Jefferson Santiago, membro fundador do Pagode da 27, percussionista e compositor (Foto: Seeb-SP)
Passados dez dias da grande festa de 20 anos do Pagode da 27 — que contou com o apoio do Sindicato e reuniu mais de 10 mil pessoas para celebrar a trajetória da tradicional roda de samba do Grajaú — a reportagem do SPBancários bateu um papo com Jefferson Santiago, percussionista, compositor e membro fundador do P27, para saber suas impressões sobre tudo o que rolou no Parque Villa-Lobos, no dia 31 de maio.
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Durante a conversa, Jefferson falou sobre a emoção da celebração, o objetivo de proporcionar uma experiência de festival para o público do Pagode da 27, a parceria com o Sindicato, as lutas contra o fechamento de agências bancárias e pelo fim da escala 6x1, e muito mais.
Confira abaixo a entrevista.
Passado um tempo do aniversário de 20 anos do Pagode da 27, já deu para absorver todas as emoções daquele domingo? Como você está se sentindo em relação ao evento? Qual é o balanço para você?
JS: A gente, aos pouquinhos, está absorvendo tudo o que aconteceu. Foi uma coisa muito grande. A ficha vai caindo aos poucos. Foi algo que nos surpreendeu; nem a gente imaginava. Por outro lado, por todos esses anos, por toda a correria desses 20 anos, nos sentimos prestigiados e realizados.
Você pode falar um pouco da importância do Grajaú na história do Pagode da 27 e como foi realizar o aniversário de 20 anos fora do bairro?
JS: Na verdade, nesses últimos quatro anos, a gente percebeu o crescimento do Pagode da 27 para além do Grajaú. Começamos a tocar mais na região central.
A partir daí, percebemos que poderíamos realizar o aniversário de 20 anos fora do Grajaú, justamente para que pessoas de outras partes da cidade pudessem ter mais facilidade para chegar ao local, com a questão do transporte mais facilitada. Foi o entendimento de que o momento do Pagode da 27 permitia realizar isso.
E, para a gente, foi maravilhoso. A proposta também era fazer com que pessoas da periferia pudessem acessar um lugar que não é costume. E, sobretudo, pudessem aproveitar uma festa com características de um festival, viver a experiência de um grande festival de forma gratuita.
Recebemos muito feedbacks nesse sentido. As pessoas diziam que a festa estava à altura de festivais pelos quais se paga R$ 200 ou mais.
Você pode nos contar sobre os projetos sociais do Pagode da 27, para além do trabalho de levar cultura e lazer ao Grajaú?
JS: No início, quando a gente tinha três anos de existência, recebemos um pedido de ajuda. Uma pessoa de uma instituição que tinha sido despejada nos procurou.
Na época, a roda de samba já reunia bastante gente. Então pensamos que poderíamos pedir para que as pessoas levassem um quilo de alimento para ajudar essa instituição. E deu super certo.
De lá para cá, virou uma chave. A gente percebeu que podia usar a nossa roda de samba como uma ponte. Temos um microfone para pedir ajuda, e começamos a fazer ações de arrecadação de alimentos. Isso foi crescendo muito.
Depois vimos que dava para fazer uma escola de futebol. Hoje temos uma escola de futebol, uma orquestra de cavaco e, no lugar onde acontece a roda de samba, temos uma biblioteca. Além disso, realizamos ações pontuais ao longo do ano, como no Natal e no Dia das Crianças.
Inclusive, tivemos que separar a parte musical da social. Antes, eram os próprios músicos que cuidavam das ações sociais. Mas tudo começou a crescer muito, tanto a parte musical quanto a social. Hoje temos uma pessoa para cuidar dessa parte social.
Também contamos com uma sede social, a Casa 27, que concentra todas essas ações.
Sobre a realização do evento de 20 anos, fiquei sabendo que vocês bateram nas portas de grandes marcas em busca de apoio, fizeram reuniões, mas encontraram resistência. Na sua opinião, qual o motivo de essas grandes marcas não terem apoiado o evento, mesmo com o crescimento do Pagode da 27, um patrimônio da cidade de São Paulo?
JS: A gente passou cerca de um ano tentando viabilizar essa festa. Na verdade, completamos 20 anos em agosto do ano passado.
Então, desde o início de 2025, vínhamos desenhando esse projeto. Queríamos fazer uma grande celebração. Contamos com uma empresa de eventos, a Zion, para desenvolver todo o projeto.
Colocamos tudo no papel, fizemos uma apresentação maravilhosa e, de fato, encontramos muita dificuldade. Eu não consigo explicar exatamente o porquê.
