Representantes da categoria bancária e da Fenaban durante negociação da Campanha Nacional 2026
A Fenaban iniciou a negociação desta terça-feira (21), a quarta da Campanha Nacional 2026, ameaçando a continuidade da mesa única de negociação, defendendo separar as negociações dos bancos privados das tratativas dos bancos públicos. Essa proposta representa grave ameaça aos direitos da categoria, historicamente mantidos justamente por meio da unidade, conforme afirmou Neiva Ribeiro, coordenadora do Comando Nacional e presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região.
“Não foi uma boa negociação e, infelizmente, não houve avanços concretos. A rodada começou sob a ameaça de separação das mesas de negociação dos bancos públicos e dos privados, uma proposta que representa um retrocesso para a negociação coletiva construída ao longo de décadas. Reafirmamos que a negociação coletiva se fortalece com diálogo qualificado entre bancos públicos e privados e respeito às pautas dos trabalhadores. Por isso, seguimos defendendo a unidade da categoria bancária como principal instrumento para preservar direitos, conquistar avanços e enfrentar qualquer tentativa de enfraquecer a organização coletiva”, ressaltou Neiva.
“Nossa mesa única, com bancos públicos e privados, é um dos maiores exemplos de negociação coletiva bem-sucedida do país. Ela resistiu aos ataques promovidos durante o governo Temer e Bolsonaro, superou os desafios impostos pela pandemia e garantiu a manutenção e a ampliação de direitos para toda a categoria bancária. Não aceitaremos qualquer iniciativa que enfraqueça esse modelo ou divida a categoria. Defendemos uma negociação qualificada, que respeite as especificidades dos bancos públicos e privados e assegure espaço para discutir as demandas dos trabalhadores”, completou Neiva Ribeira ao relembrar o histórico vitorioso da unidade bancária.
Os representantes da Fenaban também ameaçaram as cláusulas de saúde presentes na Convenção Coletiva de Trabalho. Ao longo da reunião, os banqueiros questionaram os dados oficiais trazidos pelo Comando Nacional, negando insistentemente que o ambiente bancário não é adoecedor. Além disso, a negociação foi constantemente interrompida por pedidos de intervalos para discutir falsas polêmicas e questionar dados oficiais, o que consumiu um tempo precioso que deveria ter sido dedicado ao debate sobre temas centrais, como a implementação da NR-1, a prevenção dos riscos psicossociais, o combate às metas abusivas e a construção de soluções para reduzir o adoecimento da categoria.
“Após a apresentação dos dados pelo Comando, a Fenaban travou a mesa, criando falsas polêmicas e ameaçando retirar todas as cláusulas de saúde já conquistadas na CCT. Nós, do comando, reiteramos que a pauta da saúde é fundamental. Não vamos concluir a negociação sem discutir esse tema. E a mesa única é o lugar onde esse tema deve se tratado”, relatou Juvandia Moreira, coordenadora do Comando Nacional dos Bancários e presidenta da Contraf-CUT.
Em resposta às ameaças dos banqueiros, o Comando Nacional definiu um Dia Nacional de Luta para 28 de julho. A mobilização será em defesa da mesa única e pela valorização da remuneração da categoria. As negociações terão continuidade na próxima quinta-feira, dia 30, quando serão iniciadas as tratativas sobre remuneração e cláusulas econômicas.
Comando Nacional cobra medidas efetivas para enfrentar o adoecimento da categoria

A representação dos trabalhadores apresentou dados que escancaram a necessidade de medidas efetivas para enfrentar os fatores de risco presentes na organização do trabalho nos bancos. A cobrança incessante por metas, as sucessivas reestruturações e a insegurança quanto à manutenção do emprego foram apontados como fatores de risco que têm intensificado o sofrimento da categoria.
Os representantes dos trabalhadores defenderam que a prevenção desses riscos precisa integrar as políticas de gestão das instituições financeiras, em conformidade com as mudanças da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passam a exigir a identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos psicossociais nos ambientes de trabalho. O Comando Nacional defende que a representação dos trabalhadores participe da elaboração, implementação e acompanhamento do plano de gerenciamento dos riscos psicossociais, incluindo o mapeamento dos fatores de risco e a definição de ações de prevenção e combate ao assédio moral.
Neiva Ribeiro ressaltou que a situação exige uma mudança de postura por parte dos bancos. “Os dados mostram que o adoecimento da categoria não é pontual, mas resultado direto de um modelo de gestão que prioriza metas abusivas e ignora os limites humanos. É urgente que os bancos assumam sua responsabilidade e adotem medidas efetivas para garantir condições de trabalho saudáveis e dignas”, afirmou.
