Foto: Ministério do Trabalho/Divulgação
Enquanto setores empresariais intensificam a pressão contra o fim da escala 6x1 no Brasil, novos dados sobre violações graves de direitos trabalhistas expõem um cenário mais amplo de exploração do trabalho. A atualização mais recente da chamada “Lista Suja” do trabalho escravo, divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, incluiu 169 novos empregadores. Entre eles, está o cantor Amado Batista.
O artista, que tem posicionamento público alinhado à extrema direita, foi autuado após fiscalizações realizadas em 2024, em Goiás, relacionadas ao cultivo de milho. De acordo com o MTE, 14 trabalhadores foram encontrados em condições análogas à escravidão em propriedades ligadas ao cantor. Em um dos casos, houve registro de jornada exaustiva, com trabalho iniciado ainda na madrugada e se estendendo até a noite, sem o descanso mínimo previsto em lei.
Pela legislação brasileira, o trabalho escravo contemporâneo é caracterizado por quatro elementos principais: jornada exaustiva, trabalho forçado, servidão por dívida e condições degradantes. A presença de qualquer um desses fatores já configura violação grave de direitos humanos.
O episódio ocorre em um momento em que parte do empresariado, especialmente dos setores de comércio e varejo, atua no Congresso Nacional para barrar ou adiar o fim da escala 6x1. Para o movimento sindical, há uma contradição evidente entre o discurso empresarial e a realidade enfrentada pelos trabalhadores.
- Confira o Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão, conhecido como “Lista Suja”.

Escala 6x1 e trabalho digno
O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região avalia que, embora o trabalho escravo represente a forma mais extrema de exploração, a lógica de jornadas extenuantes não está restrita a esses casos. A manutenção da escala 6x1 contribui para o adoecimento físico e mental dos trabalhadores.
“Não podemos naturalizar jornadas que levam ao esgotamento. O combate ao trabalho escravo precisa caminhar junto com a luta por condições dignas para toda a classe trabalhadora”, afirma a presidenta do Sindicato, Neiva Ribeiro. “A redução da jornada é uma medida de saúde pública, de justiça social e de desenvolvimento econômico”, completa.
Dados recentes reforçam o alerta. Com os novos nomes, a Lista Suja do trabalho escravo chega a 613 empregadores, evidenciando a persistência de práticas ilegais no país. Ao mesmo tempo, trabalhadores submetidos a jornadas intensas, ainda que dentro da formalidade, relatam níveis crescentes de estresse, adoecimento e perda de qualidade de vida.
Apesar da resistência empresarial, estudos acadêmicos apontam caminhos alternativos. Pesquisa da Unicamp, divulgada em 2025, indica que a redução da jornada para 36 horas semanais, com o fim da escala 6x1, pode gerar até 4,5 milhões de novos empregos formais no Brasil. O levantamento também projeta aumento de aproximadamente 4% na produtividade, associado à melhora na saúde física e mental dos trabalhadores.
Nesse contexto, o debate sobre a jornada de trabalho ganha dimensão estratégica: mais do que uma disputa econômica, trata-se de definir os limites entre produtividade e dignidade no mundo do trabalho contemporâneo.