Para quem vive isso há 20 anos, é algo maravilhoso, que merece mais atenção por tudo o que movimenta. São duas décadas promovendo cultura e entretenimento na periferia, movimentando a economia local de um dos maiores distritos de São Paulo, com mais de 400 mil habitantes.
Mostrávamos tudo isso, apresentávamos números, mas a resposta geralmente era algo como: "É legal, mas temos outra ação para realizar". Coisas desse tipo. Tanto que o projeto acabou se estendendo até 2026.
E foi aí que conseguimos a parceria com o Sindicato.
Aproveitando o gancho, queria saber como surgiu essa parceria com o Sindicato. Qual foi a importância desse apoio para vocês? E qual é a sua avaliação sobre esse formato de parceria entre o movimento organizado dos trabalhadores e iniciativas culturais?
JS: A parceria com o Sindicato foi de extrema importância. Foi graças a ela que conseguimos realizar o evento, que foi maravilhoso. Todo mundo disse que estava perfeito.
Hoje, vamos criar um grande portfólio a partir dessa festa. Então, acho que a parceria com o Sindicato foi fundamental também para abrir portas. Para que outras marcas olhem para a gente e percebam que é algo que funciona.
Em 45 minutos, os 10 mil ingressos haviam acabado. Ter essa demanda é uma potência. É o que as marcas procuram: alcançar o maior número possível de pessoas.
Eu acho que o Sindicato abriu essa possibilidade. Foi fundamental para abrir esse caminho.
E quando surgiu a possibilidade da parceria com o Sindicato, houve algum estranhamento? Não é tão comum uma parceria nesses moldes no mercado de shows.
JS: Realmente foi diferente. Todos os contatos que vínhamos fazendo eram com grandes marcas, que costumam patrocinar esse tipo de evento.
A gente ficou surpreso, mas também entendeu que os sindicatos dialogam com tudo isso. Eles também podem patrocinar outros tipos de iniciativas. Acho importante que isso se torne mais comum.
Por outro lado, a gente também fica pensando se, de repente, pode ter sido por isso que marcas não quiseram estar junto. Hoje, o Brasil está nesse momento tão complexo da política, com a polarização e tudo. A gente não sabe até que ponto isso pode atrapalhar. Mas, de qualquer forma, a gente tem um posicionamento. O Pagode da 27 sempre se posicionou, sempre acreditando nas suas coisas, na sua ideologia.
Jamais, em hipótese alguma, negaríamos o apoio de um sindicato.
O Sindicato levou para o evento duas de suas bandeiras: a luta contra o fechamento de agências bancárias, que afeta especialmente pequenos municípios e bairros periféricos; e o fim da escala 6x1, justamente para que o trabalhador tenha mais tempo para aproveitar outros domingos mágicos como o aniversário do Pagode da 27, além de tempo para estudo, convívio familiar, cultura e lazer.
Qual é a sua percepção sobre essas pautas e sobre o poder da música e da cultura para mobilizar as pessoas nessas lutas?
JS: Total!
Eu acho que, com o crescimento da tecnologia, a questão dos bancos digitais, as pessoas, por falta de estarem conectadas com tudo o que acontece no Brasil, elas não entendem que não são todas as pessoas que possuem acesso a esse tipo de tecnologia.
Tem pessoas ainda na periferia que têm dificuldade de ter um acesso a um bom celular, uma boa internet. E elas não conseguem ter um acesso tão simples em questões tecnológicas para poder acessar um banco. Então, uma agência, de fato, é importante ter.
E, sobre a questão do fim da escala 6x1, a gente é super a favor.
A gente entende que, claro, o Pagode 27 quer levar entretenimento. Mas, através disso, a gente mostra para as pessoas que não é só o entretenimento.
Por mais que muitas pessoas vão ao Pagode 27 por conta só do entretenimento - que também é importante para essas pessoas, que passam a semana inteira trabalhando – a gente quer passar uma mensagem também. Que as pessoas possam refletir sobre as mensagens das nossas letras, sobre várias pautas que a gente defende.
Que as pessoas, sem a escala 6x1, possam ir ao Pagode 27 sem pressa. Possam curtir sem se preocupar tanto. Que as pessoas possam, por exemplo, visitar um parente que mora em outra cidade. Ter pelo menos dois dias para fazer isso.
Na escala 6x1, elas não conseguem. Ou descansa ou tem lazer.
Por fim, tenho uma pergunta especial para você. O Pagode da 27 topa fazer uma roda de samba lá no Café dos Bancários?
JS: Com certeza! A gente gosta de trabalhar e quer estar perto das pessoas que acreditam no nosso trabalho. Pintando o convite, estamos aí!