O Brasil avançou em diversos indicadores sociais em 2025, mas continua convivendo com profundas desigualdades de renda, raça, gênero e território. Essa é uma das principais conclusões do Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades, elaborado pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) no âmbito do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, em parceria com o Ministério das Mulheres.
O estudo acompanha dezenas de indicadores de áreas como trabalho, renda, saúde, educação, segurança alimentar, moradia, meio ambiente, segurança pública e representação política. Dos indicadores que puderam ser atualizados, 71% apresentaram melhora, 16% pioraram e 13% permaneceram praticamente estáveis.
Entre os resultados positivos estão a redução do desemprego, o crescimento da renda média, a queda da pobreza, avanços na segurança alimentar e na educação, além da redução das emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento. Em 2025, a taxa de desocupação caiu para 5,6% e o rendimento médio real cresceu 5,3%.
Mas o relatório também mostra que crescimento econômico, por si só, não é suficiente para enfrentar a desigualdade. A concentração de renda voltou a crescer: em 2025, o rendimento médio do 1% mais rico foi 31,5 vezes superior ao dos 50% mais pobres, ante 30,2 vezes em 2024.
Juros mais baixos também são uma questão de igualdade

É nesse ponto que a discussão sobre a política econômica ganha importância. A luta por juros mais baixos não interessa apenas a quem precisa contratar crédito ou renegociar uma dívida. Ela está diretamente relacionada à disputa por um modelo de desenvolvimento capaz de reduzir desigualdades.
O próprio relatório aponta que o enfrentamento da concentração exige mudanças nos mecanismos institucionais que favorecem a concentração da riqueza. Segundo o estudo, mesmo com a melhora do emprego e da renda, a forma como a riqueza é distribuída no país sofreu pouca alteração.
Juros elevados contribuem para aprofundar esse problema por diferentes caminhos. Para as famílias, tornam o crédito mais caro, dificultam a renegociação de dívidas e comprometem uma parcela maior da renda com o pagamento de juros. Para o Estado, aumentam o custo de financiamento da dívida pública e limitam o espaço para investimentos em saúde, educação, infraestrutura e políticas sociais. E, na outra ponta, mantêm elevada a remuneração de quem vive da renda financeira.
Para a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, o relatório reforça que combater a desigualdade exige enfrentar também a lógica de concentração de renda produzida pelo sistema financeiro.
“O relatório do DIEESE mostra que houve avanços importantes, mas também deixa claro que ainda estamos muito longe de superar as desigualdades estruturais do Brasil. Por isso, a luta dos trabalhadores precisa estar conectada à disputa pelo modelo econômico. Juros mais baixos significam crédito mais acessível para as famílias, menor custo da dívida pública e mais recursos circulando na economia. Significam também questionar um modelo que privilegia o rentismo em detrimento da produção e do trabalho. Defender juros menores é defender emprego, renda, investimento e desenvolvimento com distribuição de riqueza”, afirma Neiva.
Desigualdade não se resolve apenas com crescimento
Os dados do DIEESE ajudam a dimensionar esse desafio. Embora o rendimento médio mensal real tenha alcançado R$ 3.376 em 2025, crescimento de 16,4% em relação a 2022, as mulheres receberam, em média, apenas 72% do rendimento dos homens. Entre as mulheres negras, a situação é ainda mais grave: rendimento médio de R$ 2.184, equivalente a apenas 42% do recebido pelos homens não negros.
Também permanecem fortes as desigualdades raciais. Em 2025, cerca de 16,8 milhões de pessoas viviam em domicílios com renda per capita de até um quarto do salário mínimo. Destas, 12,3 milhões eram negras, sendo 6,7 milhões mulheres negras.
O relatório destaca ainda a regressividade da tributação: a partir das faixas mais elevadas de renda, os contribuintes mais ricos passam a pagar proporcionalmente menos imposto de renda do que pessoas de renda intermediária. A reforma do Imposto de Renda, com a ampliação da isenção para quem recebe até R$ 5 mil mensais e a criação de uma tributação mínima sobre rendas mais altas, é apontada como um passo importante, embora insuficiente isoladamente.
A diretora técnica do DIEESE, Adriana Marcolino, ressaltou a importância do estudo na construção de soluções para as problemáticas identificadas. "Mais do que retratar a realidade, os indicadores são instrumentos fundamentais para orientar prioridades, qualificar políticas públicas e acompanhar seus resultados. Esses dados são fundamentais para orientar políticas públicas que reduzam as desigualdades e melhorem a qualidade de vida da população", observa Adriana.
DIEESE: conhecimento produzido a partir do olhar dos trabalhadores
Para o Sindicato, o relatório também reafirma a importância do DIEESE como instrumento de produção de conhecimento a serviço dos trabalhadores. Criado pelo movimento sindical, com protagonismo dos bancários de São Paulo, o Departamento atua há décadas na produção de estudos, pesquisas e indicadores sobre emprego, salários, inflação, relações de trabalho, desenvolvimento e economia brasileira.
Esse trabalho é fundamental para qualificar o debate público e fortalecer a ação sindical. Informação e análise econômica são ferramentas de luta: ajudam os trabalhadores a compreender as escolhas que estão em disputa e a defender políticas públicas que coloquem a economia a serviço da maioria.