Agência do Bradesco fechada na avenida Paulista durante paralisação da categoria bancária
Após oito rodadas de negociação, a Fenaban segue sem apresentar proposta de índice para o reajuste salarial, no âmbito da Campanha Nacional Unificada dos Bancários 2026.
Diante do impasse, a categoria realizou nesta quinta-feira 20 uma paralisação para pressionar os bancos a avançarem nas negociações e apresentarem uma proposta que contemple as reivindicações dos trabalhadores.
Depoimentos colhidos de bancários durante o protesto indicam os ânimos e sentimentos da categoria.
‘Proposta péssima’
“Uma proposta péssima para a categoria bancária, e a gente não viu outra alternativa a não ser fazer essa paralisação para mostrar a força que nós temos”, destacou um bancário do Bradesco durante a paralisação.
Ele se refere à proposta apresentada na sétima rodada de negociação, realizada no dia 13 de agosto, quando a Fenaban não apresentou índice de reajuste e ainda colocou na mesa proposta que representaria ataques à unidade e aos direitos da categoria (leia mais abaixo).
O anúncio da paralisação desta quinta-feira 20 já havia feito a Fenaban recuar desta proposta.
“Não dá pra negociar dessa maneira. Os bancos lucraram em 2025 mais de R$ 124 bilhões e não querem repassar para a gente aumento real nos salários, não querem negociar uma PLR maior, a valorização do nosso VR, do nosso VA. Por isso, como bancário, vejo essa paralisação como algo essencial”, avaliou um bancário da Caixa.
‘Omissão ou recusa são as respostas padrões’
Um bancário do Bradesco sente que os bancos não têm interesse em ver o lado do trabalhador.
“A cada divulgação de resultado a gente aplaude o recorde dos lucros e as novas projeções - que inclusive são alcançadas por fruto do nosso trabalho - e quando chega a hora do reajuste do trabalhador, a omissão ou recusa são as respostas padrões.”
“Muitos bancários tem anos de trajetória e a cada ano que passa nós nos sentimos mais sucateados. Eu trabalho aqui desde os 18 anos e a cada vez que vence o acordo coletivo eu vejo maiores dificuldades para garantir o mínimo”, acrescentou.
‘Desrespeito’
“A postura da Fenaban é de desrespeito. Depois de várias negociações não apresentar uma proposta é um desrespeito para nós, que construímos os lucros. Eles estão acreditando que podem criar um modelo de banco sem agência e funcionários, mas isso é impossível, e acredito que essa paralisação vai mostrar isso para eles”, afirmou uma bancária do Banco do Brasil.
‘Chega a soar engraçado’
“Os bancos se negarem a aumento real, valorização de PLR, reajustes em salário e benefícios chega a nos soar engraçado! Os bancos anunciam lucros altíssimos à custa de trabalho duro e sob assédio moral. E não querem pagar quem realmente faz tudo acontecer!”, desabafou uma bancária do Itaú.
Por que os bancários paralisaram nesta quinta 20?
Na sétima rodada de negociação da Campanha Nacional Unificada dos Bancários, realizada na quinta-feira 13, a Fenaban (federação dos bancos) não apresentou proposta de índice de reajuste para salários e demais verbas, mesmo tendo assumido este compromisso na negociação anterior.
Por outro lado, levou propostas que atacam a unidade e os direitos da categoria:
- Modelo de reajuste diferenciado em três faixas salariais (menores salários, salários intermediários e maiores salários);
- Reajuste dos vales alimentação e refeição também de acordo com três faixas salariais;
- Congelamento do piso de ingresso.
Diante da postura dos banqueiros, o Comando Nacional dos Bancários convocou assembleias em todo o país na segunda-feira 17, por meio das quais a categoria, em âmbito nacional, rejeitou a proposta da Fenaban e deliberou por paralisar as atividades nesta quinta-feira 20. Ambas as deliberações ocorreram por ampla maioria.
Banqueiros podem pagar
- Entre 2003 e 2025, o lucro líquido dos maiores bancos brasileiros cresceu 178% acima da inflação;
- Entre 2020 e 2025, a variação real do lucro no setor bancário apresentou grande crescimento: 61% nos bancos privados, 10% nos bancos públicos; 1.580% nos bancos digitais;
- Em 2025, os cinco maiores bancos tiveram lucro de R$ 124 bilhões;
- A rentabilidade média dos bancos, desde 2003, fica invariavelmente muito acima da inflação. Mesmo após a pandemia, a rentabilidade média ficou três vezes acima do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo);
- A taxa de juros reais, diferença entre a taxa de juros e a inflação, no Brasil, é uma das maiores do mundo. Portanto, análises que envolvam comparação de rentabilidade dos bancos com a taxa de juros Selic devem levar em conta a especificidade brasileira. Mesmo com a Selic em patamar muito elevado (média de 14,33% em 2025), a ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido) média dos bancos supera a taxa. Após a pandemia, ficou, em média, 2,3 vezes acima e, desde 2022, está 1,2 vezes acima;
- O Patrimônio Líquido (PL) somado dos dois setores mais rentáveis que os bancos, em 2025, somou R$ 48 bilhões. O PL do setor bancário foi de cerca de R$ 1,2 trilhão, ou seja, 25 vezes maior.