Participaram do debate Neiva Ribeiro, presidenta da entidade, Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT, Lucimara Malaquias, secretária-geral do Sindicato e Luiz Claudio Marcolino, ex-presidente do Sindicato e reeleito como deputado estadual (PT-SP) - (Foto: SEEB-SP)
A direção do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região se reuniu para avaliar o resultado do primeiro turno das eleições gerais e os possíveis impactos do novo cenário político para os bancários e os demais trabalhadores, caso prevaleça esse resultado.
O debate destacou os riscos de retrocessos nos direitos trabalhistas, o enfraquecimento dos serviços públicos, privatização das empresas estatais, além das ameaças às políticas de inclusão, mulheres e diversidade.
A análise que ocorreu na quarta 7 contou com a participação de Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato; Juvandia Moreira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT); e Luiz Claudio Marcolino, ex-presidente do Sindicato e reeleito deputado estadual por São Paulo pelo PT.
Em sua avaliação, Luiz Claudio Marcolino apontou uma disputa acirrada no estado de São Paulo, com renovação das cadeiras na Assembleia Legislativa e avanço de candidaturas alinhadas a pautas conservadoras, em um cenário que remete à eleição de 2018. Para o parlamentar, o próximo mandato exigirá enfrentamento político em defesa dos direitos dos trabalhadores e da população paulista.
“Eu reafirmo o meu compromisso neste mandato, que será de levar para dentro do Parlamento as demandas dos trabalhadores e da população do estado de São Paulo. Vamos atuar na defesa dos direitos, dos serviços públicos e das empresas públicas, além de manter o diálogo permanente com os movimentos sociais e com a categoria bancária. O mandato precisa estar conectado às ruas e às necessidades reais da população”, destacou.
Bancos públicos sob ameaça
Na análise das eleições gerais, a defesa das empresas estatais, especialmente do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, também estiveram como dentre os principais pontos do debate. A presidenta do Sindicato, Neiva Ribeiro, ressaltou que a categoria conhece os riscos de projetos de privatização e de políticas que enfraquecem os bancos públicos.
“Os bancários não apoiarão candidato que defende privatizar banco público. Eles sabem o que isso significa. Durante a Conferência Nacional dos Bancários de 2026, no Congresso do Banco do Brasil e no Conecef, defendemos a categoria bancária, o fortalecimento do ramo e também a defesa dos bancos públicos. As eleições gerais impactam todas essas decisões tiradas nos debates dos congressos e conferências”, relembrou.
A privatização pode mudar a finalidade dessas instituições, reduzir sua atuação em políticas públicas e colocar em risco empregos, direitos e condições de trabalho. Banco do Brasil e Caixa têm papel estratégico na concessão de crédito, no financiamento da atividade econômica e no atendimento à população, inclusive em regiões e segmentos que nem sempre são prioritários para os bancos privados.
Para Juvandia Moreira, o resultado do primeiro turno acendeu um alerta para os trabalhadores dos bancos públicos. Entre os riscos de um eventual avanço de projetos de privatização, reformas administrativas e cortes de gastos que reduzem a proteção ao funcionalismo estão o enfraquecimento das relações de trabalho, a diminuição da estrutura das instituições e a possibilidade de perda de direitos conquistados coletivamente.
“Os trabalhadores dos bancos públicos já estão em alerta quanto aos riscos após a nossa campanha nacional, e os que ainda não perceberam, cabe a nós fazer esse diálogo, principalmente os empregados da Caixa que não terão ACT até 2028 e será preciso construir uma nova do zero, para garantir direitos. Agora é hora de fortalecer as organizações representativas e saber que temos responsabilidades coletivas”, destaca.
A negociação de um novo Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) com um eventual governo de extrema direita exigirá organização, participação e capacidade de mobilização. O enfraquecimento das entidades representativas pode reduzir o poder de pressão dos trabalhadores e dificultar a preservação de direitos específicos dos empregados da Caixa, além daqueles negociados nacionalmente para a categoria bancária.
