Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região (Foto: Seeb-SP)
A democracia está viva. E se fortalece quando as pessoas ocupam as ruas, participam do debate público, defendem direitos e se organizam para impedir retrocessos. Em diferentes partes do mundo, a mobilização popular volta a demonstrar que a sociedade tem voz, capacidade de articulação e força para influenciar os rumos da política.
O Brasil oferece um exemplo importante desse movimento. A mobilização de milhões de pessoas em torno da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou que a disputa democrática não se restringe ao horário eleitoral ou ao momento do voto. Diante do avanço da extrema direita e da possibilidade de retrocessos sociais e políticos, trabalhadores, estudantes, mulheres, artistas, movimentos sociais e diferentes segmentos da sociedade se organizaram para defender a democracia, os direitos sociais e um projeto de país inclusivo. A juventude foi fundamental na luta pelo fortalecimento da democracia.
Nesse processo, os sindicatos têm um papel fundamental. Historicamente, o movimento sindical esteve na linha de frente das grandes conquistas democráticas, da defesa das liberdades individuais e coletivas e da construção de direitos sociais. Não se trata apenas de reivindicar melhores salários, condições dignas de trabalho ou jornadas mais justas. Os sindicatos são espaços de organização, formação política, participação e consciência coletiva. São instrumentos que permitem aos trabalhadores compreender sua realidade, reconhecer seus direitos e atuar na transformação da sociedade.
A defesa da democracia começa também nos locais de trabalho. Quando um trabalhador tem liberdade para se organizar, escolher seus representantes, participar das decisões e reivindicar melhores condições de vida, exerce sua cidadania. Quando os sindicatos são enfraquecidos, a sociedade perde uma de suas principais estruturas de representação coletiva.
A mobilização brasileira revelou, ainda, uma mudança importante na maneira de fazer política. O chamado Exército de Lula, organizado pelo deputado André Janones, demonstrou como as redes sociais e os aplicativos de mensagens podem funcionar como instrumentos de articulação coletiva, aproximando pessoas, multiplicando informações, convocando manifestações e estimulando a participação política. O ambiente digital, quando utilizado para a organização democrática, deixa de ser apenas um espaço de disputa de narrativas e passa a funcionar como uma ponte entre a informação, a consciência política e a ação nas ruas.
Essa experiência também inspira iniciativas em outros países da América Latina e em diferentes partes do mundo. A comunicação digital permite que movimentos populares compartilhem estratégias, ampliem suas redes de apoio e construam formas de resistência diante do crescimento de forças conservadoras e autoritárias.
Nos Estados Unidos, a reação eleitoral ao governo Donald Trump também expressa o desgaste de uma agenda marcada pelo endurecimento das políticas migratórias, pela polarização, pelas ameaças aos direitos e por uma relação de proximidade com grandes grupos econômicos e tecnológicos. A resistência ao trumpismo revela que jovens, mulheres, negros, imigrantes, pessoas com deficiência e outros grupos historicamente sub-representados não estão dispostos a abrir mão de sua voz e de seu espaço na sociedade.
As redes sociais podem potencializar esse processo, mas não substituem a organização coletiva. É necessário transformar a comunicação em mobilização, a informação em consciência e a participação digital em presença concreta nas ruas. A tecnologia pode fortalecer a democracia, desde que esteja a serviço das pessoas, e não subordinada exclusivamente aos interesses das grandes plataformas e de seus proprietários.
A experiência brasileira e as mobilizações internacionais mostram que nenhum direito está definitivamente garantido. Direitos trabalhistas, liberdade de expressão, igualdade racial, direitos das mulheres, proteção aos imigrantes, políticas de inclusão e acesso aos serviços públicos são conquistas históricas que dependem de vigilância e participação social.
A democracia não é uma concessão dos governantes, tampouco uma conquista definitiva. É uma construção coletiva, que exige instituições fortes, sindicatos atuantes, movimentos sociais organizados e uma população disposta a participar das decisões que afetam sua vida.
As ruas, as urnas, os locais de trabalho e as redes sociais são espaços complementares dessa luta. E os sindicatos têm uma responsabilidade histórica nessa construção: organizar, representar, mobilizar e dar voz àqueles que, individualmente, muitas vezes não conseguem enfrentar as estruturas de poder.
Diante das ameaças de retrocesso, a mensagem que emerge de diferentes países é clara: a população não está disposta a abrir mão de sua voz, de seus direitos e de sua liberdade.
A democracia precisa de participação popular, de sindicatos fortes, de organização coletiva e de uma sociedade que não aceite assistir passivamente à retirada de suas conquistas.