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Artigo

Ivone Silva: lucro, demissões e reestruturação

Linha fina
Em artigo, a presidenta do Sindicato, Ivone Silva, analisa o balanço de 2020 dos bancos o corte de postos de trabalho e as reestruturações em instituições públicas e privadas
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Foto: Seeb/SP

Os quatro maiores bancos brasileiros (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander) divulgaram seus resultados de 2020 e apresentaram forte queda devido a pandemia da Covid-19. Contudo, os resultados ainda se mantém em patamares elevados. juntos, o lucro dos quatro maiores bancos somou R$ 66,1 bilhões, queda média de 22,1% em relação a 2019. 

No geral, os resultados foram fortemente influenciados pela maior despesa de provisão para devedores duvidosos e entrada de créditos tributários. Mas o que chama a atenção em um ano fortemente caracterizado por uma crise sanitária e social, é a forte reestruturação que os bancos vêm implementando. 

Apesar do acordo de não demissão no início da pandemia junto ao Comando Nacional dos Bancários, os quatro maiores bancos reduziram em mais de 11 mil postos de trabalho e  fecharam mais de 1.200 agências durante a pandemia. Em um momento tão delicado como o atual, e em um setor ainda tão lucrativo como o bancário, demitir trabalhadores para fazer ajustes é, no mínimo, crueldade. Além disso, em janeiro deste ano, o BB anunciou um Plano de Demissão Extraordinário (PDE) que prevê o desligamento de 5 mil bancários e fechamento de 361 unidades em todo o país, mostrando que apesar da pandemia ainda não mostrar sinais de arrefecimento, os bancos continuarão fazendo suas reestruturações.

No Brasil, segundo dados da PNAD IBGE, há um contingente de 14 milhões de pessoas desempregadas no trimestre de setembro a novembro de 2020, ou seja, 2,160 milhões a mais do que o verificado no mesmo período de 2019. Também nesse período aumentou em 1 milhão o número de trabalhadores que estão em situação de desalento, ou seja, desistiram de procurar trabalho, mas estariam prontos a trabalhar se tivessem uma oportunidade. Ou seja, em uma situação de crise social e econômica pela qual passamos, os bancos deveriam cumprir seu papel social em não fazer tais ajustes, não ampliar o contingente de desempregados e não fechar as agências, já que a população acaba sendo prejudicada tendo que se deslocar muitas vezes para outros municípios e se aglomerar nas poucas agências que ainda restam. 

Ademais, os bancários estão muito sobrecarregados, mesmo aqueles que não estão nas agências e estão trabalhando em home office. O número de clientes só aumenta, bem como as metas e as cobranças pelo seu cumprimento. Com menos bancários, só aumenta o volume de trabalho a ser realizado.

Outro dado importante a ser destacado dos balanços dos bancos é o aumento do crédito com recursos direcionados PJ. Houve ampliação das concessões no segundo semestre de 2020, principalmente a linha voltada com recursos do Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), que foi fundamental para a sobrevivência e o acesso do pequeno negócio ao crédito. Importante lembrar que o crédito com recursos direcionados foi fundamental durante a crise financeira mundial de 2008/2009 para que o país não sentisse seus efeitos e retomasse rapidamente o crescimento. No entanto, o atual governo tem se preocupado em esvaziar os recursos direcionados e em desmantelar os bancos públicos, fundamentais no repasse destes recursos. 

Um exemplo recente desse processo está na atual PEC Emergencial enviada pelo Executivo que, além de buscar viabilizar o auxílio emergencial com o fim do piso mínimo de gastos com Educação e Saúde, propõe a revogação do parágrafo 1º do art. 239 da Constituição que garante o repasse de no mínimo 28% da arrecadação do PIS/PASEP para o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), principal fonte de recursos do BNDES. Essa medida significaria o fim dos programas de investimentos de longo prazo do BNDES.

Em uma conjuntura de crise sanitária, econômica e social na qual atravessamos, o atual governo tem buscado reduzir o papel dos bancos públicos, retirando recursos e/ou ameaçando privatizar um importante instrumento de política econômica, que poderia ajudar na retomada de crescimento pós-Covid-19 como ocorreu em crises anteriores.