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Campos Neto sabia de crise no Master e evitou intervenção, revela reportagem

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FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Uma reportagem publicada pelo jornal Estadão na terça-feira (27) traz à tona graves denúncias sobre a condução do Banco Central (BC) durante a gestão de Roberto Campos Neto. Segundo a publicação, o ex-presidente da autoridade monetária tinha conhecimento dos problemas de liquidez enfrentados pelo Banco Master, mas optou por não adotar medidas como intervenção ou liquidação da instituição, ao longo de 2024.

A decisão de intervir no Master só veio a ser executada em novembro do ano passado pelo atual presidente do BC, Gabriel Galípolo. De acordo com a reportagem, Campos Neto teria atuado para evitar uma intervenção ou liquidação do Master em pelo menos duas ocasiões: em março e novembro de 2024. Os períodos coincidem com o endurecimento da fiscalização sobre a instituição.

Brechas normativas e "mercado solto"

A denúncia do Estadão detalha ainda que, sob o comando de Campos Neto, o BC editou uma norma em outubro de 2023 sobre a contabilização de precatórios (dívidas judiciais). A regra continha uma "brecha" que desobrigou o Master de ajustar seu balanço, permitindo que a instituição continuasse operando com bilhões em ativos de risco sem a necessidade de novos aportes dos sócios ou venda de ativos.

Essa postura de "vista grossa" ocorreu em um cenário onde o mercado já emitia sinais de alerta. Em agosto de 2023, a Warren Investimentos já recomendava que clientes não comprassem CDBs do Banco Master, evidenciando desconfiança sobre seu crescimento acelerado. A suspeita é que a instituição tenha se aproveitado da agenda de "estímulo à concorrência" de Campos Neto para crescer de forma desordenada e, possivelmente, criminosa, alvo agora da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal.

"O caso Master serve de exemplo: a gestão de Campos Neto flexibilizou demais e o resultado está aí. Mexeu com todos os poderes e colocou o trabalhador em risco. Somos contrários à autonomia do Banco Central, que ampliou a permissividade. E precisamos fortalecer os mecanismos de fiscalização, ampliar a integração entre Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários, endurecer as regras de controle e garantir que fraudes financeiras sejam rigorosamente investigadas e punidas", afirma Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região

"A conta recai sobre quem trabalha"

O Sindicato dos Bancários, que historicamente denuncia as lacunas na fiscalização de bancos digitais, defende uma maior fiscalização integrada entre o Banco Central e órgãos como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Previc, Receita Federal e Ministério do Trabalho. Dessa forma, a regulação não pode ser apenas financeira, mas deve abranger as dimensões tributária, jurídica e trabalhista.

"Hoje, temos trabalhadores apreensivos aguardando as definições sobre seus empregos e sobre o pagamento de seus direitos, e temos também investidores esperando o ressarcimento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), cujo custo, ao final, recai sobre toda a sociedade. Soma-se a isso o impacto profundo sobre os fundos de pensão, comprometendo diretamente a aposentadoria de milhares de trabalhadores. Ou seja: a conta da irresponsabilidade financeira não fica restrita ao mercado — ela é socializada, recaindo sobre quem vive do trabalho", ressaltou Neiva Ribeiro em artigo publicado na última semana.

O Sindicato enviou ofício ao responsável técnico Eduardo Felix Bianchin, nomeado pelo Banco Central, reivindicando a garantia de direitos aos trabalhadores e exigindo uma reunião para acompanhar todo o processo de liquidação do Will Bank. A entidade cobra transparência e segue buscando todas as informações necessárias para proteger os direitos dos trabalhadores, garantindo que qualquer ação siga rigorosamente a Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) da categoria e a legislação vigente.

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