A movimentação de autoridades públicas para empresas privadas - em setores sobre os quais exerciam influência no exercício da função pública - é conhecida como "porta giratória"
Reportagem do site Intercept Brasil revelou que Ronaldo Vieira Bento, ex-ministro da Cidadania no governo Bolsonaro, teria recebido transferências do Banco Master, em seu nome e para empresas ligadas a ele, no valor total de R$ 11 milhões nos últimos dois anos. De acordo com o Intercept Brasil, a informação consta na declaração de Imposto de Renda do banco enviada pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado do Senado.
Dos R$ 11 milhões, R$ 773,3 mil foram repassados diretamente a Ronaldo Vieira Bento como pessoa física. O restante foi pago a empresas nas quais o ex-ministro possuía participação societária ou exercia função de administrador. A maior parte, R$ 6,2 milhões, foi tranferida à Meta Consultoria, empresa da qual Bento é sócio, segundo o Intercept Brasil.
Em nota enviada ao Intercept Brasil, a assessoria de Ronaldo Vieira Bento afirmou que os pagamentos referem-se à sua atuação na "assessoria da instituição financeira" e que os valores foram devidamente declarados ao fisco, sendo compatíveis com os praticados pelo mercado.
Empréstimos consignados no Auxílio Brasil
Ex-agente da Polícia Federal, advogado e filiado ao Republicanos, Ronaldo Vieira Bento esteve à frente do Ministério da Cidadania entre março e dezembro de 2022, durante o governo Bolsonaro. Nesse período, participou da regulamentação do empréstimo consignado para beneficiários do Auxílio Brasil, medida criticada por seu caráter eleitoreiro e por possibilitar o endividamento de famílias já em situação de vulnerabilidade.
“O empréstimo consignado chega para se somar às demais políticas sociais como mecanismo de superação da pobreza para a população em situação de extrema pobreza ou de pobreza no nosso país”, defendeu o então ministro, em setembro de 2022, no programa A Voz do Brasil.
Relatório da CGU (Controladoria Geral da União), divulgado em agosto de 2023, apontou R$ 8,4 milhões em descontos indevidos relacionados ao consignado do Auxílio Brasil. Segundo o documento, 93% desses contratos foram firmados em outubro de 2022, durante a gestão de Ronaldo Vieira Bento no Ministério da Cidadania e antes do segundo turno das eleições presidenciais.
Porta Giratória
Após deixar o governo, segundo a reportagem do Intercept Brasil, Ronaldo Vieira Bento passou a atuar na iniciativa privada e assumiu os cargos de diretor-presidente do Banco Pleno e de administrador da Mettacard Administradora de Cartões, ambas empresas ligadas ao conglomerado do Banco Master e que tinham atuação justamente no mercado de crédito consignado.
O Banco Pleno era o antigo Banco Voiter, adquirido pelo Master em fevereiro de 2024 e posteriormente vendido a Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro, em julho de 2025. Bento assumiu a presidência do Pleno nesse período. O Banco Pleno foi liquidado pelo Banco Central em fevereiro deste ano, com determinação da indisponibilidade de bens do ex-ministro e de outros ex-controladores e ex-administradores da instituição.
A Mettacard, por sua vez, era uma empresa licenciada pelo Master que ofertava cartões de benefícios consignados com foco em servidores públicos, aposentados e pensionistas. Em seu site, a empresa informava possuir convênios com prefeituras de sete municípios, além do Instituto de Previdência do Município de São Gonçalo, da Macapá Previdência, do Tribunal de Contas do Estado do Paraná e do Governo do Estado do Paraná.
Em 24 de novembro do ano passado, o governo estadual do Paraná interrompeu os descontos em folha de pagamento referentes aos cartões da Mettacard e da Credcesta, outra empresa licenciada pelo Banco Master. O objetivo alegado foi proteger servidores estaduais contra fraudes e descontos indevidos, uma vez que o Master já era alvo de investigações da Polícia Federal.
Ronaldo Vieira Bento renunciou ao cargo na Mettacard em 10 de dezembro de 2025, menos de um mês após Daniel Vorcaro ser preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos.
“É necessário que se investiguem a fundo todas as relações do grupo Master e de Daniel Vorcaro com autoridades públicas. Cabe lembrar que o Master cresceu e ganhou destaque no mercado financeiro durante a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central, outra autoridade que, assim como Ronaldo Vieira Bento, ao deixar uma função pública passou a atuar em empresas privadas inseridas em mercados que, de alguma forma, são regulados ou influenciados pelas instituições que comandava. No caso de Campos Neto, ele assumiu uma vice-presidência do Nubank após comandar o BC. É preciso combater e impedir esse tipo de prática, conhecida como porta giratória”, avalia a presidenta do Sindicato, Neiva Ribeiro.
“O problema da chamada porta giratória é o conflito de interesses. Uma pessoa que possui informações privilegiadas de determinado setor — ao mesmo tempo em que o regula e fiscaliza — passa a atuar nesse mesmo setor de posse dessas informações. Trata-se de uma espécie de captura do Estado pela iniciativa privada. Esse caso [de Ronaldo Vieira Bento] é um exemplo típico”, reforça o professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e doutor em Políticas Internacionais, Moisés Marques.
Blindagem no Congresso
Apesar de ter sido mencionado mais de uma vez na CPMI do INSS e na CPI do Crime Organizado, nenhum dos requerimentos para ouvir e investigar Ronaldo Vieira Bento avançou.
Um dos autores desses requerimentos, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), criticou duramente o ex-ministro de Jair Bolsonaro em declaração ao Intercept Brasil.
“Ronaldo Bento foi um ministro tampão. Foi escolhido a dedo para fazer um trabalho sujo na véspera das eleições, que foi colocar milhões de reais à disposição de quem era beneficiário do Bolsa Família para contratar empréstimos consignados, endividando essas famílias e buscando, com isso, angariar votos para Jair Bolsonaro”, afirmou o parlamentar.
Sindicato defende novo marco regulatório
Diante do caso Master — além de outros episódios recentes envolvendo crimes relacionados à desregulamentação do sistema financeiro, fortemente promovida durante a gestão de Campos Neto no Banco Central —, uma das bandeiras de luta do Sindicato tornou-se ainda mais urgente e relevante: a construção de um novo marco regulatório para o sistema financeiro nacional.
“Defendemos uma regulação que fortaleça a fiscalização e a transparência, corrija assimetrias do setor e submeta fintechs e outras instituições financeiras não bancárias às mesmas normas fiscais, regulatórias e trabalhistas dos grandes bancos. Sem regulação forte, fiscalização rigorosa, transparência e proteção ao trabalho, seguiremos repetindo crises que penalizam os trabalhadores e a sociedade como um todo”, conclui Neiva Ribeiro