Cerca de 800 representantes de bancárias e bancários de todo o país participam da 28ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada entre os dias 19 e 21 de junho, no Holiday Inn Parque Anhembi, em São Paulo. O evento reúne dirigentes sindicais e trabalhadores do setor financeiro para discutir os desafios da categoria e definir estratégias para a Campanha Nacional dos Bancários 2026.
As atividades deste sábado (20) foram marcadas por análises de conjuntura, apresentação de pesquisas e discussões sobre o futuro do sistema financeiro e da organização dos trabalhadores. A presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, participou ativamente dos debates e fez um chamado para a mobilização da categoria.
"A partir da nossa conferência, podemos marcar reuniões presenciais ou virtuais nos locais de trabalho para envolver os trabalhadores. Precisamos fazer uma campanha muito interativa, que envolva os bancários de norte a sul e também a população, que está sendo afastada das agências. Os bancários querem valorização, mais saúde no trabalho e uma maior qualidade de vida. O primeiro passo para termos uma campanha vitoriosa é fazer uma mobilização do tamanho que a nossa categoria merece", afirmou Neiva.
Conjuntura nacional e internacional

A programação deste sábado teve início com a mesa “Conjuntura: debatendo os rumos do Brasil e da classe trabalhadora”. O bloco contou com uma palestra de José Kobori, especialista em finanças empresariais e administração financeira. Kobori é professor, consultor e escritor, com atuação ativa nas redes sociais abordando temas sociais e econômicos, sempre de forma didática e inclusiva.
Kobori traçou um panorama histórico da economia mundial, com ênfase no século XX, para explicar as raízes do atual estágio de subdesenvolvimento da economia brasileira. Em sua análise, destacou os impactos do chamado Consenso de Washington, conjunto de diretrizes econômicas difundidas a partir do fim dos anos 1980, baseadas na liberalização financeira, abertura comercial, desregulamentação dos mercados e austeridade fiscal.
Segundo José Kobori, a adoção das políticas do Consenso de Washington contribuiu para o processo de desindustrialização em diversos países periféricos. Como contraponto, o palestrante citou a China, que manteve forte planejamento estatal e uma estratégia própria de desenvolvimento industrial. “No início dos anos 1980, a indústria brasileira era maior do que a da China e da Coreia do Sul somadas. Éramos uma potência industrial em ascensão, mas a onda neoliberal interrompeu esse processo”, afirmou.
O palestrante também avaliou que a economia global vive uma transição marcada pela redução da dependência do dólar. De acordo com Kobori, países como Brasil, China e Índia vêm diversificando suas reservas e ampliando mecanismos alternativos de pagamento, em um movimento de desdolarização. Nesse contexto, Kobori relacionou as críticas e pressões dos Estados Unidos sobre o Pix ao sucesso do sistema brasileiro. “O Pix se tornou uma tecnologia confiável, capaz de ameaçar grandes empresas como Visa e Mastercard. Por isso, hoje ele não é apenas um instrumento de pagamento, mas uma questão de soberania nacional”, argumentou Kobori.
A independência e autonomia do Banco Central foi outro tópico abordado por José Kobori. Em linha com o movimento sindical bancário, Kobori defendeu a maior regulamentação do sistema financeiro nacional. "O Banco Central nunca será independente de verdade. E já que ele será dependente, precisa ser dependente da política, dos representantes que nós elegemos, e não do mercado financeiro e dos seus interesses. Roberto Campos Neto, que é um representante do mercado de capitais, ao chegar na presidência do BC trabalhou por uma desregulamentação do sistema financeiro. Isso resultou em escândalos como o caso do Banco Master", observou.
Voz da categoria

