O Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, é uma oportunidade para falar não apenas sobre a importância do cuidado e do tratamento, mas também sobre as condições que levam milhões de pessoas ao sofrimento psíquico. Entre os bancários, os números e os relatos acompanhados pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região mostram que o trabalho tem papel central nesse processo.
Em 2026, somente até 15 de julho, a Secretaria de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato já havia realizado 2.101 atendimentos a bancárias e bancários afastados do trabalho. A grande maioria dos casos está relacionada à saúde mental, com diagnósticos principalmente de ansiedade e depressão, além de uma incidência cada vez mais frequente de esgotamento profissional (burnout).
O número mantém uma trajetória de crescimento preocupante. Foram 848 atendimentos em 2022, 1.175 em 2023, 2.361 em 2024 e 2.914 em 2025. Os dados nacionais também revelam a dimensão do problema. Entre 2014 e 2024, os afastamentos de bancários por transtornos mentais cresceram 168%, passando de 5.411 para 14.565.
“Não podemos tratar o adoecimento mental como um problema individual do trabalhador. Os relatos que chegam diariamente ao Sindicato mostram que existe uma relação muito forte entre a organização do trabalho e o sofrimento mental. Cuidar da saúde mental exige mudar as condições que estão adoecendo as pessoas”, afirma Valeska Pincovai, secretária de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato.

Quando o trabalho adoece
Para o Sindicato, não é possível tratar esses números apenas como consequência de problemas individuais. Os relatos recebidos pela Secretaria de Saúde mostram uma relação recorrente entre o adoecimento e a forma como o trabalho é organizado nos bancos.
Em uma dessas situações, um bancário começou a apresentar sintomas de ansiedade em meados de 2025 e iniciou acompanhamento terapêutico. Ele relatava uma rotina de estresse constante, distúrbios do sono e perda de memória. Segundo seu relato, as cobranças por produção e as metas elevadas faziam com que desenvolvesse uma sensação permanente de incapacidade.
A situação se agravava com a exposição da produtividade em grupos e reuniões com trabalhadores que não alcançavam os resultados estabelecidos. O ambiente de cobrança produzia, segundo seu relato, um enorme desconforto e sofrimento.
Em 3 de junho, em meio a esse processo de adoecimento, o bancário tomou uma grande quantidade de medicamentos. Segundo seu relato, não havia a intenção de morrer, mas de interromper a angústia e conseguir “desligar a mente”.
O caso é um exemplo extremo de uma realidade que chega diariamente ao Sindicato: trabalhadores que não adoecem simplesmente porque são “frágeis”, mas que enfrentam ambientes de trabalho capazes de produzir sofrimento, esgotamento e perda da capacidade laboral.
Nem o banco, nem o INSS podem ignorar o problema
Outro problema enfrentado pelos trabalhadores é o reconhecimento da relação entre o adoecimento e o trabalho. O Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP) é um dos instrumentos utilizados pela Previdência para identificar a relação entre determinadas doenças e as atividades profissionais. O próprio Ministério da Previdência explica que o NTEP subsidia a análise da incapacidade e a caracterização de sua natureza como acidentária ou previdenciária.
Na prática, porém, o Sindicato acompanha situações em que trabalhadores com transtornos mentais e histórico de adoecimento relacionado às condições de trabalho não têm esse vínculo reconhecido pelo INSS. Quando o benefício é concedido como previdenciário, e não como acidentário, podem surgir consequências importantes para o trabalhador, inclusive em relação à proteção no retorno ao trabalho.
Um dos relatos recebidos pela Secretaria envolve uma bancária que havia recebido benefício do INSS e tentou retornar ao trabalho, mas não tinha condições de exercer suas atividades. Após apresentar novo atestado, foi encaminhada para perícia presencial.
Segundo o relato, durante a perícia, o profissional perguntou apenas se ela pensava em se matar. Ao responder que não, mas explicar que continuava sem condições de trabalhar, teve os documentos devolvidos e o benefício negado.
Posteriormente, a bancária foi considerada apta pelo médico do banco. Mesmo apresentando novo atestado porque continuava sem condições de trabalhar, foi novamente convocada para avaliação médica. Recebeu apenas o período indicado no atestado e deveria retornar no dia seguinte. O gestor então orientou que ela trabalhasse em home office. Durante uma videochamada, porém, a trabalhadora acabou sendo desligada.
O relato evidencia uma situação que o movimento sindical considera inadmissível: uma trabalhadora em sofrimento mental, sem condições de exercer suas atividades, transitando entre avaliações, perícias e decisões que não enfrentam adequadamente a origem do adoecimento.
Nova CCT amplia a proteção

A luta pela saúde mental também produziu avanços na negociação coletiva dos bancários. A nova CCT 2026/2028 prevê a participação dos sindicatos no Programa de Gerenciamento de Riscos Psicossociais, dentro das novas exigências da NR-1, justamente para que fatores como sobrecarga, pressão, conflitos e assédio sejam identificados e enfrentados.
A presidenta do Sindicato e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Neiva Ribeiro, destaca que a nova CCT também ampliou os mecanismos de combate ao assédio, permitindo que os canais dos bancos recebam denúncias relacionadas a atos praticados por clientes contra trabalhadores, além de manter a atuação sindical na defesa da categoria.
"Essas conquistas são importantes, mas precisam sair do papel. Para o Sindicato, somente a participação dos trabalhadores e de suas entidades representativas no diagnóstico e resolução dos riscos psicossociais poderá solucionar esse grave problema que historicamente aflige a categoria", afirma Neiva.