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Chapéu
Declarações preocupantes

Proposta de substituir servidores por IA ameaça bancários de bancos públicos

Imagem Destaque
Imagem feita por inteligência artificial mostra um robô sentado em frente a um computador enquanto uma mulher vai embora de cabeça baixa segurando uma caixa com pertences. Ao fundo dois banneres, um amarelo com o logo do banco do brasil e outro azul com o logo da caixa econômica federal

A proposta de substituir servidores públicos por inteligência artificial (IA), defendida por Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), acende um alerta para os trabalhadores do Banco do Brasil, da Caixa e dos demais bancos públicos. A declaração é ainda mais preocupante diante da reforma administrativa defendida pelo candidato, que pode ameaçar direitos e garantias trabalhistas.

Ex-presidente da Caixa, Daniella defendeu a substituição gradual de atividades administrativas e operacionais realizadas por servidores, em vez da realização de concursos para repor profissionais aposentados.

Durante entrevista ao podcast G4, em 30 de setembro, a economista questionou: “E aí, substitui, faz outro concurso pra gente pagar? Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?”

Em agosto, durante o 25º Fórum Empresarial do Grupo Lide, Daniella já havia defendido uma “reforma administrativa digital”, baseada na automação de atividades e na redução da estrutura do Estado.

Na ocasião, mencionou aproximadamente 12 milhões de servidores públicos e despesas anuais de R$ 450 bilhões com pessoal, além de R$ 150 bilhões em custos operacionais, tecnológicos e terceirizações. Os valores foram apresentados pela economista, sem detalhamento metodológico nas declarações consultadas.

“Ao classificar a estrutura estatal como “nababesca”, Daniella reforçou uma visão economicista que trata trabalhadores e serviços públicos prioritariamente como despesas a serem cortadas, sem considerar adequadamente os benefícios que proporcionam à sociedade. O debate deveria ser em torno de como os avanços tecnológicos poderiam melhorar o atendimento à população e as condições de trabalho, e não em demitir visando corte de gastos”, destaca Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo.

Países desenvolvidos têm proporcionalmente mais servidores públicos que o Brasil

A ideia de que o Brasil possui servidores públicos em excesso não encontra respaldo em uma comparação simples com países desenvolvidos.

Segundo o relatório Government at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a participação dos trabalhadores do governo no emprego total chega a 30,1% na Noruega, 28,2% na Suécia, 27,3% na Dinamarca e 25,2% na Finlândia. A média dos países da OCDE é de 18,4%.

No Brasil, essa proporção era de aproximadamente 12,5%, segundo levantamento da OCDE divulgado em 2023, com base em dados anteriores.

Embora as estatísticas tenham períodos de referência diferentes e existam diferenças na organização dos serviços públicos entre os países, os números demonstram que economias desenvolvidas podem manter estruturas estatais proporcionalmente maiores.

“A comparação também evidencia os limites de avaliar o funcionalismo exclusivamente pelo custo da folha de pagamento. Servidores são responsáveis por atividades fundamentais em hospitais, escolas, segurança, fiscalização, assistência social e atendimento à população”, destaca Neiva.

Como consequência da redução indiscriminada desses quadros, a dirigente enumera filas maiores, demora na concessão de benefícios, dificuldades de acesso a serviços essenciais e sobrecarga dos profissionais que permanecem.

“Além disso, eventuais economias orçamentárias podem ser acompanhadas de custos sociais e econômicos, especialmente quando a redução de pessoal compromete a qualidade dos serviços”

Quais os riscos para bancários do BB e da Caixa?

As declarações de Daniella preocupam os trabalhadores dessas instituições, que já utilizam ferramentas de automação em diversas atividades.

Uma política de redução de pessoal pode resultar em congelamento de contratações e diminuição dos quadros de funcionários, ampliando a sobrecarga, as metas e a pressão sobre os empregados.

A população também pode ser prejudicada pela redução do atendimento presencial, especialmente idosos e pessoas com dificuldades de acesso aos canais digitais.

“Além disso, BB, Caixa e demais bancos públicos cumprem funções estratégicas no financiamento habitacional, crédito agrícola, desenvolvimento regional e execução de políticas sociais. O enfraquecimento dessas instituições pode comprometer serviços essenciais para milhões de brasileiros”, alerta Neiva.

Reforma administrativa de Flávio Bolsonaro amplia ameaças aos trabalhadores

As declarações de Daniella tornam-se ainda mais preocupantes quando analisadas em conjunto com a reforma administrativa defendida por Flávio Bolsonaro.

O programa de governo do candidato prevê a continuidade da reforma, mas não detalha quais mudanças pretende implementar.

A PEC 32/2020, apresentada durante o governo de Jair Bolsonaro, previa restrições à estabilidade para novos servidores, ampliação das contratações temporárias e mudanças nas regras de desligamento.

Já a PEC 38/2025, apresentada pelo deputado Zé Trovão (PL-SC), contempla alterações relacionadas à avaliação de desempenho, progressão profissional, remuneração variável e possibilidades de desligamento por insuficiência de desempenho.

Embora essas propostas não tenham sido integralmente assumidas pela campanha de Flávio, demonstram a dimensão das mudanças defendidas por setores políticos alinhados ao candidato.

Cabe destacar que empregados do BB e da Caixa são contratados pelo regime da CLT e não possuem a mesma estabilidade constitucional dos servidores estatutários. Entretanto, reestruturações, terceirizações e mudanças nas políticas de pessoal podem afetar diretamente seus direitos e condições de trabalho.

“A combinação entre reforma administrativa, automação orientada à redução de custos e propostas de privatização representa um cenário de incerteza para o futuro dos bancos públicos”, afirma Neiva.

Tecnologia deve beneficiar trabalhadores e população

A presidenta do Sindicato defende a modernização dos bancos públicos visando a melhoria de processos, redução de tarefas repetitivas e ampliação da qualidade do atendimento. Medidas que devem ser acompanhadas de qualificação profissional, valorização dos empregados e negociação coletiva.

“A busca por eficiência na administração pública precisa considerar também a qualidade dos serviços prestados, as necessidades da população e os impactos das mudanças sobre os trabalhadores. A redução de despesas, isoladamente, não garante melhores resultados”, afirma Neiva.

O Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região já havia alertado para os riscos da reforma administrativa aos trabalhadores dos bancos públicos.

“Os avanços tecnológicos devem contribuir para melhores condições de trabalho e serviços públicos de qualidade, e não servir como justificativa para precarização, redução de direitos e enfraquecimento das instituições financeiras públicas visando sua privatização”, afirma Neiva Ribeiro.

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