augusto entrou em uma mata fechada, mas não buscou achar uma saída apenas para ele mesmo. Augusto se preocupou em deixar um caminho aberto para os demais”, declarou.

História e legado
Um dos autores da obra, Paulo Salvador enfatizou o caráter histórico do livro e sua relação com momentos decisivos da política nacional. “Este livro conta a história de toda uma geração, principalmente dos anos 1980. Um período muito rico, onde tivemos a anistia, fundação do PT e da CUT, a campanha das Diretas Já e a resistência contra a intervenção no nosso sindicato. É um livro que vai além da emoção, é um registro histórico. Buscamos registros desde o nascimento do Augusto. Então é uma narrativa, não um mito. Tem valor histórico e acadêmico”, explicou.
Já Luiz Azevedo destacou o papel estratégico desempenhado por Augusto Campos na reorganização do movimento sindical brasileiro. “Augusto nasceu num momento em que se combatia ferozmente o nazismo no mundo. Ele era a contra-hegemonia em muitos aspectos”, afirmou. Segundo ele, Augusto compreendia que a transformação sindical exigia articulação nacional. “Augusto disse que não conseguiria fazer o que prometeu sem extrapolar o sindicato. Era preciso organizar as oposições sindicais. Ele saiu derrubando diretorias sindicais pelegas por todo o país”, relatou.
Luiz Azevedo também lembrou a visão ampla de organização defendida pelo ex-presidente do Sindicato. “Augusto dizia que o sindicato não pode só cuidar da categoria e ocupar os centros urbanos. Era preciso cuidar das regiões onde as pessoas viviam, de outras categorias, discutindo territórios. As regionais do sindicato nasceram nessa perspectiva”, disse.
Outra figura muito importante na organização do livro foi Ana Tercia, dirigente da Fetec-CUT SP e doutora em sociologia pela USP. Ela esteve presente no lançamento e comentou aspectos da obra: "Esse livro conta a história de Augusto Campos, mas também do sindicalismo bancário. Essa história é muito rica porque foi forjada ainda em um período de ditadura. O Augusto foi uma figura que ajudou a organizar essa oposição sindical que ganhou a entidade em 1979 e, a partir daquele momento, iniciou uma história nova, onde os trabalhadores se tornaram protagonistas."

Uma vida de luta
A trajetória de Augusto Campos (1941 - 2017) se confunde com um dos períodos mais importantes da reorganização sindical no Brasil. Ainda nos anos 1970, participou da construção de grupos de oposição dentro de bancos públicos, como Banco do Brasil e Banespa, defendendo um Sindicato mais independente e combativo.
Mais tarde, esteve à frente da chamada Retomada do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, processo que rompeu com a estrutura sindical alinhada à ditadura militar. Sob sua liderança, os bancários realizaram, em 1979, uma greve histórica que recolocou a categoria no cenário nacional de mobilizações.
Além da atuação entre os bancários, Augusto participou da construção de importantes instrumentos de organização da classe trabalhadora brasileira, como a CUT e o Partido dos Trabalhadores. Também integrou a direção da CUT paulista, ajudou na criação da Fetec-CUT/SP e levou sua experiência sindical para a política institucional ao exercer mandato como vereador da capital paulista pelo PT, entre 2001 e 2004.

