O Itaú anunciou que o Emps+ será descontinuado. Das 400 pessoas que integram o segmento, apenas 50 permanecerão e serão realocadas em dois novos projetos. As outras 350 foram deixadas para se realocar por conta própria.
Cada um por si – sem RH, sem prazo, sem resposta
Não há plano formal de transição. O banco não ofereceu pacote, comunicado oficial ou qualquer estrutura de apoio. O que existe é uma pressão informal para que os trabalhadores busquem se realocar o quanto antes, sem que critérios objetivos tenham sido apresentados.
O parâmetro que circula internamente é o termo "High Performance", adotado como referência de seleção, mas sem qualquer definição clara de como será mensurado.
Demissões e pressão no segmento Pro
Parte dos trabalhadores do Emps+ está sendo direcionada ao segmento Pro, caminho que, segundo relatos de quem já passou ou já trabalha lá, está longe de ser uma saída tranquila.
Há registros de demissões com menos de um ano de casa, sem avaliação formal, com a justificativa genérica de "baixa performance" ou "desalinhamento cultural". Em alguns casos, a meta exigida pela gestão chega a 200% do ICM contratado para o próprio segmento Pro.
O segmento Pro exige que o gerente disponha de veículo próprio, mas o reembolso de combustível oferecido pelo banco está muito aquém do preço praticado nos postos. O uso de aplicativos de transporte não é permitido, e o prejuízo fica inteiramente com o trabalhador.
Falta de transparência é método no Itaú
A falta de transparência não é novidade no Itaú. O Sindicato já denunciou em diversas ocasiões o alto grau de subjetividade do Evolui, o sistema de avaliação de performance do banco: mesmo bancários que batem o ICM (Índice de Cumprimento de Metas) podem ser classificados abaixo do esperado.
O rótulo "High Performance" carrega o mesmo risco. Sem critérios claros, torna-se uma justificativa elástica, moldada conforme os interesses da instituição.
Diante do cenário, os próprios Gerentes Gerais estão se movimentando para tentar realocar suas equipes ao mesmo tempo em que participam de processos seletivos internos em busca de posições para si. A liderança que tecnicamente deveria amparar os gerentes está igualmente à deriva, o que aprofunda o senso de abandono entre os trabalhadores de base.
Caso concreto: erro no sistema, prejuízo para o trabalhador
O problema com o Evolui vai além de falhas estruturais, refletindo a falta de transparência e o uso arbitrário das avaliações pelo banco. Um trabalhador que migrou do Empreenda para o Emps+ provou, com prints do próprio simulador interno, que havia atingido o ICM necessário no ano. No entanto, o sistema do banco sumiu com metade dos pontos realizados em um dos trimestres, derrubando sua classificação para "abaixo do esperado".
“Eu não acho justo ter sido avaliado dessa forma. Ele não me trouxe qual foi o meu real resultado de acordo com o banco. A avaliação foi feita com o que eu apresentei para ele, porque o banco não tem esse número. E isso vai registrado como abaixo do esperado, podendo me colocar numa lista de corte nas próximas semanas”, relata um trabalhador.
O caso expõe a total insegurança dos bancários. Sem acesso detalhado aos próprios resultados de semestres e trimestres anteriores, eles ficam impossibilitados de contestar avaliações distorcidas.
Agências no limite
A crise não se restringe ao Emps+. Há relatos de agências com 8 gerentes no quadro em que, entre afastamentos e férias, apenas 5 estão ativos, respondendo por uma carteira de mais de 15 mil clientes. A sobrecarga é insustentável.
O que dizem os trabalhadores
“Na regional que estou, e não duvido que nas outras também estejam assim, o clima geral é horrível. Você sente a tensão no andar todo, no semblante das pessoas totalmente abaladas, abatidas, preocupadas. O clima das agências está opressor e exaustivo. Os funcionários estão exaustos, é uma situação insustentável. E parece que, mesmo sendo possível perceber tudo isso, os regionais pra cima não fazem nada para melhorar ou amenizar. Pelo contrário: só cobram mais, avisam de mais mudanças, demitem mais pessoas, cobram realocação pra ontem e avisam que tudo está com prazo pra acabar”, relata uma trabalhadora da área.
"Os gerentes gerais estão loucos, desesperados até mais do que nós, mas eles são os responsáveis por nós, tecnicamente. Também precisam se realocar com urgência e acabam focando em si próprios, deixando os gerentes de lado”, relata outro trabalhador.
O que vem por aí
Os dois projetos para os quais as 50 pessoas serão destinadas têm contornos distintos. O primeiro já tem data de início: o atendimento de transbordo da IA, no qual bancários humanos assumem os casos que o gerente sintético não consegue resolver, começa ainda no final deste mês com apenas três funcionários.
O segundo projeto é uma possível versão digital do segmento Pro, com estimativa de cerca de 50 vagas para 2026. O banco informou que haverá processo seletivo, ou seja, não se trata de transferência automática. Há ainda uma ressalva importante: o projeto está em fase de estudo e nada está confirmado. Para quem precisa de respostas agora, é mais uma promessa vaga num horizonte incerto.
Posicionamento do banco
Em resposta ao Sindicato, o banco informou que os clientes do Emps+ estão sendo redistribuídos entre Pro, Pro-Smart e Emps (autoatendimento digital), e parte deles será atendida por um novo modelo chamado Pro Remota, destinado a clientes que serão atendidos digitalmente a partir de São Paulo.
O banco afirma ainda que Pro e Pro-Smart passarão a funcionar de forma integrada, com atendimento segmentado e limite de clientes por gerente, e que essa unificação não resultará em demissões.
Sobre os desligamentos em curso, a instituição sustenta que não estão ocorrendo demissões e que os casos registrados decorrem exclusivamente de performance.
O banco nega também que estejam acontecendo avaliações distorcidas para impedir realocações ou provocar demissões, e informa que não houve alteração na política de reembolso.
Sindicato monitora a movimentação
Para Gleice Pereira, dirigente sindical e bancária do Itaú, as justificativas do banco conflitam diretamente com os relatos colhidos pelo Sindicato.
“Além dos trabalhadores citarem um ambiente de pressão intensa, o que mais chama a atenção é um banco com o tamanho da estrutura do Itaú cometer tantos erros na aferição das metas e manter um sistema tão sujeito à subjetividade. Hoje os trabalhadores não podem confiar na avaliação do gestor tampouco nos números que o sistema apresenta. E quem continua lucrando é o banco”, protesta a dirigente.
O Sindicato seguirá monitorando a situação e exige do Itaú transparência, envolvimento efetivo do RH e garantias concretas para os bancários afetados.
Sequência de reestruturações gera instabilidade
O segmento Empreenda, voltado ao atendimento de pequenas empresas PJ, foi o ponto de partida de uma sequência de reestruturações que hoje coloca centenas de bancários em situação de instabilidade.
Em uma primeira rodada de ressegmentação, os clientes do Empreenda foram distribuídos entre o Emps+, projeto-piloto com atendimento humano, e o Pro-Smart. O Emps+ foi estruturado para atender três perfis: empresas voltadas ao consumidor final (B2C), empresas que operam entre si (B2B) e profissionais da área médica.
Em dezembro, o Itaú inaugurou o Emps, conta-corrente PJ 100% digital, sem gerente dedicado e com atendimento realizado por inteligência artificial, destinada a empresas com faturamento anual de até R$ 3 milhões.
Agora, o banco anuncia uma segunda rodada de ressegmentação sobre o mesmo público, redistribuindo os clientes entre Emps, Pro e, possivelmente, um novo segmento ainda em estudo.
