Bancários cobram medidas efetivas contra o adoecimento da categoria (Foto: Seeb-SP)
Em mesa de negociação com a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos), realizada nesta sexta-feira, 15 de maio, o Sindicato, por meio do Comando Nacional dos Bancários, cobrou medidas efetivas dos bancos para combater o adoecimento na categoria bancária, especialmente em relação aos transtornos mentais e comportamentais, propondo um pacto pela saúde dos trabalhadores.
“O tema da saúde é um dos que mais impactam a nossa categoria. O adoecimento, em especial o relacionado à saúde mental, é muito alto no setor e isso está diretamente ligado à gestão nos bancos, focada em metas abusivas, hipervigilância algorítmica, agências sucateadas e sobrecarga de trabalho. Esperamos avançar na construção de um ambiente de trabalho saudável no setor e estabelecer um pacto pela saúde dos bancários”, destacou a presidenta do Sindicato e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Neiva Ribeiro, na abertura da mesa de negociação.
Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT e também coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, reforçou que os altos níveis de afastamento de bancários estão ligados ao modelo de gestão dos bancos. “Dados levantados pelo Dieese, com base em informações da plataforma Smartlab e registros do INSS, confirmam que o padrão de afastamentos por adoecimento, que antes era restrito aos bancários, se difundiu para todo o ramo financeiro. Isso está ligado aos efeitos colaterais de um ambiente organizacional com metas abusivas, que sobrecarregam o trabalhador e estimulam a rivalidade, e não a colaboração saudável.”
Dados revelam a dimensão do adoecimento na categoria bancária e no setor financeiro como um todo:
- Os casos de afastamento acidentário (com relação com o trabalho) por saúde mental no setor financeiro aumentaram de 9,3% para 20% entre 2012 e 2024 — o maior crescimento registrado no país entre todos os setores;
- Em 2012, os afastamentos acidentários de bancários foram motivados, em sua maioria, por doenças osteomusculares e do tecido conjuntivo (48,7%). Já em 2024, as doenças mentais e comportamentais passaram a ser as principais causas dos afastamentos, responsáveis por 55,9% do total;
- Em 2024, foram registrados no país 180,3 mil afastamentos acidentários, sendo 2,81% de bancários, embora a categoria represente apenas 0,9% dos empregos formais no país;
- Nos afastamentos por doenças mentais e comportamentais, os bancos múltiplos com carteira comercial ocuparam a 1ª posição entre os afastamentos acidentários por saúde mental, com 1.946 afastamentos, e a 5ª posição entre os afastamentos previdenciários, com 8.345 ocorrências em 2024;
- Em relação ao total de afastamentos por doenças mentais e comportamentais, a categoria bancária representa 25% dos afastamentos acidentários e 3,3% dos afastamentos previdenciários.
Reivindicações dos bancários
O Comando Nacional dos Bancários apresentou propostas para a construção de um ambiente laboral saudável.
“Nossa proposta é construir um pacto pela saúde dos bancários, de forma a transformar o atual cenário de adoecimento da categoria, especialmente por questões relacionadas à saúde mental dos trabalhadores, fortemente impactada por uma gestão focada na pressão pelo cumprimento de metas abusivas”, enfatiza a secretária de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato, Valeska Pincovai.
Entre outros pontos, o pacto proposto pelo Comando Nacional dos Bancários inclui:
- Participação dos trabalhadores na implementação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que obriga as empresas a gerenciarem os riscos psicossociais relacionados ao trabalho, como sobrecarga, pressão por metas, conflitos e assédio moral, para prevenir burnout e doenças mentais;
- Cumprimento das NR-17 e NR-7, que já estão em vigor. A primeira determina que o trabalho deve ser adaptado às condições psicofisiológicas dos trabalhadores, enquanto a segunda estabelece ações de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce de agravos relacionados ao trabalho;
- Debate sobre metas abusivas na gestão dos bancos e seus impactos na saúde física e mental dos trabalhadores;
- Levantamento, por parte dos bancos, dos casos de afastamento e suas causas, com fornecimento de dados epidemiológicos e documentos do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), conforme determina a NR-1;
- Combate a fatores de risco psicossociais, como metas abusivas, sobrecarga de trabalho, hipervigilância algorítmica e assédio moral, entre outros.
Socorro adequado pelos bancos
Na mesa de negociação, Juvandia Moreira citou o caso de uma bancária do Banco do Brasil, de uma agência de Ji-Paraná, que, ao sofrer uma crise aguda de ansiedade no local de trabalho, em vez de ser socorrida pelo banco e encaminhada para uma unidade de saúde, teve apenas um familiar comunicado para que fosse até a agência.
Foi cobrado dos bancos que, em uma situação como essa, a empresa tem a responsabilidade de prestar imediatamente o socorro adequado ao trabalhador, conforme determina a legislação, para somente depois comunicar os familiares.
Metas negativas
A representação dos bancários destacou ainda que os sindicatos vêm registrando denúncias quanto às chamadas “metas negativas”, prática em que o trabalhador é punido, por exemplo, quando um cliente desiste de um produto após ter concluído a contratação, resultando em descomissionamento da remuneração variável e até advertências.
Convocação de trabalhadores afastados
Por fim, o Comando Nacional dos Bancários denunciou o crescimento de casos de trabalhadores afastados, com atestado médico, que estão sendo convocados para avaliação pelo médico do banco e pressionados a retornar ao trabalho antes do término do período de tratamento.
Resposta da Fenaban e encaminhamentos
A representação dos bancos respondeu que só irá debater com os trabalhadores a NR-1 após a norma entrar efetivamente em vigor, o que deve ocorrer em 26 de maio. A Fenaban concorda com a participação dos trabalhadores no processo, assim como com a discussão do tema junto ao movimento sindical, mas sem abrir mão do entendimento de que a implementação e o gerenciamento da norma são responsabilidades do empregador.
“Apesar de a NR-1 determinar que a implementação da norma é responsabilidade do empregador, ela também é bastante explícita sobre a obrigatoriedade da participação dos trabalhadores”, pontua a secretária de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato.
Sobre a convocação de bancários afastados para avaliação pelo médico do banco e validação de atestados médicos — prática à qual o Sindicato é terminantemente contrário —, a Fenaban abriu divergência e insiste em sua pertinência. “O médico do banco não é perito. Não é atribuição do empregador avaliar se o trabalhador está apto para voltar ao trabalho”, enfatiza Valeska Pincovai.
Ficou encaminhado que o debate sobre a NR-1, assim como sobre as demais reivindicações apresentadas na negociação desta sexta-feira 15, ocorrerá na primeira negociação da Campanha Nacional Unificada dos Bancários 2026, prevista para acontecer entre o fim de junho e o início de julho.
