Terceira rodada negocial foi aberta na manhã desta quinta-feira (16)
As desigualdades no sistema financeiro brasileiro seguem atingindo diferentes grupos historicamente discriminados, refletidas nas diferenças salariais, nas dificuldades de acesso e ascensão profissional e na baixa representatividade de mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ nos cargos de liderança. Na reunião realizada no dia 16 de julho, o Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) discutiram as cláusulas de igualdade de oportunidades e endividamento da Campanha Nacional 2026.
Com base em dados detalhados do DIEESE, os representantes dos trabalhadores cobraram dos bancos medidas concretas para enfrentar o abismo salarial e a sub-representação de mulheres e negros em cargos de liderança e tecnologia.
Um dos pontos centrais da reunião foi a lentidão na redução da disparidade salarial entre homens e mulheres. Embora a remuneração média das bancárias tenha subido de 77,5% para 81,6% da dos homens entre 2016 e 2025, o avanço é de apenas 0,46 ponto percentual ao ano. No ritmo atual, seriam necessários cerca de 40 anos para eliminar essa diferença.
Atualmente, a remuneração média das mulheres na categoria é de R$ 11.694, enquanto a dos homens atinge R$ 14.336 — uma diferença de 18,4%. A situação é ainda mais grave quando se aplica o recorte racial: mulheres pretas recebem, em média, 34,2% menos que os homens brancos.
Os dados apresentados pelo Comando Nacional mostram que, entre 2020 e maio de 2026, os bancos fecharam 32,3 mil postos de trabalho, sendo que cerca de 80% dessas vagas eram ocupadas por mulheres, evidenciando que a reestruturação do setor e a digitalização dos serviços financeiros têm afetado de forma mais intensa as trabalhadoras.
O Comando destacou que, apesar de as mulheres ocuparem 47,7% dos cargos de liderança em 2025, a remuneração delas nesses postos é 26% inferior à dos homens em funções similares. Além disso, a presença feminina na área de tecnologia (TI) ainda é pequena, representando apenas 24,5% do total de ocupações em 2025, um recuo em relação aos 31,9% registrados em 2012. A categoria exige o cumprimento das cláusulas 98 e 99 da Convenção Coletiva, que preveem o apoio e a transparência nas iniciativas de inclusão de mulheres no setor de TI.
“Reivindicamos medidas para ampliar a democratização do acesso ao emprego e garantir igualdade de oportunidades de contratação, ascensão profissional e remuneração para mulheres, negros e negras, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. Entre as reivindicações estão a adoção de metas de contratação para grupos sub-representados, programas de formação e ascensão para mulheres negras, fortalecimento de políticas de inclusão na área de tecnologia, combate ao racismo, à LGBTfobia e às demais formas de discriminação, além da ampliação da proteção às vítimas de violência doméstica. Os dados mostram que, no ritmo atual, serão necessários cerca de 40 anos para eliminar a diferença salarial entre homens e mulheres na categoria bancária. Não podemos esperar quatro décadas para que a igualdade se torne realidade”, destacou Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e uma das coordenadoras do Comando Nacional.
"Reforçamos a necessidade de efetiva implementação da Lei da Igualdade Salarial. Os bancos precisam construir planos de ação com transparência e participação das entidades sindicais, garantir o acompanhamento dos canais de denúncia e adotar medidas concretas para ampliar a permanência e a ascensão profissional das mulheres. Também cobramos transparência na elaboração dos relatórios, com metas, prazos, cronogramas e mecanismos de avaliação, além da capacitação de gestores e de investimentos na formação de mulheres, especialmente para ampliar sua presença nas áreas de tecnologia da informação", afirmou Juvandia Moreira, coordenadora do Comando Nacional presidenta da Contraf-CUT.
Inclusão racial
A inclusão racial também foi tema de cobrança. Pessoas negras ocupam apenas 25,2% dos cargos de liderança, e mulheres negras representam apenas 9,7% desses espaços. O Comando também reforçou a importância da Lei de Igualdade Salarial (Lei nº 14.611/2023), que obriga empresas com mais de 100 empregados a publicar relatórios de transparência salarial semestralmente, visando combater essas desigualdades estruturais.
O Comando reivindica a implementação de um protocolo nacional contra o racismo, com canais de denúncia sigilosos e fluxos obrigatórios de apuração com transparência e acolhimento qualificado.
“O protocolo de prevenção e enfrentamento ao racismo segue pendente. A categoria espera que a Fenaban avance na negociação para estabelecer um instrumento que defina procedimentos claros de acolhimento, apuração, proteção às vítimas, responsabilização e ações de prevenção, fortalecendo o compromisso do setor bancário com a igualdade racial, não apenas nas relações entre trabalhadores, mas também diante de casos envolvendo clientes.” afirmou Neiva Ribeiro. “Assim como avançamos com protocolos de combate à violência de genero, é fundamental concluir o procolo racial. Não basta reconhecer que o racismo existe; é preciso criar mecanismos efetivos para previni-lo, acolher às vitimas, investigar as denuncias e responsabilizar os casos de discriminação. Esse é um compromisso que não pode continuar pendente”, destacou. .
