Trabalhadores do segmento IAD (Itaú Agências Digital) se reuniram no evento “Café com Estratégia” para discutir as expectativas do banco sobre metas e comportamentos esperados dos bancários. O encontro foi realizado na quarta-feira 29, no Ceic.
Na ocasião, foi anunciado que o IAD sofrerá um rebranding: a sigla passará a significar “Itaú Assessoria Digital”, com o objetivo de, segundo o banco, "entender as necessidades do cliente e do negócio, realizando a assessoria sobre o que é mais prioritário".
Cultura tóxica travestida de alta performance
No papel, o modelo de gestão de metas do Itaú, chamado internamente de Gera, estabelece ciclos trimestrais de atingimento e tem como referência o cumprimento de 100% da meta. É o que consta nos documentos, nos treinamentos e na comunicação oficial do banco.
Na prática, porém, o Sindicato de Bancários de São Paulo, Osasco e Região constatou outro cenário: cada Gerente Regional de Negócios Digitais (GRND) opera com sua própria régua: o mínimo aceitável nos corredores é 120%.
Além disso, cada gestor implementa seu próprio “método", com estratégias particulares de atingimento de metas que não estão previstas em nenhum documento oficial, mas que se tornam obrigatórias na rotina dos trabalhadores.
Outro exemplo dessa distância é a meta de recuperação. Embora o contrato de metas seja trimestral, a cobrança ocorre mensalmente, uma inversão que não está prevista no acordo formal, mas que se tornou prática corrente na gestão do dia a dia.
Critérios subjetivos
A isso se soma outro problema: o Evolui, sistema de avaliação de desempenho dos funcionários, abre espaço para critérios subjetivos definidos pelo próprio gestor. Sem parâmetros claros e uniformes, o trabalhador fica exposto a avaliações que podem refletir mais a relação com o GRND do que o desempenho real.
Uniclass e Personnalité também são afetados
Esse conjunto de pressões não é exclusivo do segmento digital. O Sindicato constata que a mesma lógica está profundamente enraizada na cultura do banco e afeta também bancários dos segmentos Uniclass e Personnalité, tanto nas agências físicas quanto digitais.
Para Gleice Pereira, dirigente sindical e bancária do Itaú, o evento realizado na quarta-feira 29 não criou esse cenário, apenas o materializou em slide, diante de uma plateia de bancários.
“Isso confirma o que o Sindicato já constatou no dia a dia: a cultura real do comercial não reconhece quem bate 100% da meta. O patamar mínimo informal está em 120%, e agora o próprio banco formaliza que 150% é a régua de quem merece visibilidade. O que o banco chama de cultura de alta performance, a gente chama de cultura do adoecimento”, afirma a dirigente.
Na prática, o que os trabalhadores vivem
Relatos recebidos pelo Sindicato mostram um quadro ainda mais grave do que o apresentado no evento.
As equipes operam com os chamados “foguinhos”, baldes de ofertas diárias compostos por clientes que simularam contratações no aplicativo e são encaminhados para contato.
O problema é que essas informações chegam com defasagem de três a cinco dias. Na prática, quando o bancário entra em contato, o cliente muitas vezes já contratou o produto por outro canal.]
Instabilidade no iClientes
A situação é agravada pelo iClientes, nova ferramenta implementada pelo banco com o objetivo de reunir em um único sistema todos os recursos utilizados pelo comercial. Na prática, a plataforma apresenta instabilidades frequentes e sai do ar com regularidade, impedindo os bancários de realizar contatos.
Metas agressivas
Quando reclamam, a resposta da gestão é que a meta é trimestral e que alguns dias de impacto podem ser compensados nos demais.
“O problema é que, com metas tão agressivas, qualquer dia perdido tem peso real e o trabalhador é responsabilizado pelo resultado independentemente das condições que o banco oferece para atingi-lo”, enfatiza Gleice.
“A meta de crédito quase dobrou de um ano para o outro. Eles mudam até no meio do trimestre. Quando você bate, tornam a meta mensal. Isso tem me causado ansiedade e insônia”, relatou um bancário do segmento.
45 mensagens em uma hora
As cobranças não se limitam aos números. Segundo outro trabalhador, o método impõe o envio de 45 mensagens via WhatsApp em uma hora e meia, além de seis negócios fechados por dia, tudo isso em sistemas que travam com frequência.
“A culpa recai sobre a gente até quando o sistema não funciona. Eles querem que você ligue para o cliente em intervalos de um minuto, mas só abrir o cadastro de um cliente demora mais de dois minutos”, disse.
Desigualdade entre metas
A desigualdade entre metas também aparece nos relatos. “Minha meta de seguros é o dobro da de outro gerente da mesma agência. Nem meu próprio gestor sabe explicar. Precisamos que o cliente atenda ao telefone para fazer qualquer assessoria, mas quando ele não atende, a culpa é nossa. Só falta o chicote, está completamente fora da realidade”, desabafou uma trabalhadora.
Para o Sindicato, o evento não trouxe novidade sobre a realidade vivida pelos bancários, mas deixou registrado o padrão de exigência que GRNDs consideram aceitável comunicar publicamente aos seus trabalhadores.
“É um segmento novo, mas já começa com cobrança excessiva de metas, além de relatos de adoecimento, assédio e humilhação. A superintendência responsável precisa ter um olhar mais humano para esses funcionários. A gestão não pode ser voltada só para a produtividade e resultados. Deve também levar em consideração o bem-estar e a saúde dos funcionários, e proibir o assédio moral”, afirma Adriana Magalhães, diretora do Sindicato e bancária do Itaú.
Você também vivencia essa realidade? Fale com o Sindicato
Os relatos dos trabalhadores são fundamentais para que o Sindicato possa atuar. Se você sofre pressão abusiva por metas, cobranças indevidas ou qualquer forma de assédio no ambiente de trabalho, registre sua denúncia pelo canal oficial, de forma sigilosa e segura.