Mesmo após a mega operação Carbono Oculto – envolvendo o MP-SP (Ministério Público de São Paulo), o MPF (Ministério Público Federal) e as polícias Federal, Civil e Militar, que expôs em agosto de 2025 os tentáculos do PCC (Primeiro Comando da Capital) na cadeia de produção e distribuição de combustíveis e também no sistema financeiro – o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), retirou R$ 355 milhões do programa de integração e aparelhamento da segurança voltado ao combate ao crime organizado, vinculado à SSP (Secretaria de Segurança Pública). As informações foram publicadas pelo portal Brasil de Fato.
O corte consta na LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2026, aprovada pela Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) em 16 de dezembro, com 58 votos favoráveis e 19 contrários. O corte só não foi ainda maior devido à emenda apresentada pelo PT (Partido dos Trabalhadores), que acatada parcialmente recompôs o orçamento da área em R$ 15 bilhões.
Menos de um mês antes da aprovação da LOA 2026, 23 entidades ligadas às polícias Civil, Militar e Penal se manifestaram contra o então secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, e o governador Tarcísio de Freitas por melhores condições de trabalho. “Segurança pública não se faz com discursos, e sim com resultados”, declarou na época o presidente da Adpesp (Associação dos Delegados do Estado de São Paulo), delegado André Santos Pereira.
“O governador Tarcísio faz um discurso duro contra o crime organizado, mas o orçamento conta outra história. O resultado final do Orçamento Estadual para 2026 mostrou que os cidadãos paulistas, que sofrem com a criminalidade causada pelo crime organizado, poderão estar em um risco maior com a decisão que ele tomou de reduzir os recursos para combater as facções criminosas”, enfatiza o deputado estadual e ex-presidente do Sindicato, Luiz Cláudio Marcolino (PT-SP).
“Combater facções não se faz apenas com retórica ou ações pontuais, mas com investimento contínuo em inteligência e estrutura. Mesmo que no geral, o investimento global da Secretaria de Segurança Pública tenha aumentado pouco”, acrescenta o parlamentar.
O orçamento total previsto para a Secretaria da Segurança Pública em 2026 é apenas 2,80% superior ao de 2025. Em artigo publicado no site da Adpesp, o delegado André Santos Pereira, presidente da entidade, afirma que este crescimento orçamentário foi “integralmente absorvido pelas despesas de custeio e pessoal, enquanto o orçamento de Investimento foi drasticamente reduzido em 67,57%".
Corte no treinamento da Polícia Civil
Outra área afetada por corte orçamentário da gestão Tarcísio de Freitas para 2026 foi o programa de seleção, formação, capacitação e aperfeiçoamento da Polícia Civil. O orçamento caiu de R$ 984,8 milhões para R$ 562,4 milhões, um corte de R$ 422,3 milhões (42,8% dos recursos).
O corte de recursos para a formação e treinamento dos policiais civis compromete a capacidade da instituição de acompanhar a evolução dos métodos do crime organizado, cada vez mais complexos e inseridos em diversas áreas da sociedade, conforme ficou evidente na Operação Carbono Oculto.
“Enquanto faz pose de linha dura no combate ao crime organizado, fica evidente a contradição entre o discurso de Tarcísio e o corte orçamentário imposto por ele justamente nas áreas de combate ao crime organizado, treinamento e atendimento de saúde aos policiais. Enquanto o crime vai sofisticando seus métodos e se inserindo em todas as áreas da sociedade paulista, inclusive no sistema financeiro através de fintechs e fundos de investimentos, o governador precariza as forças de segurança. Quem perde é a população, que fica a mercê do avanço das organizações criminosas”
Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região
Menos saúde para a PM
O orçamento de 2026 prevê ainda corte de R$ 7 milhões para o atendimento à saúde de policiais militares da ativa, previsto no programa Proteção e Defesa do Cidadão, por meio da ação “Atendimento à Saúde do Policial Militar”. Em 2025, o orçamento foi de R$ 65,4 milhões. Para 2026, caiu para R$ 58,5 milhões.
Além do corte, de acordo com reportagem do jornal Folha de S.Paulo o governo paulista não aderiu ao Escuta Susp, programa do Ministério da Justiça e Segurança Pública que prevê atendimento psicológico online aos profissionais da área de segurança pública. Apenas São Paulo e Goiás não aderiram ao programa.
O corte orçamentário no atendimento à saúde de policiais militares e a não adesão ao Escuta Susp se dá em um contexto no qual o número de suicídios supera o de mortes de policiais em combate no Brasil. Em 2023, primeiro ano da gestão Tarcísio de Freitas, o número de suicídios entre policiais militares bateu recorde no estado de São Paulo, com 43 casos registrados.
“Como vice-presidente da Comissão de Finanças da Alesp, eu afirmo com clareza: orçamento é escolha política. E esse corte demonstra que o governo Tarcísio não está colocando o enfrentamento ao crime organizado no centro das suas prioridades. Isso compromete não só o presente, mas também a perspectiva para 2026, porque desmonta políticas que exigem planejamento de médio e longo prazo. Não é possível falar em fortalecimento da segurança pública enquanto se reduzem recursos essenciais para investigação, integração entre órgãos e formação policial. Esse tipo de corte fragiliza o Estado e favorece quem vive da ilegalidade”, conclui o deputado Luiz Cláudio Marcolino.