As investigações que atingem o Banco Digimais e o PicPay voltaram a colocar em evidência a necessidade de maior regulação e fiscalização do Sistema Financeiro Nacional (SFN), uma das principais bandeiras defendidas pelo movimento sindical bancário.
Nesta terça-feira (23), a Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem para investigar supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo o Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo. A Justiça Federal em São Paulo expediu nove mandados de busca e apreensão, cumpridos por mais de 50 agentes.
A operação determinou ainda o bloqueio e sequestro de bens e valores de até R$ 670 milhões, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados. De acordo com a Polícia Federal, relatórios do Banco Central apontam indícios de manipulação de demonstrativos contábeis com o objetivo de ocultar a real situação financeira da instituição e viabilizar operações supostamente irregulares.
Os investigados poderão responder por crimes como gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em documentos contábeis e realização de operações de crédito vedadas pela legislação. Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, além de Edir Macedo, a investigação alcança executivos que ocupam cargos estratégicos no banco, empresas e fundos de investimento ligados ao grupo econômico.
PicPay também é alvo de investigação
Poucos dias antes, na sexta-feira (19), o PicPay foi alvo de uma operação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que apura um esquema de descontos irregulares em folhas de pagamento de servidores públicos.
Segundo as investigações, cerca de R$ 81 milhões teriam sido descontados dos salários dos servidores sob a forma de taxas vinculadas a operações de adiantamento. A operação cumpriu mandados de busca e apreensão contra o atual CEO da fintech, Eduardo Chedid, além de alcançar o Banco de Brasília (BRB) e órgãos do governo do Distrito Federal.
Debate na Conferência Nacional dos Bancários

Os novos episódios ocorrem em um momento em que o debate sobre a supervisão do sistema financeiro ganha força entre os trabalhadores do setor. Durante a 28ª Conferência Nacional dos Bancários, o tema foi abordado pelo professor, consultor e especialista em finanças José Kobori, que criticou o processo de desregulamentação do setor financeiro nos últimos anos.
"O Banco Central nunca será independente de verdade. E já que ele será dependente, precisa ser dependente da política, dos representantes que nós elegemos, e não do mercado financeiro e dos seus interesses. Roberto Campos Neto, que é um representante do mercado de capitais, ao chegar na presidência do BC trabalhou por uma desregulamentação do sistema financeiro. Isso resultou em escândalos como o caso do Banco Master", afirmou Kobori durante a Conferência.
A discussão foi retomada no encerramento da Conferência, quando os delegados e delegadas aprovaram a ampliação da regulação do Sistema Financeiro Nacional como um dos eixos de luta e mobilização da Campanha Nacional dos Bancários 2026.
Sindicato cobra fiscalização

Para a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, os casos envolvendo o Digimais e o PicPay demonstram a importância de fortalecer os mecanismos de controle sobre as instituições financeiras, independentemente de seu porte ou modelo de atuação.
“Essas investigações mostram que a estabilidade e a credibilidade do sistema financeiro dependem de uma fiscalização rigorosa e de regras claras para todas as instituições. O avanço das fintechs e dos bancos digitais não pode significar menos controle. Ao contrário, é fundamental garantir transparência, proteção aos clientes e segurança para toda a sociedade. Por isso, defendemos o fortalecimento da regulação e da capacidade de supervisão dos órgãos públicos”, afirma Neiva.