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Setembro Amarelo: cuidar da saúde mental também é cobrar mudanças no trabalho

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Setembro Amarelo: cuidar da saúde mental também é cobrar mudanças no trabalho

O mês atual é marcado pela campanha Setembro Amarelo, dedicada à prevenção ao suicídio e à valorização da vida. Este também é um momento importante para falar sobre saúde mental, sobre a necessidade de cada pessoa reconhecer seus limites e buscar ajuda quando necessário. Mas, quando o assunto é adoecimento relacionado ao trabalho, não basta responsabilizar o indivíduo: é preciso olhar para as condições em que ele trabalha.

Na categoria bancária, esse debate é ainda mais urgente. Os transtornos mentais respondem por 53% dos afastamentos dos bancários, enquanto, entre os trabalhadores de todas as categorias, representam 14%. O dado evidencia uma realidade que o movimento sindical denuncia há anos: a forma como o trabalho é organizado nos bancos tem impacto direto sobre a saúde dos trabalhadores.

Mesmo diante desses números, os bancos não admitem, nas mesas de negociação, a relação entre a organização do trabalho e o adoecimento da categoria. A pressão permanente pelo cumprimento de metas, muitas vezes inatingíveis, o assédio moral, as ameaças de demissão, a sobrecarga de trabalho e a redução dos postos de trabalho formam um ambiente de estresse constante.

O fechamento de agências e postos de trabalho também agrava o problema. Com menos trabalhadores para realizar as mesmas tarefas, quem permanece precisa absorver uma carga cada vez maior de trabalho. O resultado é uma rotina marcada por cobranças, pressão e insegurança, que pode culminar em quadros de ansiedade, depressão e burnout.

Uma epidemia que ultrapassa os muros dos bancos

O adoecimento mental relacionado ao trabalho não é exclusividade da categoria bancária. Profissionais de diferentes áreas enfrentam uma verdadeira epidemia de transtornos mentais.

Uma pesquisa realizada com servidores da educação e da saúde em São Paulo, divulgada no início do mês de maio, apontou que 98% dos trabalhadores da educação e 80% dos profissionais da saúde relataram já ter enfrentado ou estar enfrentando problemas de saúde relacionados ao trabalho. Os afastamentos por adoecimento mental correspondem a cerca de 25% na educação e 16% na saúde. Entre os problemas relatados estão insônia, distúrbios do sono, depressão e burnout.

Entre os profissionais de segurança pública, a preocupação também chegou ao Congresso Nacional. Em maio deste ano, a Comissão de Saúde da Câmara aprovou projeto que prevê avaliações periódicas de saúde mental para policiais e outros agentes de segurança pública, diante dos riscos e da exposição cotidiana desses trabalhadores.

São realidades diferentes, mas com um ponto em comum: o trabalho pode ser fonte de realização, mas também pode adoecer quando organizado com sobrecarga, pressão excessiva, insegurança e falta de condições adequadas.

Bancários estão no centro desse problema

Dia Nacional de Luta pela Saúde, em 20 de julho, ocupou o CEIC (Itaú) e outros locais de trabalho na base do Sindicato

No caso dos bancários, a dimensão do problema é especialmente preocupante. A Secretaria de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região atende centenas de trabalhadores todos os meses com o devido suporte e orientação. A absoluta maioria dos bancários que procuram a entidade apresenta relatos relacionados a ansiedade, depressão e burnout.

Em 2026, já foram realizados 2.101 atendimentos (até 15 de julho) pela Secretaria de Saúde. Esse número vem crescendo ano a ano: foram 2.914 atendimentos em 2025, 2.361 em 2024, 1.175 em 2023 e 848 em 2022. A maioria dos casos está relacionada a transtornos mentais.

Para a secretária de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato, Valeska Pincovai, enfrentar o problema exige reconhecer que o adoecimento não pode ser tratado apenas como uma questão individual.

“É importante que cada trabalhador cuide de sua saúde, reconheça os sinais de sofrimento e procure ajuda quando necessário. Mas não podemos aceitar que toda a responsabilidade pelo adoecimento seja colocada sobre o indivíduo. Se mais da metade dos afastamentos dos bancários está relacionada a transtornos mentais, precisamos discutir o que está acontecendo dentro dos bancos e mudar a organização do trabalho. Os bancos têm responsabilidade social sobre o adoecimento que estão produzindo”, afirma Valeska.

A dirigente ressalta que o impacto não termina quando o trabalhador sai do banco. Quando uma pessoa adoece por ansiedade, depressão ou esgotamento, toda a família pode ser afetada. A perda da qualidade de vida, as dificuldades financeiras, o medo de perder o emprego e o próprio processo de tratamento acabam atingindo também companheiros, filhos e demais familiares.

Empresa adoece, mas depois descarta

Valeska Pincovai durante mobilização do Dia Nacional de Luta pela Saúde, realizada no CEIC

O INSS nem sempre reconhece que um transtorno mental está relacionado às condições de trabalho, o que pode deixar o trabalhador ainda mais vulnerável. O reconhecimento do nexo com o trabalho é importante porque, quando caracterizado o acidente ou doença relacionada ao trabalho, o trabalhador pode ter direito à estabilidade de 12 meses após o retorno, além de outras garantias previdenciárias e trabalhistas.

Para o Sindicato, a subnotificação e o não reconhecimento dos casos contribuem para invisibilizar a dimensão real do problema. O trabalhador é submetido a uma rotina que pode adoecê-lo e, quando isso acontece, muitas vezes ainda precisa enfrentar dificuldades para ter sua doença reconhecida.

“Não podemos naturalizar a lógica de que o banco adoece o trabalhador e depois simplesmente o descarta. Precisamos combater as causas do adoecimento, garantir que os casos sejam reconhecidos como relacionados ao trabalho quando de fato forem e assegurar que o trabalhador tenha condições de se tratar sem viver sob o medo de perder o emprego”, destaca Valeska.

Sindicato acolhe, orienta e luta por mudanças

O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região atua em diferentes frentes para enfrentar o adoecimento mental da categoria. Além do atendimento e da orientação aos trabalhadores afastados ou que enfrentam problemas de saúde, a entidade cobra dos bancos medidas concretas para combater os fatores de risco presentes no ambiente de trabalho.

O Canal de Denúncias do Sindicato, por exemplo, é uma ferramenta para que bancários relatem situações de assédio, pressão abusiva e outros problemas que afetam sua saúde. A entidade também leva essas questões às negociações coletivas e cobra dos bancos medidas de prevenção e melhoria das condições de trabalho.

Outra iniciativa são os Encontros de Saúde, realizados pelo Sindicato em parceria com a Clínica do Trabalho da PUC-SP. Os grupos são gratuitos, on-line e promovidos semestralmente, criando um espaço de escuta e acolhimento para trabalhadores que enfrentam situações de assédio, pressão, metas abusivas, discriminação e outros fatores relacionados ao adoecimento.

Em setembro, duas novas turmas serão realizadas. O grupo de quintas-feiras começa em 10 de setembro, das 10h às 11h30, enquanto o grupo de segundas-feiras começa em 14 de setembro, das 19h30 às 21h. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail , pelo telefone (11) 97198-3698 ou pela Central de Atendimento do Sindicato, no (11) 3188-5200.

Mais do que oferecer um espaço de conversa, os encontros ajudam os participantes a compreender os fatores que contribuíram para o adoecimento e a ressignificar suas experiências. É uma forma de mostrar ao trabalhador que ele não está sozinho e que seu sofrimento não é simplesmente resultado de uma suposta falta de preparo ou resiliência individual.

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