Debate apontou caminhos para enfrentar a fragmentação do setor financeiro e destacou o papel das redes digitais na mobilização da categoria
A necessidade de reorganização do movimento sindical diante das profundas mudanças no setor financeiro e o uso estratégico da comunicação para ampliar o alcance da mobilização coletiva foram os temas centrais do último painel deste sábado (29), durante o 7º Congresso Nacional da Contraf-CUT — Organizar, defender e avançar: o futuro é nosso!
A mesa foi coordenada pela secretária de Relações Internacionais da Contraf-CUT, Rita Berlofa, e contou com a participação do secretário de Comunicação da entidade, Elias Jordão, da secretária da Juventude, Bianca Garbelini, e do secretário da Cultura, Carlos Damarindo, reunindo pesquisadores e dirigentes sindicais para discutir os desafios da organização da categoria em um cenário marcado pela digitalização, pela dispersão dos trabalhadores e pela reconfiguração do mercado financeiro.
Fragmentação do setor exige nova organização sindical
Responsável pela apresentação do mapeamento do ramo financeiro, a economista Vivian Machado, mestre em Economia Política pela PUC-SP e técnica do Dieese, destacou que o processo de transformação do setor não ocorre de forma homogênea no país. Segundo ela, a redução de agências bancárias e de vínculos tradicionais da categoria ocorre paralelamente ao crescimento de empregos em outras áreas do sistema financeiro.
“Entender as nuances regionais é fundamental para aumentar a eficiência das ações do movimento sindical, tanto para proteger o emprego bancário quanto para expandir a base de representação e levar as conquistas históricas da categoria para outros segmentos do ramo financeiro”, afirmou.
Com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho, a pesquisadora mostrou que, entre 2012 e 2024, algumas federações registraram quedas de até 40%, 33% e 31% no emprego bancário, enquanto outras tiveram reduções menores, entre 6% e 9%. Ao mesmo tempo, regiões do país passaram a concentrar a abertura de postos de trabalho em cooperativas de crédito, seguradoras e administradoras de cartão.
“Hoje existem federações em que o número de trabalhadores de outras categorias do ramo já supera significativamente o de bancários”, explicou Vivian.
Para a economista, o cenário confirma a importância da decisão tomada há duas décadas, quando a antiga Confederação Nacional dos Bancários (CNB) foi transformada na Confederação Nacional das Trabalhadoras e dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT).
“Essa mudança faz parte de um processo contínuo de reestruturação sindical para enfrentar a fragmentação do setor, impulsionada tanto pelos avanços tecnológicos quanto pelo dumping social do trabalho, quando bancos transferem atividades típicas bancárias para empresas com salários e direitos inferiores”, avaliou.
Comunicação estratégica e disputa de narrativas
A transformação das formas de mobilização social também foi tema da apresentação da pesquisadora, jornalista e diretora do Instituto Lula, Ana Flávia Marques, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e especialista em estratégias de engajamento digital.
Segundo ela, o movimento sindical e os campos progressistas vivem uma mudança estrutural na militância, que deixou de depender exclusivamente do “corpo a corpo” nas agências para atuar em um ambiente digital baseado em dados, redes orgânicas e disputa permanente de narrativas.
Entre os exemplos apresentados está a rede “Pode Espalhar”, iniciativa voltada à formação de lideranças e à organização da militância digital em escala nacional.
Atualmente, a rede está presente em 1.173 municípios brasileiros, reúne cerca de 24 mil militantes ativos e organiza mais de 10 mil lideranças em comunidades territoriais digitais. O ecossistema de comunicação associado ao projeto alcança milhões de pessoas diariamente.
De acordo com Ana Flávia, o objetivo é traduzir debates políticos para a realidade concreta dos trabalhadores, fortalecendo o engajamento social e combatendo a desinformação. “O sindicato do futuro é híbrido. Ele não abandona o território físico, mas ocupa também o território digital com método, estratégia e organização coletiva”, destacou.
Da rua às redes: a nova mobilização bancária
Na sequência do painel, a presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, abordou a transformação histórica das formas de mobilização da categoria bancária.
Ela relembrou que o movimento sindical construiu sua força nas grandes greves entre as décadas de 1970 e 1990, período marcado pela fundação da CUT, mobilizações massivas e conquistas estruturantes, como a Convenção Coletiva de Trabalho nacional de 1992.
Naquele período, a organização dependia do contato direto nas agências, da distribuição de boletins impressos e das grandes assembleias presenciais. Com a automação bancária, o fechamento de unidades físicas e a expansão do home office — intensificada após a pandemia —, o perfil da categoria mudou profundamente.
“O panfleto virou post, a passeata virou tuitaço e as assembleias passaram a acontecer também no ambiente virtual”, destacou a dirigente ao apresentar exemplos recentes de mobilizações digitais que ampliaram a visibilidade nacional das pautas dos bancários.
Apesar do avanço tecnológico, Neiva ressaltou que o movimento sindical enfrenta um novo paradoxo: possuir mais ferramentas de comunicação, mas lidar com maior dispersão da atenção e participação dos trabalhadores.
“Mais tecnologia não significa automaticamente mais mobilização. O desafio é transformar alcance digital em organização coletiva real”, afirmou.
A dirigente destacou ainda o uso crescente de inteligência de dados, pesquisas permanentes com a base e sistemas próprios de relacionamento sindical, além da utilização de canais diretos como WhatsApp e Telegram para fortalecer o vínculo contínuo com os trabalhadores. Segundo ela, as redes sociais também são espaços de organização política e construção de proximidade com a categoria. “Rede social é relacionamento. É falar com quem está longe como se estivesse perto. Tudo o que fazemos é política. Quando usamos as redes para mostrar nosso trabalho e demonstrar a importância da organização sindical, conseguimos ampliar resultados e avançar nos nossos objetivos”, afirmou. “Para a gente avançar, nós precisamos aperfeiçoar nossas habilidades de relacionamentos”, finalizou.
O 7º Congresso da Contraf-CUT segue até domingo (29), quando será eleita a nova diretoria da entidade e aprovado o plano de luta para o próximo período.