Consulta Nacional, perfil da categoria e condições de trabalho pautam o primeiro dia de atividades da Conferência, que construirá a pauta de reivindicações da categoria para a Campanha 2026
A Conferência Nacional dos Financiários começou na tarde desta quarta-feira (5), na sede da Contraf-CUT, em São Paulo, dando início aos debates que vão definir as prioridades da Campanha Nacional 2026. O primeiro dia foi dedicado à análise das condições de saúde dos trabalhadores, do perfil da categoria e dos resultados da Consulta Nacional aos Financiários.
A abertura dos debates reforçou a importância de construir uma pauta de reivindicações alinhada à realidade da categoria. Os dados apresentados servirão de base para a definição das prioridades que serão levadas à mesa de negociação com as financeiras.
A presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, destacou que a campanha se inicia em um momento de mudanças importantes para a categoria, com a consolidação da nova data-base e o fortalecimento da organização dos financiários dentro do Ramo Financeiro. "Iniciamos mais uma Campanha Nacional dos Financiários em um momento importante para a categoria. A mudança da data-base inaugura um novo ciclo de negociações e reforça a necessidade de olharmos com atenção para a realidade desses trabalhadores. Temos uma secretaria do Ramo fortalecida, com uma dirigente que conhece de perto esse segmento e vai contribuir para aprofundarmos esse debate. A campanha é o momento de ouvir a categoria, transformar suas demandas em reivindicações e buscar avanços concretos na mesa de negociação."
A presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, ressaltou que a conferência representa um espaço estratégico para definir as prioridades da categoria diante dos desafios atuais. "Esta conferência é o espaço para construirmos coletivamente a pauta que queremos defender. Estamos falando de valorização, igualdade de oportunidades, melhores condições de trabalho, saúde, reconhecimento e direitos. Mas também precisamos compreender o cenário político e econômico, porque ele influencia diretamente a vida dos trabalhadores e o resultado das nossas negociações."
A secretária de Organização do Ramo Financeiro da Contraf-CUT, Talita Regia da Silva, lembrou que esta é a primeira Campanha Nacional realizada integralmente com a nova data-base da categoria, fixada em 1º de outubro. A mudança foi definida na Campanha Nacional de 2024 e passou por um período de transição em 2025, quando os financiários receberam reajustes em junho e outubro. "Estamos iniciando um novo ciclo para os financiários. A mudança da data-base foi uma conquista importante porque organiza melhor o processo de negociação e nos permite construir uma campanha mais conectada com a realidade da categoria. Nosso desafio é transformar as prioridades apontadas pelos trabalhadores em avanços concretos na Convenção Coletiva."
O diretor executivo da Contraf-CUT e coordenador da Comissão Nacional dos Financiários, Jair Alves dos Santos, destacou que o processo de negociação começa pela escuta da categoria. "A campanha começa ouvindo os trabalhadores. Os dados apresentados mostram com clareza quais são as principais preocupações da categoria e apontam o caminho que devemos seguir nas negociações. Nosso compromisso é transformar esse diagnóstico em reivindicações concretas, que garantam valorização, melhores condições de trabalho e proteção à saúde dos financiários."
Saúde mental e organização do trabalho entram no centro das discussões
A primeira mesa temática trouxe um panorama sobre os impactos da organização do trabalho nas financeiras. O secretário de Saúde da Contraf-CUT, Mauro Salles Machado, apresentou um diagnóstico que relaciona o modelo de gestão das empresas ao crescimento dos casos de adoecimento entre os trabalhadores.
Segundo Mauro, as financeiras operam com forte pressão comercial, metas agressivas, remuneração variável vinculada ao desempenho, monitoramento permanente por indicadores e equipes enxutas. Esse modelo intensifica os riscos psicossociais e favorece o surgimento de transtornos relacionados ao trabalho.
