O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) prevê um corte de gastos públicos, que ficou conhecido como “tesouraço”. Economistas da campanha, liderados pela coordenadora-geral do programa, Daniella Marques, defendem um ajuste equivalente a 1,5% a 2% do PIB, entre R$ 190 bilhões e R$ 250 bilhões.
Questionada sobre como pretende concretizar os cortes, Daniella, ex-presidente da Caixa e ex-integrante da equipe econômica de Jair Bolsonaro, respondeu: “Eu não sou a Mãe Dináh”. A declaração foi dada durante entrevista ao programa C-Level, da Folha de S.Paulo, em agosto.
E acrescentou: “Não falaremos. A gente vai para o chão do Congresso trazer todo mundo para a mesa para cortar na carne, fazer autocontenção. Depois a gente vai discutir o que sobra.”
Entre as medidas examinadas pela campanha estão mudanças no financiamento da saúde, da educação e da Previdência, mas não há detalhes quais despesas pretende reduzir nem como os cortes afetariam os serviços públicos.
“A resposta chama a atenção não apenas pelo deboche diante de uma pergunta legítima, mas pela gravidade do assunto. Afinal, não é necessário prever o futuro para explicar um plano econômico. É preciso apresentar dados, prioridades e propostas concretas ao eleitor”, afirma Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo.
‘Tesouraço’ pode afetar saúde, educação e Previdência?
Um ajuste dessa magnitude levanta dúvidas sobre a possibilidade de alcançar a economia anunciada apenas com redução de cargos comissionados, combate a desperdícios e mudanças administrativas.
Segundo a Folha de S.Paulo, integrantes da equipe econômica estudam alterações nas despesas obrigatórias, incluindo a desvinculação dos reajustes de benefícios previdenciários e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) dos ganhos reais do salário mínimo.
Outra possibilidade é modificar os pisos constitucionais da saúde e da educação, substituindo a vinculação às receitas públicas por correções pela inflação.
Essas mudanças poderiam limitar o crescimento dos recursos destinados ao SUS, às escolas públicas e aos benefícios de aposentados, pensionistas, idosos de baixa renda e pessoas com deficiência. Os efeitos dependeriam das regras aprovadas e da evolução das receitas.
Flávio Bolsonaro nega que pretenda prejudicar aposentados e afirma que manterá aumentos reais dos benefícios previdenciários. A campanha também ressalta que medidas discutidas informalmente não representam necessariamente compromissos oficiais.
Entretanto, permanece sem esclarecimento como essas garantias seriam conciliadas com o corte de até R$ 250 bilhões.
Flávio votou contra proposta que garantia recursos ao Bolsa Família
O histórico do senador também integra o debate sobre suas prioridades econômicas.
Em dezembro de 2022, Flávio orientou a bancada do PL a votar contra a PEC da Transição, que viabilizava recursos para manter o Bolsa Família em R$ 600 e financiar programas como Auxílio Gás e Farmácia Popular. A orientação está registrada no site do Senado.
O candidato também se posiciona contra a ampliação da tributação sobre grandes patrimônios e rendimentos elevados. Em junho de 2025, criticou a taxação de grandes fortunas, alegando risco de saída de investidores do Brasil.
Segundo a Reuters, Flávio pretende ainda rever a tributação sobre dividendos, vigente desde 2026 e incidente sobre determinados rendimentos elevados distribuídos a acionistas.
Essas posições levantam questionamentos sobre a distribuição do esforço fiscal: enquanto sua equipe examina medidas que poderiam restringir o crescimento das despesas sociais, o candidato sinaliza a revisão de impostos sobre rendimentos do capital.
Propostas econômicas acumulam mudanças de discurso
As dúvidas não se limitam ao corte de gastos. Sobre o fim da escala 6x1, Flávio havia classificado a proposta como “oportunista” e “eleitoreira”, defendendo maior flexibilidade nas jornadas e remuneração por hora trabalhada.
Nesta terça-feira (13), porém, anunciou que votará a favor do fim da escala 6x1. Também afirmou que um eventual governo arcaria com custos adicionais para as empresas, sem detalhar o financiamento.
Na área tributária, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, acusou a campanha de divulgar informações enganosas sobre a reforma tributária, especialmente sobre o recolhimento automático de impostos, conhecido como split payment.
Quem pagaria a conta do ‘tesouraço’?
O equilíbrio das contas públicas envolve escolhas que afetam a distribuição de renda e o financiamento dos direitos sociais.
Combater a sonegação, rever benefícios tributários injustificados, reduzir privilégios e ampliar a eficiência administrativa são alternativas discutidas pela campanha de Lula.
Já as mudanças examinadas pela equipe de Flávio Bolsonaro nos pisos da saúde e da educação e nos reajustes previdenciários poderiam restringir recursos destinados à população.
Embora a campanha afirme que preservará programas sociais e evitará prejuízos aos mais vulneráveis, ainda não detalhou como pretende conciliar essas promessas com o ajuste bilionário.
“Daniella Marques não precisa ser ‘Mãe Dináh’ para responder de onde sairão os recursos. Como coordenadora-geral de um programa de governo que pretende administrar o orçamento federal, tem a responsabilidade de explicar as medidas propostas e suas consequências. O eleitor tem o direito de saber, antes de votar, se a conta do ‘tesouraço’ será apresentada aos mais ricos ou cobrada dos trabalhadores, aposentados e brasileiros que dependem dos serviços públicos”, afirma Neiva Ribeiro.