Na segunda mesa do dia, os participantes acompanharam a apresentação dos resultados da Consulta Nacional dos Bancários 2026. A exposição foi feita por Vivian Machado, economista, técnica do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e mestre em Economia Política pela PUC-SP. A consulta foi realizada entre 17 de abril e 31 de maio, coletando um total de 54.952 respostas. Houve um aumento de 64% na participação em relação ao ano passado.
Em relação às prioridades da categoria para a negociação coletiva deste ano, a consulta revelou que o aumento real nos salários segue crucial para a maioria dos respondentes. Cada participante pôde escolher até três itens e os resultados mostraram a seguinte ordem de prioridade: aumento real de salário (93%), aumento na Participação nos Lucros e Resultados (63%) e elevação nos benefícios de Alimentação e Refeição (51%).
No tocante às pautas sociais, em que também foi possível escolher até três alternativas, as prioridades foram: manutenção de direitos (65%), emprego (45%) e plano de saúde (39%). Os impactos do trabalho na saúde física e mental também foi apontado pela categoria, com a maioria dos respondentes relatando sofrer com preocupação constante com o trabalho; cansaço e fadiga constante; e desmotivação, vontade de não ir trabalhar.
Assuntos em voga no debate público também marcaram presença na Consulta Nacional. O fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho, atualmente em tramitação no Senado, foram classificados como importante ou muito importante para 87% dos respondentes. O endividamento das famílias, outro tema em destaque neste ano, também foi abordado. Ao serem perguntados sobre o assunto, 16% afirmaram possuir dívidas com pagamento em atraso. Em 2024, esse índice foi de 10%.
Panorama e perspectivas

A terceira mesa abordou a conjuntura econômica geral e o Sistema Financeiro Nacional. A apresentação ficou por conta dos economistas e técnicos do DIEESE, Gustavo Cavarzan e Rosângela Vieira. Em suas apresentações, os especialistas contextualizaram o atual cenário da economia brasileira, os resultados recentes dos bancos e suas atuais estratégias para ampliação da lucratividade.
"Em 2025, os cinco maiores bancos tiveram lucro de R$ 124 bilhões. Todos registraram lucro e, com exceção do Banco do Brasil, todos ampliaram seus resultados em relação a 2024. Ao mesmo tempo, temos uma consolidação das fintechs, com o Nubank registrando aumento de 75 milhões de clientes desde 2021. No mesmo período, a receita do Nubank foi multiplicada por 20 e seu lucro ultrapassou o da Caixa e do Santander", relatou Rosângela Vieira.
Ainda de acordo com a economista, os grandes bancos vêm adotando estratégias semelhantes, baseadas em quatro pilares: maior seletividade na concessão de crédito; redução de custos por meio do fechamento de agências, expansão dos canais digitais e diminuição de postos de trabalho (83,5 mil postos eliminados desde 2016); aceleração da transformação tecnológica, com automação de processos e uso crescente de inteligência artificial; e foco na rentabilidade, concentrando esforços em clientes de maior renda, ampliando serviços de investimento e aumentando a receita obtida por cliente.
"A redução do emprego bancário decorre principalmente de mudanças estratégicas dos bancos, e não de uma crise do setor. A ampliação do uso de inteligência artificial generativa, a digitalização dos serviços e a reorganização dos modelos de atendimento tendem a continuar alterando a estrutura do trabalho na categoria. Ao mesmo tempo, o crescimento de fintechs e outras instituições financeiras exige uma análise mais ampla do mercado de trabalho financeiro. Esse cenário também intensifica desafios relacionados à pressão por metas, à saúde dos trabalhadores e à necessidade constante de qualificação profissional" concluiu Rosângela.
O diálogo continua

Encerrando o dia, os debates se concentraram na estratégia de comunicação e organização da categoria bancária para a Campanha Nacional dos Bancários 2026. A mesa foi conduzida por Neiva Ribeiro e destacou a importância de fortalecer os canais de diálogo com os trabalhadores, ampliar a mobilização e garantir maior participação da categoria na luta por direitos.
A 28ª Conferência Nacional dos Bancários segue até domingo (21), quando será aprovada a minuta de reivindicações da Campanha Nacional Unificada dos Bancários 2026. Essa minuta será entregue à Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) e norteará todo o processo negocial. Acompanhe as atualizações em spbancarios.com.br.
Veja como foi a abertura da Conferência Nacional, realizada na sexta-feira (19).