Durante a apresentação, ele lembrou que, entre 2012 e 2024, foram concedidos 1.966 benefícios previdenciários e acidentários aos financiários, uma média de 151 afastamentos por ano. Os dados também mostram o avanço dos afastamentos relacionados à saúde mental, principalmente por transtornos de ansiedade, depressão e estresse.
Outro ponto abordado foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a incluir a gestão dos riscos psicossociais. Mauro alertou que a norma somente produzirá resultados concretos se houver participação efetiva dos trabalhadores e fiscalização das empresas.
"A discussão sobre saúde mental precisa deixar de ser uma pauta de bem-estar para se tornar uma pauta de organização do trabalho. Sem mudanças nas metas, na cobrança e nas condições de trabalho, não existe prevenção, apenas gestão do adoecimento."
Perfil da categoria revela crescimento e desigualdades
Na segunda mesa do dia, a técnica da subseção do Dieese no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Cátia Uehara, apresentou um panorama atualizado do setor das financeiras e do perfil dos trabalhadores.
Os dados mostram que o número de financiários voltou a crescer nos últimos anos, chegando a 12.077 trabalhadores em 2025, após um período de retração. São Paulo concentra cerca de 85% da categoria. As mulheres representam 53% da força de trabalho, mas recebem remuneração média 26,1% inferior à dos homens. Também permanecem expressivas as desigualdades salariais entre trabalhadores brancos e negros.
Além das características da categoria, o levantamento também mostrou a concentração econômica do setor. As dez maiores financeiras acumularam lucro líquido de R$ 17,2 bilhões em 2025, com destaque para Nubank, Santander SCFI e Crefisa. "Os dados mostram uma categoria que voltou a crescer, mas que convive com desigualdades importantes. As mulheres já são maioria nas financeiras, porém continuam recebendo salários significativamente inferiores aos dos homens. Também observamos uma forte concentração econômica no setor, com poucas instituições concentrando grande parte dos ativos e dos lucros. Esses indicadores ajudam a compreender o cenário em que a negociação será realizada."
Consulta Nacional aponta prioridades da categoria
Encerrando a programação técnica do primeiro dia, a técnica do Dieese que assessora a Contraf-CUT, Vivian Machado, apresentou os resultados da Consulta Nacional aos Financiários 2026.
O levantamento registrou a participação de 601 trabalhadores de todo o país, crescimento superior a 230% em relação à consulta realizada em 2024, o que demonstra maior engajamento da categoria na construção da campanha.
Entre as prioridades econômicas apontadas pelos financiários estão o aumento real dos salários (73,5%), o aumento da Participação nos Lucros e Resultados (64,7%) e o reajuste diferenciado para vale-alimentação e vale-refeição (63,7%). Nas cláusulas sociais, destacam-se estabilidade no emprego (49,4%), manutenção dos direitos (30,1%), igualdade de oportunidades (26%) e previdência complementar (23%).
A pesquisa também revelou que a cobrança excessiva por metas continua impactando diretamente a saúde da categoria. Quase metade dos respondentes (49,4%) afirmou sofrer com cansaço, fadiga e preocupação constante; 23% relataram crises de ansiedade e pânico; e 30% disseram ter utilizado medicamentos controlados, como antidepressivos e ansiolíticos, nos últimos 12 meses.
"A Consulta Nacional é um instrumento fundamental para que a campanha seja construída a partir da realidade vivida pelos financiários. O aumento expressivo da participação mostra que os trabalhadores querem ser ouvidos e deixa claro que valorização salarial, estabilidade, saúde e melhores condições de trabalho continuam sendo prioridades para a categoria."
As apresentações e os debates do primeiro dia forneceram o diagnóstico que servirá de base para a construção da pauta de reivindicações da categoria. A Conferência Nacional dos Financiários prossegue nesta quinta-feira (6), com a consolidação das propostas e a aprovação da minuta de reivindicações que orientará as negociações da Campanha Nacional 2026 com as financeiras.