A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata do gerenciamento de riscos no ambiente de trabalho, abriu uma nova frente de debate sobre saúde mental nas empresas e reforçou a necessidade de participação efetiva dos trabalhadores na construção das políticas de prevenção ao adoecimento. No setor bancário, marcado por metas abusivas, sobrecarga e forte pressão por resultados, o tema ganha ainda mais relevância.
A nova NR-1 estabelece que todas as empresas devem implementar um Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), incluindo a identificação, avaliação e controle dos riscos ocupacionais, inclusive os psicossociais, como estresse, assédio moral, ambiente tóxico e excesso de cobrança. A norma também prevê que os trabalhadores participem de todas as etapas do processo, desde a identificação dos problemas até a construção das soluções.
Para o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, no entanto, a participação dos trabalhadores não pode ser apenas protocolar. A entidade tem cobrado dos bancos mecanismos reais de escuta e acompanhamento, além da presença do movimento sindical nos processos de construção e fiscalização do PGR.
Participação efetiva
A secretária de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato, Valeska Pincovai, questiona a maneira como os bancos pretendem cumprir a exigência de participação dos empregados nos processos. “A norma determina que é responsabilidade da empresa mapear esses riscos, mas com a participação dos trabalhadores. E é justamente aí que fazemos o questionamento: o que significa, de fato, essa participação?”, ressalta.
A dirigente critica modelos baseados apenas em questionários internos aplicados pelos próprios bancos. “Não pode ser simplesmente o banco chegar e fazer um questionário com esses trabalhadores para identificar adoecimento. Muitas vezes, esses questionários são voltados para aspectos pessoais da vida do bancário, quando o correto é avaliar o ambiente de trabalho como um todo, e não a vida privada do trabalhador.”
Diante desse cenário, o Sindicato defende a criação de uma Comissão Permanente de acompanhamento do PGR, com participação dos representantes dos bancos, do SESMT (Segurança e Medicina do Trabalho), da CIPA (Comissão de Prevenção de Acidentes e Assédio), dos trabalhadores e das entidades sindicais. A proposta busca garantir que o programa não seja apenas um documento formal, mas uma ferramenta concreta de proteção à saúde dos bancários.
“Levamos esse debate à mesa de negociação e reivindicamos participação efetiva na construção e no gerenciamento dos riscos ocupacionais dos bancos, com a criação de um grupo de trabalho em que o Sindicato tenha acesso e em que a consulta aos trabalhadores seja realizada de maneira isenta, garantindo que o trabalhador não tenha medo de responder”, acrescenta Valeska.
Pacto pela saúde

O tema da saúde mental também esteve no centro da mesa de negociação entre a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) e o Sindicato, por meio do Comando Nacional dos Bancários, realizada no dia 15 de maio. Na reunião, o Sindicato reforçou a cobrança para que os bancos assumam compromisso concreto com a saúde da categoria e avancem em medidas efetivas para enfrentar o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais.
Durante a negociação, os representantes dos trabalhadores alertaram para o aumento expressivo dos afastamentos relacionados à saúde mental no setor financeiro e defenderam a construção de um pacto permanente pela saúde dos bancários, com acompanhamento contínuo das condições de trabalho e adoção de ações efetivas de prevenção. O movimento sindical também cobrou o combate às metas abusivas, à hipervigilância, à sobrecarga de trabalho e às práticas de assédio organizacional, fatores apontados como centrais para o adoecimento da categoria.
