O programa oficial de governo do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, que propõe a retomada do Programa Nacional de Desestatização, acendeu o sinal de alerta: o Banco do Brasil (BB) pode ser privatizado. Os riscos para os participantes da Previ e associados à Cassi são enormes. Leia com atenção e entenda por quê.
Em fevereiro deste ano, durante participação em um evento do mercado financeiro promovido pelo BTG Pactual, Flávio Bolsonaro declarou que vai privatizar 95% das empresas estatais do Brasil. “É óbvio que eu sou a favor de privatizações”, disse o candidato na ocasião.
Embora a lista de estatais na mira de Flávio não tenha sido divulgada, a atenção maior se voltou ao Banco do Brasil, após a coordenadora do programa econômico da campanha, Daniella Marques, admitir que o BB “poderia ser considerado para privatização” e que mais de 20 estatais seriam analisadas para permanecer sob controle federal, serem reestruturadas, privatizadas ou, em alguns casos, liquidadas. Depois da reação negativa, ela tem tentado desmentir a intenção de privatizar o BB.
Segundo levantamento da agência de checagem Aos Fatos, Flávio Bolsonaro fez pelo menos 43 declarações falsas ou enganosas sobre sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o caso do Banco Master, que foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025 em razão de fraudes financeiras e emissão de CDBs sem lastro. O esquema envolveu a captação de recursos de fundos de previdência e investimentos de pessoas físicas.
Casos como o do Master mostram que o mercado, quando pouco fiscalizado, também produz fraudes de grande escala, o que torna ainda mais sensível a discussão sobre entregar à iniciativa privada instituições que hoje cumprem função social, financiam habitação, crédito rural e programas públicos e funcionam como âncora de confiança em momentos de crise.
O que a Cassi e a Previ têm a ver com a privatização do BB?
Tragédia banespiana
Para entender o que pode estar em jogo, vale olhar para o que aconteceu com os aposentados do Banco do Estado de São Paulo (Banespa) depois da privatização.
A importância do Banespa para o estado de SP pode ser comparada à que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal têm para a União. Não fossem os bancos públicos, o Estado não teria resistido a crises financeiras mundiais, como a que ocorreu em 2008. São esses os bancos responsáveis por impulsionar políticas públicas fundamentais para o desenvolvimento sustentável do país.
Congelamento de salários e benefícios
Assim que comprou o Banespa, em 2000, o Santander “enxugou” a máquina de gerar lucros, demitindo mais de 8 mil bancários. Os trabalhadores da ativa que se livraram do desemprego tiveram de assinar um acordo de congelamento de salário que durou 5 anos.
Como o índice que corrigia o salário dos aposentados seguia o mesmo critério dos trabalhadores da ativa, eles também tiveram o congelamento dos salários. Após cinco anos, o estrago já estava feito e a perda salarial tinha sido muito grande.
Ao longo dos anos, os aposentados sofreram recorrentes tentativas de redução de seus benefícios assistenciais e tiveram de fazer muitas mobilizações, até mesmo recorrer à Justiça, para garantir a manutenção de direitos, como a Caixa de Assistência à Saúde (Cabesp) e o Fundo de Seguridade Social (Banesprev), que o banco espanhol, por muitas vezes, tentou desrespeitar.
Mais recentemente, o Santander fez uma nova ofensiva e tentou encerrar de vez o patrocínio dos planos de previdência. Em agosto de 2025, a Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar) barrou a tentativa. No entanto, em julho de 2026, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) acatou um recurso do Banesprev/Santander e determinou que a Previc reabra a análise administrativa dos pedidos.
Segundo a Associação dos Funcionários do Banco Santander, Banesprev e Cabesp (Afubesp), entre os aposentados, há relatos de ansiedade, insônia e medo de não conseguirem pagar o plano e os remédios caso a renda diminua ainda mais. A entidade reforça que, enquanto o Santander insiste na retirada de patrocínio, a Afubesp seguirá buscando diálogo com autoridades, denunciando irregularidades e cobrando que o banco cumpra as normas e respeite os compromissos assumidos com os trabalhadores.
Segundo Maria Rosani, presidenta da Afubesp, tanto o Banesprev quanto a Cabesp só continuam existindo por causa da intensa mobilização para impedir o extermínio dos direitos conquistados.
“Estamos conseguindo ganhar fôlego, adiar essa retirada e ter trânsito porque estamos em um governo progressista, que dá voz à classe trabalhadora. Por isso, é importante que os colegas também reflitam sobre as escolhas que farão nas próximas eleições”, afirmou.
“O que está em jogo não é apenas o Banesprev de hoje, mas as decisões que serão tomadas sobre nossos direitos nos próximos anos, inclusive em relação à Cabesp”, alerta Maria Rosani.
Para João Fukunaga, ex-presidente da Previ, o caso Banespa mostra que, depois da privatização, é o trabalhador que passa a negociar com um dono que avalia cada despesa pela ótica do lucro.
“A lição do Banespa mostra que o risco está no fato de que, quando muda o patrocinador, muda a disposição de cobrir déficits, manter contribuições e respeitar a participação dos trabalhadores na gestão”, diz.
O único interesse dos novos donos é aumentar cada vez mais os lucros. Quanto ao trabalhador negociar diretamente com o patrão, basta ver a reação das redes sociais quando Flávio sugeriu que os trabalhadores negociassem jornadas diretamente com os donos das empresas.
“Seu patrão não responde nem ao seu bom dia e você está achando que vai negociar carga horária e aumento de salário diretamente com ele.”
Defesa da Previ e da Cassi
Segundo Fukunaga, a existência da Previ e da Cassi é construída e mantida com décadas de contribuição dos funcionários, mas depende de um parceiro fundamental, o Banco do Brasil, que é o patrocinador. “Enquanto o banco é público, essa relação é moldada por um compromisso institucional. Com a privatização, passa a ser moldada também pela lógica de um acionista que precisa entregar lucro e dividendos.”
Para a Previ, isso pode significar pressão para reduzir o passivo, cobrança de contribuições extras, migração para planos de contribuição definida e perda de voz nos conselhos. “O patrocinador, no caso o BB, tem o poder do voto de minerva no Conselho Deliberativo, que é o órgão de decisão máxima. Somente com isso eles podem alterar inúmeras coisas”, alerta o ex-presidente da Previ.
“Já para a Cassi, o risco é de mensalidades e coparticipações maiores, questionamento da cobertura dos aposentados, que são os mais caros para o plano, e enfraquecimento do modelo de autogestão. E quem mais sofre é quem menos pode se defender, que são os idosos e pessoas com doenças crônicas”, alerta Juliana Carminato, dirigente sindical e membro da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil.
“Defender a Previ e a Cassi é defender uma promessa feita a quem dedicou a vida ao banco”, diz Fukunaga, que completa: “O que precisa ser feito é fortalecer a Previ e a Cassi e não transferir a responsabilidade a um controlador sem compromisso público com elas. Um banco público tem compromisso com a sociedade. Um banco privado responde ao lucro. Em caso de privatização, quem vai garantir esse compromisso?”, questiona.