Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários
A paralisação realizada nesta quinta-feira, 20 de agosto, foi uma resposta direta dos trabalhadores aos banqueiros: não vamos aceitar uma proposta rebaixada. Queremos aumento real no piso salarial, valorização da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e reajuste maior para o vale-refeição e o vale-alimentação.
A mobilização de trabalhadores de bancos públicos e privados mostrou a força da unidade da categoria. Desde as primeiras horas do protesto, milhares de bancárias e bancários participaram da paralisação, nas agências e nos locais de concentração. Ao longo do dia, a adesão cresceu com a entrada de novos locais de trabalho no movimento.
E tivemos um importante aliado: a população. Nas ruas e nas redes sociais, clientes e usuários dos serviços bancários demonstraram apoio à mobilização e compreenderam que a nossa luta também é por um atendimento bancário de qualidade e por um sistema financeiro que esteja a serviço da sociedade.
A paralisação também denunciou o fechamento de agências e a redução de postos de trabalho, práticas que precarizam o atendimento e atingem principalmente idosos, pessoas de baixa renda e aqueles que ainda dependem do atendimento presencial. Enquanto os bancos concentram seus esforços nos clientes mais rentáveis para ampliar seus lucros, milhões de brasileiros enfrentam tarifas elevadas, juros abusivos e dificuldades para acessar serviços essenciais.
A resposta da categoria é necessária porque não estamos diante de um setor em crise. Estamos diante de um dos segmentos mais lucrativos da economia brasileira.
Em 2025, os bancos lucraram R$ 174 bilhões. Apenas os cinco maiores bancos concentraram R$ 124 bilhões desse resultado. Entre 2003 e 2025, o lucro líquido dos maiores bancos brasileiros cresceu 178% acima da inflação. Entre 2020 e 2025, a variação real dos lucros chegou a 61% nos bancos privados, 10% nos bancos públicos e impressionantes 1.580% nos bancos digitais.
São números que desmontam qualquer argumento de que os bancos não teriam condições de atender às reivindicações dos trabalhadores.
A riqueza do sistema financeiro não surge por geração espontânea. Ela é produzida diariamente pelo trabalho de milhares de bancárias e bancários.
São esses trabalhadores que atendem a população, administram operações, vendem produtos e serviços, cuidam das relações com os clientes, processam transações, desenvolvem soluções e garantem o funcionamento de um sistema financeiro cada vez mais complexo e digitalizado.
Quando os lucros crescem, portanto, não é possível ignorar o trabalho que está por trás desses resultados. Reivindicar aumento real é reivindicar valorização do trabalho e distribuição da riqueza produzida. É reconhecer que quem constrói os resultados dos bancos precisa participar de forma justa deles.
A rentabilidade do sistema financeiro permanece muito acima da inflação. Mesmo depois da pandemia, a rentabilidade média dos bancos ficou cerca de três vezes acima do IPCA.
E mesmo em um cenário de juros elevados no Brasil, os bancos continuam apresentando resultados expressivos. Em 2025, a Selic teve média de 14,33%, mas o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) médio dos bancos permaneceu acima dessa taxa. Depois da pandemia, o ROE ficou, em média, 2,3 vezes acima da Selic e, desde 2022, 1,2 vez acima.
O patrimônio do setor também revela sua enorme capacidade financeira. Em 2025, o patrimônio líquido dos dois setores mais rentáveis depois dos bancos, somados, chegou a R$ 48 bilhões. O patrimônio líquido do setor bancário, sozinho, foi de aproximadamente R$ 1,2 trilhão — 25 vezes maior.
Portanto, quando os banqueiros dizem que não há espaço para atender às reivindicações da categoria, os números contam outra história.
Mas a resistência patronal não está apenas nas propostas econômicas. Os bancos também colocaram na mesa propostas que atacam a unidade da categoria.
A categoria bancária tem uma Convenção Coletiva Nacional justamente porque construiu, ao longo de décadas de organização, mobilização e luta, direitos que alcançam trabalhadores de todo o país. Essa conquista não pode ser colocada em risco.
Dividir os trabalhadores por faixa salarial, ameaçar a mesa única e estabelecer diferentes critérios de reajuste significa enfraquecer a negociação coletiva e abrir caminho para o aumento das desigualdades dentro da própria categoria.
É preciso deixar claro: não aceitaremos retrocessos.
A paralisação desta quinta-feira mostrou que os bancários estão dispostos a lutar para preservar direitos, avançar nas conquistas e garantir uma distribuição mais justa da riqueza produzida pelo trabalho.
E a nossa união já produziu resultado: os banqueiros tiveram de retroceder em propostas que atacavam a unidade da categoria na oitava rodada de negociação.
Essa é a força da mobilização. Quando os trabalhadores se organizam, ocupam as ruas e mostram sua capacidade de parar o sistema, os banqueiros precisam ouvir.
Seguiremos unidos, porque a nossa luta é por aumento real, valorização, emprego, direitos e respeito à toda a população.