Sindicato na luta por melhores condições de trabalho no Polo SP Leste (Foto: seeb-SP)
O Sindicato realizou, na última segunda 20, um protesto no Crona 665, também conhecido como Polo SP Leste, concentração bancária do Itaú que reúne os segmentos Pro, Business e Top Business do Itaú Empresas. O ato denunciou práticas de gestão que, de acordo com relatos recebidos pelo Sindicato, estão levando gerentes ao adoecimento. Durante a manifestação, dirigentes sindicais cobraram do Itaú respostas concretas sobre as condições de trabalho no local.
“Os bancários descrevem um ambiente de pressão crescente por resultados, avaliações de desempenho arbitrárias e responsabilização pela inadimplência de clientes. Também relatam o aumento dos afastamentos por adoecimento. Segundo os trabalhadores, o antigo ranking público — prática que configura assédio moral e é proibida pela CCT dos bancários — deu lugar a abordagens individuais, feitas diretamente pelos gestores”, explica o dirigente do Sindicato e bancário do Itaú Edegar Faria.
“Outras concentrações semelhantes do Itaú, onde funcionam os mesmos segmentos do Itaú Empresas, como o Brazilian Financial Center, na Paulista, e o WTorre, na zona sul, apresentam os mesmos relatos de pressão crescente por metas abusivas e aumento do adoecimento. O modelo tóxico de gestão adotado no Polo SP Leste não é um caso isolado”, acrescenta.
Mesmo com crédito restrito, metas aumentam
De acordo com a apuração do Sindicato, neste trimestre as metas comerciais aumentaram, mesmo com a área responsável pela análise de crédito restringindo a aprovação das operações em razão da inadimplência.
“Na prática, o gerente é cobrado por vender mais crédito e, ao mesmo tempo, tem menos propostas aprovadas pelo próprio banco. O resultado comercial passa a depender de uma etapa sobre a qual o trabalhador não exerce qualquer controle”, pontua Edegar.
Segundo relatos dos bancários, cumprir 100% das metas e alcançar mil pontos no Gera já não é mais suficiente, uma vez que gestores passaram a cobrar, informalmente, resultado equivalente a 200% das metas.
O bancário que entrega um desempenho que, até então, era considerado "esperado" corre o risco de ser classificado como "abaixo do esperado". Segundo os trabalhadores, esse é o primeiro passo para um processo de desligamento.
“Um dos casos que chegou ao Sindicato foi o de um gerente premiado com o 'boost' e demitido poucos meses depois por 'não se enquadrar no perfil do segmento Empresas'”, relata o dirigente sindical.
Evolui: uma avaliação sem critérios objetivos
A principal insatisfação dos bancários está relacionada ao Evolui, sistema de avaliação de desempenho do Itaú. Diversos trabalhadores, de diferentes plataformas, foram classificados como "abaixo do esperado", mesmo superando mil pontos no Gera.
“De acordo com o banco, a avaliação leva em conta o desempenho relativo dos bancários. Entretanto, os relatos dos trabalhadores contradizem essa justificativa. Gerentes com pontuação elevada são classificados como 'abaixo do esperado', enquanto outros colegas, com desempenho inferior e vinculados a outras gestões, são enquadrados como 'dentro do esperado'. Isso evidencia a falta de critérios objetivos no processo de avaliação”, avalia Edegar.
Panelinhas
Como a classificação no Evolui depende da comparação entre os bancários, e não apenas do cumprimento das metas individuais, o resultado de um trabalhador passa a ser influenciado também pelo desempenho — real ou percebido — da equipe ao lado.
Segundo os bancários, esse modelo favorece a formação de relações de proximidade entre gerentes-gerais, gerentes regionais e a superintendência, alimentando as chamadas "panelinhas". Quem está fora desses círculos sente que o desempenho técnico deixou de ser suficiente para garantir uma avaliação justa.
A culpa pela inadimplência recai sobre o gerente
Outra queixa recorrente dos bancários é a responsabilização dos gerentes pela inadimplência dos clientes pessoa jurídica.
O segmento Pro, por exemplo, atende micro e pequenas empresas com faturamento anual de até R$ 4 milhões. Dados do Sebrae mostram que 61% desses empreendedores ainda misturam finanças pessoais e empresariais.
“Os gerentes são responsabilizados pela inadimplência dos clientes como se ela fosse consequência de uma cobrança insuficiente, e não de decisões equivocadas dos próprios clientes. São exigidas visitas semanais aos clientes inadimplentes e participação em comitês nos quais o gerente precisa explicar, caso a caso, os motivos do atraso. Esses encontros são descritos como momentos de forte desgaste emocional, em que os gerentes se sentem expostos ao justificar, repetidamente, decisões tomadas pelos próprios clientes”, relata Edegar.
Esse cenário se agrava com as operações de crédito pré-aprovadas, disponibilizadas diretamente no aplicativo do Itaú e contratadas pelo cliente sem qualquer participação do gerente. Ainda assim, a inadimplência dessas operações impacta negativamente a meta de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) do gerente e da agência.
“Como o gerente pode ser responsabilizado por um crédito que ele nem sequer liberou? Ele não define o limite, não define a taxa, não aprova a contratação. Quem decide é o sistema do próprio banco. E, quando o cliente não paga, a cobrança e o impacto na meta recaem sobre quem não teve nenhuma gestão sobre a operação”, questiona o dirigente sindical.
Fotografias: prova de desconfiança
Para "coroar" um modelo de gestão considerado tóxico e adoecedor, parte dos gestores exige que os gerentes enviem fotografias que comprovem as visitas presenciais de cobrança, mesmo já havendo registros em sistema, relatórios e participação nos comitês. Para o Sindicato, essa exigência demonstra que a gestão não se baseia na liderança e na relação ética entre os profissionais, mas na desconfiança em relação à palavra do gerente.
Sindicato cobra respostas e mudanças
O resultado de um ambiente de trabalho marcado por metas abusivas, estímulo à competição interna, falta de critérios objetivos na avaliação de desempenho, insegurança e desconfiança da gestão só pode ser um: o crescimento do número de trabalhadores adoecidos, afastados ou que permanecem trabalhando mesmo doentes por medo das consequências.
Para mudar esse cenário, o Sindicato cobra do Itaú transparência nos critérios das avaliações de desempenho, revisão das práticas de gestão e medidas efetivas para proteger a saúde física e mental dos trabalhadores.
“Seguiremos ao lado desses trabalhadores na luta para assegurar um ambiente de trabalho saudável e justo. Para isso, é imprescindível que os bancários continuem denunciando problemas nas condições de trabalho por meio do nosso Canal de Denúncias, no qual o sigilo do denunciante é garantido”, conclui Edegar Faria.