Privatização de 95% das estatais
Outro ponto debatido na reunião foi sobre a retomada do Programa Nacional de Desestatização de empresas e riscos reais de privatização da Caixa Econômica e do Banco do Brasil, e consequentemente mudanças na Previ e Cassi.
A direção do Sindicato relembrou ainda que o Banco do Brasil e a Caixa não são apenas instituições financeiras. São instrumentos estratégicos para financiar a agricultura, a habitação, os pequenos negócios e as políticas públicas.
Volta do trabalho aos sábados é um risco
Outro tema relembrado nessa reunião foi quando a categoria bancária sofreu no passado com as tentativas de ampliação da jornada e flexibilização dos direitos. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro editou a Medida Provisória 905, conhecida como Carteira de Trabalho Verde e Amarela. A medida previa mudanças na legislação trabalhista, incluindo a possibilidade de funcionamento dos bancos aos sábados e alterações nas regras da jornada dos bancários.
A proposta ameaçava conquistas históricas da categoria e poderia ampliar o tempo de trabalho, reduzir o descanso e prejudicar a convivência familiar. Os bancários foram protegidos dos efeitos da MP 905 por meio da atuação do Sindicato, da Contraf-CUT e das demais entidades representativas que, no âmbito do Comando Nacional dos Bancários, conquistaram com a Fenaban um acordo aditivo à Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), em dezembro de 2019.
O episódio demonstra a importância da mobilização sindical para impedir retrocessos. A eventual retomada de propostas que permitam o trabalho aos sábados representa um risco à jornada conquistada e pode ampliar a pressão por produtividade, em uma categoria que já enfrenta metas elevadas, sobrecarga e adoecimento relacionado ao trabalho.
Saúde Caixa: corte de gastos pode onerar ainda mais os beneficiários
Outro ponto de preocupação é o custeio do Saúde Caixa. Políticas de redução de despesas que diminuam a participação da empresa no financiamento do plano podem transferir uma parcela maior dos custos aos empregados e aposentados, elevar suas contribuições e comprometer o acesso à assistência médica.
A sustentabilidade do Saúde Caixa precisa ser construída sem retirar direitos nem sobrecarregar os beneficiários. Para os empregados da Caixa, o risco é concreto: o aumento dos custos com saúde pode comprometer o orçamento familiar, enquanto mudanças que restrinjam a cobertura ou dificultem o acesso aos serviços podem prejudicar o atendimento.
A defesa do plano está diretamente ligada à valorização dos trabalhadores e à responsabilidade da Caixa, como empresa pública, com aqueles que constroem diariamente seus resultados.
Igualdade salarial das mulheres está em risco
A eleição, em São Paulo, da deputada estadual mais votada do Brasil, contrária a direitos das mulheres e também os avanços de outras conservadoras no Congresso Nacional preocupa o Sindicato. O resultado acende um alerta sobre o futuro das políticas de igualdade de gênero e de combate à discriminação, especialmente em um cenário de avanço de pautas conservadoras.
Para as bancárias, o risco é o enfraquecimento de iniciativas que buscam combater as diferenças salariais entre homens e mulheres, ampliar oportunidades de carreira e garantir condições iguais de acesso a cargos de liderança. A igualdade salarial é uma pauta histórica do movimento sindical, também encampanada pelo governo do presidente Lula e exige políticas públicas, fiscalização e compromisso das empresas para se tornar realidade.
O Sindicato mantém a luta pelo fim das desigualdades no mercado de trabalho e pela ampliação dos direitos das mulheres. Qualquer tentativa de enfraquecer essas políticas representa um retrocesso que afeta não apenas as trabalhadoras, mas toda a sociedade.
Avanço do extremismo ameaça direitos da população LGBTQIA+
O avanço de grupos e discursos extremistas que celebram ou defendem retrocessos nos direitos da população LGBTQIA+ é outro motivo de preocupação. O Sindicato tem uma atuação consolidada na defesa da diversidade, no combate à discriminação e na promoção de ambientes de trabalho respeitosos e inclusivos nas instituições financeiras.
