Quanto mais polêmico, agressivo ou chocante for o conteúdo, maior o engajamento. E quanto maior o engajamento, mais receita
As big techs que controlam as principais redes sociais lucram bilhões com publicidade digital. Parte desse faturamento é alimentada por conteúdos que espalham desinformação, ataques e discursos de ódio contra mulheres. Nas plataformas, influenciadores ligados à chamada “machosfera” — conjunto de perfis e canais que difundem ideias machistas e antifeministas — transformaram a misoginia em modelo de negócio.
A lógica é simples: quanto mais polêmico, agressivo ou chocante for o conteúdo, maior tende a ser o engajamento. E quanto maior o engajamento, mais tempo os usuários permanecem nas plataformas — o que aumenta a exibição de anúncios e a receita das big techs.
Esse funcionamento é impulsionado pelos algoritmos que organizam o que aparece no feed de usuários. Programados para priorizar conteúdos que geram curtidas, comentários, compartilhamentos e discussões acaloradas, esses sistemas acabam promovendo vídeos e postagens que despertam indignação, conflito e polarização. Assim, conteúdos misóginos, ofensivos ou provocativos passam a circular mais, atingindo um público cada vez maior.
Na prática, isso cria um incentivo econômico perverso: quanto mais extremo for o discurso, maior a probabilidade de viralizar.
A misoginia como indústria digital
Um relatório técnico do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), produzido em parceria com o Ministério das Mulheres, mostra que esse fenômeno não é pontual, mas sim estruturado. O estudo “Aprenda a evitar ‘esse tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube” analisou 76.289 vídeos relacionados à chamada machosfera brasileira e identificou uma ampla rede de influenciadores que lucram com a disseminação de discursos de ódio contra mulheres.
Segundo o levantamento, apenas um grupo específico de 137 canais misóginos já reúne mais de 4 bilhões de visualizações. Cada vídeo publicado nesses canais alcança, em média, 28,8 milhões de visualizações, e os perfis possuem cerca de 152 mil inscritos em média.
Além do alcance massivo, a pesquisa mostra que 80% desses canais utilizam algum tipo de monetização, seja por publicidade nas plataformas, assinaturas, doações ou venda de produtos e cursos online.
Em atualização recente do estudo, pesquisadores constataram que 90% dos canais identificados continuam ativos nas plataformas, mesmo após denúncias e debates públicos sobre o tema. Juntos, eles acumulam mais de 23 milhões de inscritos e cerca de 130 mil vídeos publicados.
Ou seja: apesar das regras das plataformas contra discurso de ódio, o conteúdo continua circulando e gerando audiência — e dinheiro.
Como funciona a estratégia da “machosfera”
Os influenciadores desse ecossistema digital utilizam uma série de estratégias discursivas para atrair audiência. Muitas vezes, o conteúdo é apresentado como “conselhos de relacionamento” ou “desenvolvimento pessoal masculino”. No entanto, por trás dessa embalagem, os vídeos difundem ideias que desumanizam ou culpabilizam mulheres.
Entre os temas recorrentes estão ataques a feministas, críticas a mães solteiras e discursos que classificam mulheres acima de 30 anos como “indesejáveis” ou “interesseiras”.
Esse tipo de narrativa cria comunidades digitais em que jovens e homens frustrados se identificam com os influenciadores e passam a consumir conteúdos cada vez mais radicais — fenômeno que especialistas apontam como processo de radicalização algorítmica.
Trends misóginas que viralizam
O problema não se restringe aos canais especializados em misoginia. Nas redes sociais, tendências virais também ajudam a normalizar a violência simbólica contra mulheres.
Um exemplo recente é a trend que circula no TikTok com a frase “treinando caso ela diga não”. Nos vídeos, homens aparecem simulando agressões físicas ou encenando situações de intimidação contra mulheres como se fosse uma “piada”.
A tendência se espalhou rapidamente nas últimas semanas, acumulando milhões de visualizações e replicações em diferentes plataformas, o que gerou forte reação de movimentos feministas e especialistas em violência de gênero.
Esse tipo de conteúdo funciona justamente porque explora o chamado “engajamento de choque”: vídeos que geram revolta, indignação ou debate intenso tendem a ser impulsionados automaticamente pelos algoritmos.
Jovens vulneráveis e radicalização digital
Outro ponto de preocupação é o público que consome esse material. Pesquisas indicam que adolescentes e jovens emocionalmente inseguros estão entre os principais alvos desses influenciadores.
Em busca de pertencimento, orientação afetiva ou validação social, muitos acabam entrando em comunidades digitais onde a frustração pessoal é canalizada para o ressentimento contra mulheres.
Especialistas alertam que, em contextos extremos, esse processo pode contribuir para a radicalização e até para a prática de violência real.
A necessidade de regulamentação
Para a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, o avanço da misoginia nas redes sociais evidencia a urgência de políticas que responsabilizem as plataformas digitais.
“Hoje existe um modelo de negócios nas redes sociais que premia o conflito, a violência simbólica e o discurso de ódio. Enquanto esse conteúdo continuar gerando lucro para plataformas e influenciadores, ele vai continuar sendo produzido e impulsionado”, afirma.
Segundo ela, é necessário avançar em duas frentes.
“A regulamentação das plataformas digitais é fundamental para impedir que discursos misóginos e violentos sejam monetizados. Mas isso precisa vir acompanhado de investimento em educação e políticas de igualdade de gênero. Combater o machismo estrutural também passa por formar uma cultura que valorize o respeito às mulheres e as relações saudáveis.”
Para a dirigente sindical, enfrentar esse problema é um desafio que envolve toda a sociedade.
“Não se trata apenas de moderar conteúdos nas redes. Trata-se de impedir que o ódio contra mulheres seja transformado em produto lucrativo no ambiente digital”, reforça.
Série de reportagens
Neste mês de março, o Sindicato está produzindo uma série de reportagens sobre violência contra as mulheres. Os dados são alarmantes: números de feminicídios, estupros e agressões têm crescido ano a ano. Esta é a terceira matéria da série e, ao longo dos próximos dias, publicaremos outras, abordando aspetos variados da questão. Acompanhe pelo site e redes sociais do Sindicato.
Leia as demais matérias:
- Cultura Red Pill: o discurso de ódio às mulheres que se concretiza em violências físicas, psicológicas e letais
- Combate à violência contra a mulher passa por regulamentar redes sociais e criminalizar discursos misóginos