Enquanto o mercado de trabalho brasileiro criou 1,279 milhão de novos postos em 2025, o setor bancário caminhou na direção contrária e eliminou 8.910 postos de trabalho no mesmo período.
O saldo negativo é puxado pelos bancos múltiplos (como Itaú, Bradesco e Santander), que figuram como a segunda atividade econômica que mais demitiu no país. O cenário só não foi pior graças à Caixa Econômica Federal, que registrou saldo positivo de 1.185 empregos.
Os dados são da Pesquisa do Emprego Bancário, elaborada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), com base em dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
Lucro bilionário vs. Demissões
A presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, aponta a contradição do setor.
“Itaú, Santander e Bradesco lucraram R$ 87 bilhões em 2025. Mesmo com resultados históricos, seguem demitindo e fechando agências. O resultado é a sobrecarga de trabalho para quem fica, o adoecimento da categoria e a piora no atendimento ao cliente. Por serem concessões públicas, os bancos deveriam focar no bem coletivo e não apenas na concentração de renda”, afirma.
Desigualdade de gênero e de raça
Entre os principais destaques da Pesquisa do Emprego Bancário estão a acentuada desigualdade de gênero e de raça:
- Desigualdade de gênero: O saldo negativo entre mulheres foi de -5.667 vagas, contra -3.243 entre homens;
- Desigualdade racial: Mulheres negras registraram saldo negativo de 907 postos, mesmo com o Sindicato pressionando por maior diversidade;
- Salários de admissão: Um homem não negro entra no banco ganhando, em média, R$ 9.644. Já uma mulher negra é admitida com R$ 5.424 — uma diferença de 43,7%.
Os diferenciais persistentes de gênero e de raça no setor bancário evidenciam desafios estruturais na promoção da equidade salarial e reforçam a relevância da Lei de Igualdade Salarial (Lei nº 14.611/2023), promulgada em julho de 2023 e regulamentada em novembro do mesmo ano.
“A criação dessa lei foi resultado de uma antiga reivindicação das trabalhadoras e representou um passo inicial fundamental no enfrentamento de práticas culturais que, ainda hoje, naturalizam a desigualdade salarial por gênero e raça”, destaca Neiva.
A dirigente lembra que, atualmente, o movimento sindical atua tanto na conscientização quanto na fiscalização do cumprimento da legislação.“Além disso, nas mesas de negociação, o Sindicato tem cobrado das empresas mais agilidade para assegurar a equiparação salarial entre homens e mulheres que desempenham a mesma função.”
Neiva ressalta ainda que, na última renovação da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), em 2024, a categoria bancária garantiu o compromisso dos bancos de repudiar a discriminação salarial e de apoiar a Lei de Igualdade Salarial.
Em 2025, o Sindicato e a Fenaban (federação dos bancos) assinaram uma carta compromisso pela igualdade no trabalho.
“Este tema é debatido de forma permanente na Mesa de Igualdade de Oportunidades. Criado há 23 anos por conquista da categoria, esse espaço permanente tem possibilitado avanços em pautas centrais como diversidade, combate ao assédio, inclusão de grupos mais vulneráveis — como pessoas trans e pessoas com deficiência —, além da discussão sobre igualdade salarial”, destacou, citando como exemplo o programa “Mais Mulheres na TI”, voltado à formação e à inserção de mulheres na área de tecnologia, que surgiu a partir desse fórum.
TI em alta, mas ainda excludente
Em sentido oposto, a área de Tecnologia da Informação apresentou saldo positivo, com abertura de 845 vagas. De acordo com o Dieese, a contratação de homens foi predominante nesta área, correspondendo a 78,3% contra 21,7% de mulheres.
Por outro lado, a maior contribuição para o saldo negativo ocorreu em ocupações tradicionais da área Bancária/Financeira, ocupações tradicionalmente ligadas às agências, que registrou fechamento de 9.277 vagas.
Até dezembro do ano passado, o programa “Mais Mulheres na TI” já havia capacitado aproximadamente 3.100 mulheres, por meio de bolsas de estudo custeadas pelos bancos — uma conquista do movimento sindical bancário prevista na última Convenção Coletiva de Trabalho (CCT).
Os efeitos da inovação tecnológica em todo o setor bancário, inclusive, são pauta permanentemente reforçada pelo movimento sindical nas negociações com as instituições financeiras.
“A oferta de bolsas de estudo e a requalificação profissional asseguram que os trabalhadores acompanhem as mudanças tecnológicas. Mas, além disso, defendemos que os avanços no setor devem gerar impactos positivos para a sociedade e para a categoria, especialmente com a adoção da redução da jornada de trabalho”, afirma Neiva.
Por que se sindicalizar?
O salário médio do bancário admitido [e 3,4 vezes ou 243% superior à média nacional. “Isso não é bondade dos bancos. É fruto da união da categoria em torno do Sindicato. Sem a nossa mobilização e a força da CCT, não haveria reajustes acima da inflação e nem proteção contra a arbitrariedade dos patrões”, finaliza Neiva Ribeiro.
Fortaleça quem te defende. Sindicalize-se.