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Chapéu
Conferência

Bancos públicos voltam a ser ameaçados

Linha fina
Na primeira mesa de debates da Conferência Nacional dos Bancários, palestrantes descataram sucateamento de instituições fundamentais para o país pelo governo Temer
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Foto: Contraf-CUT

São Paulo – Venda de ativos, sucateamento, fechamento de agências e de postos de trabalho. Foram alguns exemplos elencados pela representante dos empregados no Conselho de Administração da Caixa, Rita Serrano, para ilustrar o ataque que os bancos públicos vêm sofrendo no governo de Michel Temer. Rita (foto acima, ao microfone) foi uma das palestrantes da primeira mesa de debates da 19ª Conferência Nacional dos Bancários, que iniciou na noite de sexta-feira 28, em São Paulo, e se encerrou no domingo 30.

A dirigente bancária lembrou ainda que a mesma estratégia foi adotada por outro governo neoliberal, o de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). “Vivemos os mesmos ataques na década de 1990 e conseguimos resistir e impedir a venda da Caixa e do Banco do Brasil”. A diferença, segundo Rita, é que naquela época as ações eram tomadas com mais parcimônia, dentro de preceitos minimamente democráticos. “Agora as medidas estão vindo com muita rapidez. Mas vamos resistir. Temos de ser criativos na nossa luta. Os momentos de crise são também de renovação.”

Cartilha detalha a importância dos bancos públicos

O objetivo, como destacou, é entregar o patrimônio público à iniciativa privada. “A política adotada para a Caixa é a mesma da adotada no BB, no BNDES, na Petrobras, nos Correiros”, destacou, citando os planos de desligamento voluntários anunciados nas estatais brasileiras.

> Caixa e FGTS reforçam importância do Estado para a população e o país

Ela lembrou que a investida contra os bancos públicos é um ataque aos direitos da população brasileira porque a Caixa é fundamental para o crédito habitacional e para programas sociais, o BB é responsável por 70% do crédito agrícola e o BNDES é o maior investidor da indústria brasileira, com destaque para infraestrutura. “A Caixa responde por 66% dos financiamentos para habitação. Sozinha, foi responsável por R$ 370 bi em crédito para casa própria, enquanto Itaú, Santander, Bradesco e HSBC juntos investiam apenas R$ 86 bi em financiamento imobiliário.”

Rita destacou ainda que os bancos privados estão ávidos por tirar da Caixa a administração do FGTS, que é um dos maiores fundos usados para o investimento em habitação e agricultura. “Se isso acontecer o impacto social será enorme.”

E citou a possível venda das Lotex Privatizaçoes das Lotex (loterias instantâneas). “Metade do que se arrecada com as Lotex vai para investimento social. Entre 2011 a 2016 se arrecadou R$ 60 bi e desse total R$ 27 bi foram destinados a áreas sociais. O país vai perder muito!”, reforçou.

Sem capitalização – A dirigente também citou a recusa do governo de capitalizar o banco. “Todos os bancos precisam se adequar aos marcos regulatorios do Basileia 3. Os privados já vêm se preparando e se capitalizando. No caso da Caixa, o único acionista é o governo, e ele deveria fazer o aporte, mas o governo está dizendo que não vai fazer. E o risco de o banco não se capitalizar é não ter crédito. Este ano, pela primeira vez na sua história, a Caixa paralisou a oferta de crédito. Nao tem para oferecer porque precisa economizar capital. E para economizar vai diminuir a estrutura: vai fechar ainda mais agências, vai cortar ainda mais o número de empregados, e acabou de anunciar novo PDV. E o projeto é igualar as tarifas bancárias e os juros do crédito aos dos demais bancos privados. Ou seja, a população não vai mais ver nenhum diferencial no banco”, denuncia Rita, que também coordena a campanha Se é público é para todos, de defesa das estatais brasileiras.

BB – O Conselheiro de Administração Representante dos Funcionários do Banco do Brasil (Caref), Fabiano Felix (abaixo), também destacou o sucateamento sofrido pelo BB, com fechamento de agências e diminuição do número de funcionários. “Hoje o que estamos vivenciando no BB é uma apologia ao fenômeno da digitalização, e isso resulta em fechamento de agências, que tinham um papel social grandioso e isso tem um custo social muito alto”, disse.

“Fala-se que mais de 70% das transações do BB são por meio da internet. Mas é preciso interpretar esse dado estatístico. Dos 50 milhões de correntistas do banco, esse volume [70%] corresponde a apenas 12%. Ou seja, a imensa maioria dos clientes utilizam atendimento físico, nas agências.

Lógica do mercado – O sociólogo e cientista político Emir Sader (foto abaixo) destacou que os neoliberais querem transformar direitos em mercadoria. “Educação e Saúde não serão mais direitos, e sim mercadorias: quem tem dinheiro compra e quem tem mais dinheiro compra as melhores escolas, o melhor plano de saúde.”

Sader afirmou ser falsa a dicotomia entre Estado e iniciativa privada apresentada pelos neoliberais. “A direita defende que as opções fundamentais para nós são estado ou iniciativa privada. Eles reivindicam uma coisa muito bonita: a esfera privada, a esfera individual das pessoas. Quando na verdade o que eles querem é que tudo tenha um preço, que tudo se venda e tudo se compre”, reforçou.

Enquanto que o campo da esquerda, segundo o cientista político, é a esfera pública, é a esfera dos direitos. “O sujeito não é o consumidor, é cidadão. Direito tem de ser para todos, quando é só para alguns é privilégio. Nossa polarizaçao não é estatal versus privado, é esfera pública x esfera mercantil.” Essa é a diferença, segundo Sader, entre um governo de direita, que exclui e aumenta as desigualdades sociais, como o de FHC e agora o de Temer, e um governo progressista, como o foram os de Lula e Dilma, que investiram na promoção da inclusão dos cidadãos, com projetos sociais executados por empresas públicas.

“Os bancos públicos são fundamentais nessa questão. A Caixa cresceu extraordinariamente no bojo da expansão das políticas sociais. Banco privado vive não de financiar produção, consumo, pesquisa. Vive de financiar papéis, vive do endividamente de empresas, de pessoas, de famílias”, criticou.

Ele finalizou ressaltando que o embate hoje no país é entre interesses mercantis privados e a luta por direitos e pela retomada da soberania nacional.

Após o debate, foi iniciada a abertura solene da Conferência Nacional dos Bancários. Confira a programação nos demais dias:

Sábado 29
9h às 9h30: Votação do Regimento Interno
9h30 às 11h30: Análise de conjuntura nacional e internacional
11h30 às 13h30: Defesa do Emprego Frente às Novas Tecnologias
13h30 às 14h30: Almoço
14h30 às 17h: Reforma Trabalhista
17h às 18h30: Reforma Previdenciária
18h às 19h: Prazo para substituição de delegados por suplentes

Domingo 30
9h às 13h: Plano de Lutas e encerramento