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Cidadania

“Não existe direito à educação se não existir direito à vida”

Em entrevista exclusiva, a deputada estadual e presidenta da Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, Maria Izabel Noronha, analisa a forma como o governo estadual está conduzindo a retomada das aulas presenciais e a luta dos professoras em defesa da vida

  • Felipe Rousselet, Spbancarios
  • Publicado em 18/02/2021 13:28 / Atualizado em 18/02/2021 13:45

Foto: Reprodução/Facebook

De acordo com a última atualização do levantamento realizado pela Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), feita às 9h desta quinta-feira 18, desde o início do planejamento para a retomada das aulas presenciais nas escolas estaduais de São Paulo, em 1º de fevereiro, já foram registrados 617 casos de contaminação por coronavírus no ambiente escolar, impactando 356 unidades de ensino. O número mostra que a escalada de casos é vertiginosa, uma vez que na atualização anterior, divulgada às 19h de quarta-feira 20, eram contabilizados 513 casos. Ou seja, em apenas 14 horas já foram identificados mais de 100 novos casos.   

Em entrevista exclusiva, a deputada estadual e presidenta da Apeoesp, Maria Izabel Noronha, a Bebel, analisou a forma com que o governo estadual paulista está conduzindo a retomada das aulas presenciais e a luta dos profissionais da educação em defesa da vida. 

De acordo com Bebel, a Secretaria de Educação terá de recuar e suspender as atividades presenciais, uma vez que os casos estão em disparada. “A cada dia aumentam os casos. O governo está minimizando os impactos. Em março, o país não tinha média diária de 500 mortos e ele fechou escolas. Agora, estamos com média de mil e ele abriu. Eu acredito que ele vai ter de fechar. Os casos estão aí e vão ampliar. Estávamos em 513 ontem à noite e hoje estamos em 617, com 356 escolas atingidas”, avalia Bebel. 

“A escola não é templo sagrado. A pandemia está fora e dentro da escola. E a escola é um espaço privilegiado para a propagação do vírus. A escola lida com a aglutinação de pessoas, para dar aula você aglutina, você aglomera”. acrescenta. 

A presidenta da Apeoesp afirma ainda que o governo paulista negligenciou sua obrigação de promover adaptações e melhorias estruturais nas unidades de ensino durante os meses em que as escolas permaneceram fechadas. “O próprio secretário de Educação [Rossieli Soares] afirmou, quando tomou posse, que as escolas não tinham condições de oferecer uma educação de qualidade. Se as escolas não possuem estrutura, tinham que ser feitas reformas, reinventar o ambiente escolar, que segue arcaico com apenas lousa e giz. Teve a oportunidade por 10 meses para fazer um calendário de reformas (…) Cerca de 1.000 salas não possuem condições de funcionamento, são improvisadas. Mesmo escolas inteiras não possuem condições de funcionamento, não tiveram reformas em 20 anos de PSDB. Não dá para mandar crianças para escolas com fios desencapados. Se não morre por conta do coronavírus, morre em decorrência da estrutura oferecida.”

Bebel denuncia ainda que nem mesmo os protocolos definidos pelo próprio governo paulista estão sendo respeitados nas escolas.  “Eu quero ver se eu tiro, no Ministério Público, uma comissão oficial em cada cidade do estado com pais, professores, alunos, funcionários e um profissional da saúde. Aí veremos se estão respeitando o protocolo. Não estão. O protocolo está da escola para fora e no que o secretário fala para os meios de comunicação. Eu tenho foto de diretores desafiando e entrando em sala de aula sem máscaras. É muito preocupante”. 

De acordo com a deputada, professores estão sendo assediados para retornarem às atividades presenciais. Entretanto, ainda assim, o movimento da categoria em defesa da vida possui boa adesão. “Estão chamando professor sob assédio. Tanto não tem professores que estão juntando classe, o que vai contra o protocolo. Ele está quebrando o protocolo”, diz. 

 

 

A presidenta da Apeoesp destaca também que, mesmo com a falta de estrutura para o ensino remoto, os professores já deixaram claro que querem dar aulas desta forma até que existam condições de segurança nas unidades de ensino para o retorno presencial de professores, funcionários e alunos. 

“Não teve transição. No dia 23 de março fechou e no dia 24 virou a chave para o ensino remoto. Ele tinha de ter tirado um mês para trabalhar inclusão digital, analisar a melhor plataforma, que a escolhida foi só por vídeo. Ele não fez isso (…) Não teve qualquer ajuda de custo. Foi tudo pelo esforço dos professores. Ainda assim, os professores estão dizendo que querem trabalhar de forma remota. O que não querem é colocar em xeque a própria vida. Não existe direito à educação se não existir direito à vida. São questões que temos de colocar na escala de prioridade. Prioridade é a vida, não a vaidade do secretário ou do governador”, enfatiza Bebel, reforçando ainda que os próprios pais dos alunos possuem mais consciência que as autoridades estaduais. “O secretário de Educação não conseguiu alcançar o patamar de 5% de aulas presenciais, se chegou em 3% foi muito. Os pais são mais conscientes. A campanha que foi feita deixou os pais em alerta. Muitos pais perderam um parente, um vizinho, um amigo.”

“Enquanto o governo não tomar decisões na perspectiva de garantir a segurança para professores e alunos, não tem como retornar (…) Eu tenho um projeto de lei para vacinação prioritária da categoria e de testagem em massa. Na minha opinião, essa estratégia conteria em muito a pandemia (…) O próximo passo do nosso movimento foi dado ontem, com uma plenária para unificação com outros sindicatos em greve. Ele (secretário da Educação) já disse que não quer negociar. É autoritário, tirano. Se eles não cedem do lado de lá, não temos como ceder do lado de cá. Nossa prioridade é a vida”, conclui Bebel. 



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