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Diversidade

Transexuais lutam por dignidade e emprego

Pessoas trans relatam preconceito e dificuldades ao ingressar no mercado de trabalho

  • Danilo Motta, redação Spbancarios
  • Publicado em 27/01/2020 11:51 / Atualizado em 07/02/2020 15:10

Arte: visibilidadetrans.com.br

No dia 29 de janeiro é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade de Transexuais e Travestis. A data foi firmada em 2004, quando ativistas foram a Brasília lançar a campanha “Travesti e Respeito”. Desde então, todo ano entidades e movimentos sociais realizam atividades para reforçar esta pauta.

O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região também abraça essa causa. Os bancários podem adotar em todos os documentos próprios emitidos pela entidade (carteirinha, requisições, cadastros) o uso do nome social a partir da autodeterminação, para pessoas trans, garantindo um tratamento de acordo com a identidade expressada. Além disso, os representantes dos trabalhadores também entraram em contato com os maiores bancos (Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Santander), e todos confirmaram que têm em seus quadros funcionais da ativa travestis ou transexuais. Foi confirmado, ainda, que estes bancários podem fazer o uso do nome social e têm garantido um ambiente não-discriminatório para trabalhar.

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“O mercado de trabalho é um espaço profundamente preconceituoso e transfóbico. Muitos empregadores alegam que o cliente não vai saber lidar com isso, mas é o contrário: insistir em empregar pessoas trans é fundamental porque é uma forma de enfrentar o preconceito e dizer não à exclusão”, avaliou o coordenador do coletivo LGBT do Sindicato, Anderson Pirota.

Foi o caso do bancário transexual João (nome fictício, para preservar a identidade do profissional). Ele conta que chegou a adoecer devido à falta de sensibilidade da empresa para lidar com a questão da diversidade sexual e identidade de gênero.

“Meu ingresso no mercado de trabalho foi em 2005 no setor bancário e, apesar do ingresso não ter sido difícil, as políticas tradicionais da empresa, vestimenta social para homens e mulheres, no qual eu tinha que usar salto alto e roupas femininas, me causavam bastante desconforto, me levando a depressão. Depois me formei em educação física com o intuito de poder trabalhar em um ambiente onde poderia me vestir de forma mais masculina e ser aceito desta forma. A questão é que educação física não era minha vocação e acabei escolhendo pela forma como eu poderia me portar e me vestir e não por vocação. Meu processo de transição começou em 2016 e nesta época estava fora do mercado de trabalho. Fiquei desempregado por 2 anos e em 2018 voltei ao mercado de trabalho começando do zero como atendente de cobrança e ganhando um salário mínimo, mas já com a minha identidade. A partir daí minha carreira ascendeu”, relatou.

Caso o banco não garanta o seu direito ao nome social ou você seja vítima de assédio motivado por transfobia, entre em contato com o Sindicato, por meio do nosso canal de denuncia de assédio moral.

Fora do mercado

Se nos bancos o respeito à diversidade sexual vem sendo exigido pelos trabalhadores, fora do mercado de trabalho formal a realidade é bem diferente. É o que conta Isabela, trabalhadora autônoma transexual.

“Eu tive uma experiência que me marcou bastante em uma empresa de telemarketing, há uns 10 anos. E eu tinha passado numa seleção em meio a muitas pessoas. Quando pediram meus documentos, que eu apresentei em particular, já que na seleção tinha muita gente e poderia ser constrangedor porque eu sou trans, eles disseram que não iam me contratar porque eu não tinha sido sincera com eles. Por isso eu fui desclassificada. Isso me marcou muito porque eu vi que era muita transfobia”, relatou.

Para a assistente social Fernanda de Moraes, secretária executiva geral da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), muitas empresas enxergam pessoas transexuais e travestis como um grupo marginalizado – e não como profissionais capazes de atuar em qualquer área de trabalho.

 

 

“A sociedade precisa se capacitar sobre esse assunto para eliminar esse preconceito, pois muitas são excelentes profissionais. Com a decisão do STF, muitas delas conseguiriam voltar às escolas, faculdades e universidades e se tornaram excelentes profissionais, sejam como secretárias, advogadas, psicólogas, assistentes sociais, professoras”, analisou.

“Eu me formei em auxiliar de enfermagem e devido à dificuldade no mercado de trabalho, principalmente na área de enfermagem com travestis e trans, eu parei de estudar. Hoje eu retifiquei o nome eu estou mais esperançosa, pois é possível que eu consiga entrar no mercado de trabalho”, complementou Isabela.

Para contribuir na reinserção social desta população, a prefeitura de São Paulo lançou o programa Transcidadania em 2015, sob a gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT). A atual coordenadora do projeto, Abigaill Santos, conta que um dos focos do programa é a preparação desta população com palestras e cursos, por exemplo, mas ainda há resistência por parte dos empregadores para absorver esta mão de obra.

“Infelizmente, o mercado de trabalho ainda é muito transfóbico. Por isso, quando fazemos encaminhamentos para vagas de emprego, procuramos saber qual é a política que a empresa adota e também fazemos iniciativas de sensibilização e de orientação com todo o corpo funcional, de diferentes cargos e hierarquias, para que todas(os) beneficiárias(os) possam ingressar no mercado de trabalho sem sofrer nenhum tipo de transfobia. Entretanto no ramo financeiro ainda não encontramos empresas que se dispusessem a oferecer vagas de trabalho para nossas beneficiárias, mas estamos abertos a propostas”, explicou. “Eventuais casos [de discriminação] que possam ocorrer [devem ser] prontamente notificados à nossa Coordenação. Dessa forma, entramos em contato com as empresas para buscarmos soluções de modo a impedir que tais danos voltem a acontecer”, concluiu.

Para Pirota, a não inserção de pessoas transexuais e travestis no mercado formal contribui para a marginalização, colocando estes indivíduos em situação de vulnerabilidade.

“É importante salientar que o Brasil lidera o ranking dos países que mais matam pessoas trans. E porque isso acontece? Obviamente isso vem pela ausência de inclusão social. Embora haja leis promulgadas em relação aos direitos LGBT, essa visibilidade fica só no papel, onde é tudo bonito, mas no seio da sociedade a situação é mais complicada. A pessoa trans tem dificuldade de acesso ao sistema educacional, e para mudar essa realidade é fundamental que haja políticas públicas de inclusão na escola e depois continue na universidade”, completou.



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