Violência

Diante do dado alarmante de que o Brasil registrou 1.548 feminicídios em 2025 (uma média de 4 casos por dia), o Comando Nacional apresentou uma proposta de estabilidade no emprego para mulheres vítimas de violência doméstica. A proposta prevê a manutenção do vínculo trabalhista por até seis meses de afastamento necessário e estabilidade de um ano após o retorno ao trabalho, nos moldes de instrumentos coletivos já existentes em outras categorias.
"O ambiente de trabalho não está imune à violência. Em 2024, houve um caso de agressão física contra mulheres no exercício profissional a cada 8 horas", destacou Neiva Ribeiro, citando dados do Ministério da Saúde. “A Igualdade de Oportunidades é prioridade social para 24% das bancárias e a Igualdade Salarial é uma prioridade econômica para 93% da categoria, de acordo com a Consulta da categoria deste ano, feita com 55 mil trabalhadores. O Comando Nacional aguarda agora o retorno da Fenaban sobre as propostas apresentadas, reafirmando que a modernização do setor bancário deve, obrigatoriamente, passar pela justiça social e pelo fim das discriminações”.
Em resposta às propostas apresentadas pelo Comando Nacional dos Bancários, a Fenaban sugeriu avaliar a ampliação dos canais de denúncia já existentes para que também possam receber relatos de violência praticada por clientes, como casos de racismo, assédio, homofobia e outras formas de discriminação. A entidade defendeu a criação de protocolos para apuração e definição das medidas em cada situação. Em relação ao assédio sexual, propôs aprofundar o debate sobre a inclusão de conceitos e exemplos de condutas na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), além da produção de materiais educativos para conscientização e orientação sobre situações passíveis de denúncia. Também foi apresentada a possibilidade de contratação de uma consultoria destinada às mulheres, com foco em educação financeira e apoio à recolocação profissional no setor bancário. Sobre a jornada de trabalho, a Fenaban sugeriu promover um diálogo com especialistas e consultorias para conhecer experiências relacionadas ao modelo de semana de quatro dias (4x3) e avaliar possíveis caminhos para o debate no setor.
Sobre as reivindicações relacionadas às pessoas com deficiência (PCDs), a Fenaban não avançou sobre o tema na mesa de negociação. O Comando Nacional dos Bancários, no entanto, reiterou a importância de manter o debate na mesa e insistiu na busca por avanços negociados que ampliem a inclusão e promoção garantam melhores condições para as pessoas com deficiência no setor bancário.
O Comando sugeriu que a Fenaban avalie a contratação de uma instituição especializada em heteroidentificação para apoiar a implementação e o acompanhamento de políticas de promoção da igualdade racial, garantindo maior transparência, segurança e credibilidade nos processos de verificação quando houver adoção de ações afirmativas.
Endividamento
O Comando Nacional debateu também o endividamento dos bancários, reivindicando alternativas que reduzam o peso das dívidas sobre os trabalhadores do setor financeiro.
Levantamento apresentado pelo Comando Nacional aponta que 71% dos bancários possuem algum tipo de dívida bancária, percentual semelhante ao registrado em 2024, demonstrando que o endividamento permanece elevado. O cartão de crédito aparece como a modalidade mais comum (53%), seguido pelo crédito pessoal (42%), cheque especial (30%) e financiamento imobiliário (27%).
Para o Comando Nacional, o debate sobre endividamento vai além da questão econômica. O comprometimento crescente da renda afeta diretamente a qualidade de vida, a saúde mental e as condições de trabalho dos bancários, tornando necessária uma atuação conjunta entre representantes dos trabalhadores e das instituições financeiras.
"Na Consulta Nacional que realizamos neste ano e teve a participação de quase 55 mil respondentes, 71% da categoria afirmou que está com dívidas. Esse alto índice, porém, não pode ser lido como irresponsabilidade dos trabalhadores do setor”, pontuou Neiva Ribeiro. “Segundo a CNC, entidade de pesquisa, 80% das famílias brasileiras estão endividadas. Esses altos índices, portanto, estão relacionados aos juros altos que, como todos nós sabemos, são de prática histórica das empresas que atuam no sistema financeiro brasileiro", destacou a dirigente.
“Nossa reivindicação é para que os trabalhadores bancários sejam isentos do pagamento de quaisquer tarifas bancárias e que os bancos reduzam as taxas de juros, que criem uma espécie de Desenrola Bancários”, reforçou Juvandia Moreira. “Destacamos ainda, que têm bancos que cobram dos seus funcionários taxas muito mais reduzidas que outros”, completou.
Sobre a pauta de endividamento, a Fenaban solicitou que o Comando Nacional encaminhe os dados levantados sobre a situação da categoria. A representação dos bancos informou que irá analisar as informações apresentadas e retomar a discussão nas próximas reuniões de negociação.
A próxima rodada de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban será realizada dia 21/07, abordando temas relacionados à saúde da categoria e voltaremos ao assunto do endividamento, dando continuidade às discussões da Campanha Nacional 2026.