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Ditadura nunca mais: bancários resgatam luta histórica nos 62 anos do golpe

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Protestos dos bancários exigiam o fim da intervenção no Sindicato (FOTO: Raul Junior/Cedoc)

Protestos dos bancários exigiam o fim da intervenção no Sindicato (FOTO: Raul Junior/Cedoc)

No próximo dia 1º de abril, o Brasil relembra os 62 anos do golpe civil-militar de 1964, marco de um dos períodos mais sombrios da história recente do país. A deposição do presidente João Goulart interrompeu a ordem democrática e deu início a uma ditadura que se estenderia por 21 anos, caracterizada pela repressão política, censura, perseguições, tortura e assassinatos de opositores, além da supressão de direitos fundamentais.

Articulado por forças políticas conservadoras em aliança com setores das Forças Armadas e com apoio do imperialismo norte-americano, o golpe pôs fim a um ciclo de intensa mobilização popular e abriu caminho para um regime autoritário que atingiu diretamente a classe trabalhadora e suas organizações.

Os sindicatos estiveram entre os principais alvos da ditadura. Centenas de entidades sofreram intervenções, incluindo o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região. Logo nos primeiros momentos do regime, 376 bancários do Banco do Brasil tiveram seus direitos políticos cassados por dez anos, além de diversos outros militantes e dirigentes sindicais perseguidos.

A presidenta do Sindicato, Neiva Ribeiro, destaca que a lembrança desse período é fundamental também diante dos desafios atuais. "Hoje, temos um ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado, o que mostra que as ameaças à democracia não são apenas parte do passado. É preciso seguir vigilante, defendendo as instituições, a liberdade e os direitos do povo brasileiro", afirma.

"A história dos bancários mostra que, mesmo nos momentos mais duros, a organização coletiva foi fundamental para enfrentar a repressão e reconstruir a luta por direitos. É esse legado que nos inspira a seguir mobilizados, defendendo a democracia, combatendo qualquer forma de retrocesso e garantindo que nunca mais o país volte a viver um período de exceção", completa Neiva.

Tempos sombrios para a classe trabalhadora

Com o endurecimento do regime, especialmente após o Ato Institucional nº 5, em 1968, o movimento sindical passou a atuar sob forte repressão. As direções sindicais eram constantemente pressionadas à omissão ou à colaboração com o governo e o empresariado, apesar da crescente insatisfação das bases diante do arrocho salarial e das políticas econômicas recessivas.

O período também foi marcado por profundas mudanças que impactaram a vida dos trabalhadores. Entre elas, a criação do FGTS em substituição à estabilidade no emprego, a extinção do IAPB (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários) e a reforma bancária, que favoreceu a concentração do sistema financeiro em grandes conglomerados.

A partir do final dos anos 1970, no entanto, a classe trabalhadora voltou a ocupar as ruas. Em 1978, a campanha salarial dos bancários revelou a indignação da categoria com a perda do poder de compra, embora a tentativa de greve tenha sido silenciada. No ano seguinte, a vitória da Oposição Bancária nas eleições sindicais marcou o início de um processo de retomada do Sindicato pelos trabalhadores.

Sindicato sob intervenção

Mesmo diante da repressão violenta, como na greve de 1979, a categoria acumulou experiência organizativa e fortaleceu sua atuação. Em 1983, os bancários participaram da primeira greve geral desde o golpe, enfrentando não apenas a intransigência dos banqueiros, mas também a repressão do Estado.

Na véspera da paralisação, a polícia invadiu o Sindicato, prendeu dirigentes e funcionários e, posteriormente, o Ministério do Trabalho decretou nova intervenção na entidade, cassando a diretoria. Mesmo sob intervenção, a resistência não foi interrompida.

A diretoria cassada continuou organizando a categoria, mantendo a circulação da Folha Bancária, que passou a se chamar “Folha Bancária Livre”, e ocupando espaços alternativos para garantir a mobilização dos trabalhadores. Essa atuação firme assegurou conquistas importantes, como a reposição integral da inflação.

Com o avanço da redemocratização, a intervenção no Sindicato chegou ao fim em 1985, após 20 meses. A eleição da chapa Resistência, presidida por Luiz Gushiken, simbolizou a retomada definitiva da entidade pelos trabalhadores e consolidou um novo ciclo de organização, luta e compromisso com a democracia.

Defesa histórica da democracia

O Sindicato também teve papel ativo na fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983, e participou intensamente das mobilizações pelas Diretas Já, movimento que levou milhões de brasileiros às ruas na luta pelo fim da ditadura e pela retomada das eleições diretas.

Passadas mais de seis décadas do golpe de 1964, a memória desse período segue como alerta permanente sobre os riscos do autoritarismo. A trajetória do Sindicato reforça a importância da organização da classe trabalhadora na defesa dos direitos, das liberdades democráticas e da justiça social.

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