O enfraquecimento das políticas de proteção pode ampliar a vulnerabilidade de trabalhadores LGBTQIA+, dificultar o combate à discriminação e comprometer avanços conquistados ao longo dos anos. No ambiente bancário, isso significa o risco de menos proteção contra situações de preconceito, exclusão e violência.
Os militantes e dirigentes sindicais que atuam nessa pauta estão atentos às ameaças e reforçam a importância de preservar políticas de inclusão e de garantir que todos os trabalhadores tenham seus direitos respeitados, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero.
A defesa da diversidade não é uma pauta secundária: faz parte da luta por igualdade de oportunidades, dignidade e trabalho decente para toda a categoria.
Pessoas com deficiência e suas famílias temem retrocessos
As políticas de inclusão e os investimentos sociais destinados às pessoas com deficiência também estão no centro das preocupações. Pais e mães de filhos com deficiência temem que mudanças políticas resultem na redução de recursos para serviços, programas de apoio e iniciativas que garantam direitos e ampliem a autonomia dessas pessoas.
Para as famílias, cortes de investimentos podem significar mais dificuldades para acessar atendimento, educação inclusiva, reabilitação e outros serviços essenciais. Para os bancários que conciliam o trabalho com as responsabilidades de cuidado, a redução da rede de apoio pode ampliar a sobrecarga financeira e emocional.
O Sindicato defende políticas públicas que garantam inclusão, acessibilidade e condições dignas de vida para as pessoas com deficiência e suas famílias. A redução de investimentos nessas áreas pode aprofundar desigualdades e comprometer direitos fundamentais.
Previdência, salário mínimo e tributação da PLR
A direção também alerta para os riscos de propostas que reduzam a proteção social e alterem regras previdenciárias. Mudanças nas condições de aposentadoria e no cálculo dos benefícios podem afetar o planejamento financeiro dos trabalhadores e a segurança de quem depende da Previdência Social.
Uma das propostas de Flávio Bolsonaro é desindexar o reajuste das aposentadorias aos reajustes do salário mínimo, o que causaria um grande impacto também no BPC (Benefício de Prestação Continuada).
As políticas de valorização do salário mínimo também têm impacto direto sobre a renda de milhões de brasileiros. Medidas que enfraqueçam essa valorização podem reduzir o poder de compra das famílias e ampliar as desigualdades sociais de aposentados, pensionistas e trabalhadores que recebem benefícios ou remunerações vinculados a esse piso, além de pressionar a renda das famílias.
Outro ponto de atenção é a isenção do IR na PLR (Participação nos Lucros e Resultados (PLR), pauta histórica dos bancários. A categoria defende isenção desse imposto uma vez que lucros e dividendos dos acionistas não são tributados. O cenário político pode influenciar a possibilidade de avanços nessa reivindicação, que precisa continuar na agenda sindical.
Enfraquecer os sindicatos significa enfraquecer a negociação coletiva
A avaliação política também destacou a importância de preservar a organização sindical. Propostas que restrinjam a atuação dos sindicatos, reduzam sua capacidade de representação ou enfraqueçam a negociação coletiva podem prejudicar diretamente os trabalhadores.
Foi por meio da organização, mobilização e fortalecimento do Sindicato que a categoria bancária conquistou reajustes, participação nos lucros, vales, benefícios, proteção à saúde e uma Convenção Coletiva de Trabalho com abrangência nacional. Sem entidades representativas fortes, os trabalhadores ficam mais vulneráveis a decisões unilaterais dos bancos e perdem capacidade de negociar coletivamente melhores condições de trabalho.
A defesa dos sindicatos, portanto, não é uma pauta restrita às entidades: é uma forma de proteger os direitos e ampliar a capacidade de negociação de toda a categoria.
“Foi uma tarde de debates importantes passamos por questões que afetam os bancários, suas famílias e os trabalhadores como um todo. Continuamos atentos, fazendo alerta aos trabalhadores sobre a importância de votar num projeto de país que defenda os nossos interesses, nós trabalhadores”, finaliza Neiva Ribeiro.