Os resultados da Consulta Nacional dos Bancários 2026 reforçam a gravidade desse cenário. Entre os quase 55 mil participantes, 40% disseram ter utilizado medicamento controlado nos últimos 12 meses. Além disso, 73% avaliam que o ambiente de trabalho nas instituições financeiras prejudica a saúde mental. Os sintomas mais frequentes relatados foram preocupação constante com o trabalho (67%), cansaço e fadiga (59%), desmotivação (47%), crises de ansiedade ou pânico (42%) e dificuldades para dormir, inclusive nos fins de semana (39%).
Saúde mental é motivo de alerta
O Comando Nacional também destacou que os transtornos mentais já se consolidaram como a principal causa de afastamentos entre bancárias e bancários. Em 2024, as doenças mentais e comportamentais foram responsáveis por 55,9% dos afastamentos acidentários e por 51,8% dos afastamentos previdenciários da categoria. No mesmo período, foram concedidos 14.525 benefícios relacionados à saúde mental para trabalhadores do setor, um aumento de 56,6% em relação a 2023.
Em 2025, os transtornos mentais e comportamentais também foram maioria (76%) nos atendimentos realizados pela Secretaria de Saúde do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, sendo que 75% desses casos envolveram mulheres. No mesmo ano, as bancárias também representaram 75% do total de pessoas atendidas pelo Sindicato. A série histórica de 2014 a 2026 mostra um crescimento expressivo da procura pelo serviço, especialmente a partir de 2023: em 2024 foram registrados 2.361 atendimentos, praticamente o dobro do ano anterior, e, em 2025, o número chegou ao recorde de 2.914, alta de 23%. Em 2026, apenas até abril, já haviam sido contabilizados 2.101 atendimentos.
Ao longo da negociação, o Comando Nacional reforçou que os riscos psicossociais não surgem por acaso, mas são consequência direta da forma como o trabalho é organizado nos bancos. Competição exacerbada, pressão permanente por resultados, falta de apoio das chefias, sobrecarga de trabalho e mudanças organizacionais frequentes estão entre os principais fatores que contribuem para o adoecimento da categoria.
Para enfrentar esse cenário, o Comando Nacional dos Bancários voltou a defender a implantação da jornada semanal de quatro dias, sem redução de salários e de direitos. A proposta integra a pauta de negociações da Campanha Nacional e busca reduzir a sobrecarga, melhorar a qualidade de vida e contribuir para ambientes de trabalho mais saudáveis. Também foram destacados outros instrumentos fundamentais, como a Lei da Igualdade Salarial e a Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata da eliminação da violência e do assédio no mundo do trabalho.
Endividamento bancário volta ao debate
A Fenaban trouxe sua devolutiva para as reivindicações do Comando Nacional, que na última reunião cobrou condições especiais de renegociação e juros menores para os trabalhadores. Os representantes da Fenaban alegaram que seria inviável a implementação de um "Desenrola Bancário", a afirmaram que a única medida possível seria o desfecho da campanha e o pagamento da PLR. O Comando, no entanto, manteve a defesa da proposta e reforçou que o enfrentamento do endividamento deve integrar a política de promoção da saúde da categoria.
“Enfrentar o endividamento também é uma medida de promoção da saúde. A pressão financeira se soma às exigências do ambiente de trabalho, agravando o estresse e ampliando os impactos sobre a saúde física e mental dos bancários. O endividamento dos bancários é agravado pela alta da Selic, que é estabelecida a partir dos relatórios dos próprios bancos. Por isso, seguimos defendendo a construção de mecanismos que ofereçam condições reais para que os trabalhadores renegociem suas dívidas e recuperem sua qualidade de vida”, afirma Neiva Ribeiro.
Calendário da Campanha Nacional dos Bancários
- Consultas, Conferências Estaduais e Nacional: Abril, maio e junho
- Entrega da minuta aos bancos: 24/06
- 1ª rodada de negociação: 02/07 - Cláusulas sociais
- 2ª rodada de negociação: 07/07 – Emprego bancário
- 3ª rodada de negociação: 16/07 - Igualdade de oportunidades e endividamento
- 4ª rodada de negociação: 21/07 - Saúde, condições de trabalho e endividamento
- 5ª rodada de negociação: 30/07 - Remuneração e cláusulas econômicas