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Chapéu
4 ANOS DEPOIS

Vítimas da Samarco em Mariana terão casa construída pela comunidade

Linha fina
Coordenada pelo Movimento dos Atingidos por Barragem, obra chama atenção para o descaso: nenhuma das casas destruídas pela lama foi reconstruída
Imagem Destaque
Foto: MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGEM

Antes do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 5 de novembro de 2015,  Yolanda Gouveia, hoje com 29 anos, trabalhava em casas de família na região de Barra Longa, onde mora. Seu marido, Douglas Basílio, com a mesma idade, atuava principalmente em obras. A lama que matou 19 pessoas, trouxe destruição, adoecimento e danos ambientais incalculáveis, trouxe também a criação da Fundação Renova, por meio de um termo de ajustamento de conduta assinado entre ministério público federal, do estado de Minas Gerais, do governo estadual e da Samarco, mineradora controlada pela Vale.

A reportagem é da Rede Brasil Atual.

Com o objetivo de gerenciar a reparação dos danos causados, a fundação diretamente ligada à empresa passou a centralizar muitos dos empregos ofertados na cidade. Pior para quem está do lado dos que lutam pelos seus direitos, como Yolanda, que passou a ter dificuldade para encontrar trabalho.

“A Renova separou amigos, vizinhos, parentes, e tem muita gente brigando por causa da empresa em Barra Longa. Há também muito preconceito quando você vai procurar trabalho. Eu cheguei a arranjar emprego. Mas fui mandada embora porque sou militante do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragem).

“Pode ter o preconceito, mas eu vou continuar na luta”, disse Yolanda, aplaudida de pé na noite de terça-feira 15, no auditório do Sindicato dos Professores no Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp), na região central da capital, durante lançamento da jornada de lutas pelos quatro anos do desastre de Mariana, a serem completados em novembro, e pelo primeiro aniversário da tragédia de Brumadinho, em 25 de janeiro.

Atingidos por barragens iniciam jornada de lutas para denunciar descaso da Vale

Com o lema “A Vale destrói , o povo constrói”, a agenda que inclui encontros, audiências públicas, feiras, marcha e festival cultural a partir deste mês até março do ano que vem, será marcada pela construção de uma casa em Barra Longa. A obra, com início em outubro e término previsto para janeiro, simboliza a solidariedade e também a denúncia do descaso da mineradora, que até o momento não reconstruiu nenhuma das casas destruídas pela lama da Samarco.

A família escolhida para ser beneficiada é a de Yolanda. Sua casa simples tem rachaduras e danos nas janelas causados pelo maquinário pesado para a retirada da lama de rejeitos da empresa que se recusa a incluí-la na lista de atingidos.

“Estou muito feliz com a casa, que vai ser longe da poeira da lama que fez meu filho de seis anos adoecer e ficar internado no hospital com pneumonia. Meus filhos estão muito alegres com essa casa que vai ser construída. Porque vamos ter um lugar sossegado, eles vão ter liberdade para brincar.  Agradeço muito o povo que está envolvido com essa casa. Não é obrigação construir, mas vamos poder mostrar para a Renova que somos capazes de construir”, disse.

A arrecadação de recursos para a construção já começou. É possível doar por meio da plataforma  financiamento coletivo Catarse. A campanha pode ser encontrada no link catarse.me/opovoconstroi. Há também caixinhas espalhadas por diversos pontos do país, com o lema “Doe um Tijolo”.

Disposição de lutar

Além de militantes, como Joseliza Moreira Feitosa Filha, atingida pelo crime da Vale em Brumadinho, que deixou 270 mortos – 272, considerados dois abortos ocorridos após o rompimento –, e do coordenador nacional Joceli Andrioli, o ato de lançamento da jornada de luta do MAB reuniu representantes de centrais sindicais, confederações e sindicatos, entidades, coletivos, parlamentares e estudantes. Entre eles, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto.

Ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos no governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-integrante de Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, Paulo Vannuchi foi o convidado de honra da mesa. Destacou a importância da agenda como “ofensiva política”. “É a disposição de lutar. Se cada um de nós aqui presentes tiver essa disposição, essa capacidade de tirar da nossa cabeça qualquer sentimento de derrota, de depressão, de desânimo, de achar que está tudo perdido, que não venceremos de novo, nós voltaremos a ter força, a dominar a conjuntura desse pais muito antes do que se imagina.”

Vannuchi citou discurso do presidente chileno Salvador Allende (1970-1973) –”Sigan ustedes sabiendo, que mucho más temprano que tarde, de nuevo abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre para construir una sociedad mejor” e manifestou sua esperança de que, em  curto espaço de tempo, o ex-presidente Lula possa estar livre.  “Para levarmos adiante essa justiça restaurativa, não apenas de restaurar os danos ambientais, materiais, humanos causados. Mas principalmente o que move todos vocês do MAB: políticas de não repetição. A dor toda só tem algum sentido se converge para uma ação de quem perdeu um ente querido para construir um mundo em que nunca mais aconteça um massacre humano, social e também ambiental como o da Samarco.”

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