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Chapéu
Campanha dos Bancários 2026

A unidade é nossa força diante do poder dos bancos

Imagem Destaque
Pessoas com braços erguidos (Magnific)

Uma reflexão sobre os dois meses e meio de negociação da Campanha Nacional 2026, os limites da correlação de forças e a importância da unidade da categoria

Defesa da unidade da categoria:

Depois de dois meses e meio de Campanha Nacional, 13 rodadas de negociação e inúmeras propostas recusadas, é importante fazer uma pergunta sobre o resultado alcançado:

Com quem estamos negociando?

Estamos negociando com um dos setores mais rentáveis da economia brasileira. Um setor que acumula lucros bilionários enquanto acelera investimentos em tecnologia, reduz postos de trabalho e fecha agências.

Não se trata de uma negociação entre trabalhadores e empresas dispostas simplesmente a reconhecer o esforço de quem produz seus resultados.

Estamos negociando com bancos que, ao mesmo tempo em que registram lucros recordes, reorganizam profundamente o setor financeiro: substituem postos de trabalho por tecnologia, fecham unidades físicas e concentram cada vez mais o atendimento presencial nos segmentos de maior renda.

Desde 2020, com a intensificação da digitalização dos serviços financeiros, o setor bancário fechou 33 mil postos de trabalho até junho de 2026. Aproximadamente 26,5 mil desses postos eram ocupados por mulheres. Somente nos primeiros seis meses de 2026, foram eliminados mais de 7 mil empregos.

Estamos negociando com o setor que terceiriza para tirar os bancários da nossa CCT, criando empresas de TI para aumentar seus lucros.

Um setor tenta fazer acordo individual com os hipersuficientes.

É com esse setor que estamos negociando.

Um setor que, em dez anos, reduziu em 37% o número de agências bancárias no Brasil, restando pouco mais de 14 mil unidades. Desde 2015, 638 municípios ficaram sem agência bancária, deixando milhões de brasileiros sem atendimento presencial.

E sabemos onde essa redução do atendimento tem consequências mais graves.

Nas periferias, nas cidades menores, entre idosos e entre a população que ainda depende do atendimento presencial, fechar uma agência não significa simplesmente substituir uma porta por um aplicativo. Significa aumentar filas, deslocamentos e dificuldades de acesso.

Enquanto os bancos apostam cada vez mais no atendimento personalizado para clientes de alta renda, uma parcela significativa da população é empurrada para canais digitais ou simplesmente deixada sem alternativas adequadas de atendimento.

Quem sofre são os clientes e os trabalhadores.

Porque menos trabalhadores, menos agências e mais clientes concentrados significam mais sobrecarga, mais pressão e mais adoecimento.

Não estamos negociando em um cenário de estabilidade

É por isso que a discussão sobre unidade precisa considerar também as condições reais da negociação.

Hoje, os trabalhadores negociam em um cenário muito diferente daquele existente em campanhas anteriores.

Com o fim da ultratividade das normas coletivas, os direitos previstos em acordos e convenções coletivas não permanecem automaticamente protegidos após o término de sua vigência. A Reforma Trabalhista vedou expressamente a ultratividade, e o STF, em 2022, considerou inconstitucional a interpretação que mantinha automaticamente a validade das cláusulas coletivas expiradas até a assinatura de um novo acordo.

Isso tem consequências concretas.

Benefícios que não estão previstos diretamente na lei dependem da negociação coletiva para continuar existindo.

PLR, auxílios, regras de proteção e diversas outras conquistas construídas ao longo de décadas não podem ser tratadas como se fossem automaticamente permanentes.

Quando a vigência de uma Convenção Coletiva se aproxima do fim, a correlação de forças muda.

A ausência de acordo deixa de ser apenas uma disputa sobre o percentual de reajuste.
Passa a colocar em risco um conjunto inteiro de direitos.

É nesse cenário que precisamos analisar a negociação.

E o que a Fenaban fez durante esses dois meses e meio?

A Fenaban não chegou à mesa apenas para discutir reajuste salarial.

Desde o início da campanha, houve resistência inclusive à garantia da ultratividade da Convenção Coletiva durante as negociações. E, ao longo das rodadas, os bancos apresentaram uma série de posições que demonstravam claramente o interesse em reduzir custos e flexibilizar proteções. Ameaçaram diversas vezes acabar com a mesa única e judicializar a campanha.

A mesa única vai muito além de um formato de negociação. Ela representa a unidade da categoria e é responsável por garantir direitos, valorização profissional e segurança jurídica para centenas de milhares de bancários em todo o país. Desde 2003, a mesa única permitiu superar diferenças entre instituições, construir consensos e garantir avanços que beneficiaram trabalhadores de bancos públicos e privados. Essa unidade também foi decisiva para enfrentar os ataques aos direitos trabalhistas. Foi ela que permitiu atravessar os desafios impostos pela pandemia, preservar empregos, manter direitos históricos e conquistar novos avanços em uma conjuntura extremamente difícil.

Por três rodadas, a Fenaban insistiu em propostas que atingiam a complementação dos trabalhadores afastados e outras cláusulas de proteção.

Não estamos falando de detalhes burocráticos.

Estamos falando de garantias construídas justamente para proteger trabalhadores em situações de vulnerabilidade.

E por que retirar essas proteções interessa aos bancos?

Porque, em um setor que vem eliminando empregos, reduzindo agências e reorganizando funções, qualquer redução das travas representa mais liberdade para acelerar a redução de custos e de postos de trabalho.

A Fenaban também questionou verbas relacionadas à função de caixa, demonstrando uma visão de que determinadas funções bancárias poderiam simplesmente perder sua especificidade diante da digitalização.

Essa é a lógica que enfrentamos.

A lógica de que a tecnologia pode justificar a eliminação de funções, a redução de direitos e a comparação do trabalho bancário com atividades que não possuem as mesmas responsabilidades. Os bancos fecham agências sob o argumento de que os custos operacionais são elevados, mas seguem realizando grandes investimentos em inteligência artificial e tecnologia, que também exigem recursos significativos. Na prática, essas decisões revelam uma escolha: a opção por não manter empregos de qualidade, reduzir postos de trabalho e maximizar os lucros, em vez de utilizar a tecnologia para melhorar as condições de trabalho e ampliar o atendimento à população.

A paralisação de 20 de agosto também mostrou quem está do outro lado.

Na avaliação apresentada pela Fenaban, o movimento de paralisação não produziu impacto. Mas sabemos que o impacto esteve no fechamento das agências e na repercussão na sociedade, estávamos lá, nas ruas ouvindo a população defendendo mais agências e a redução dos juros.

Estamos enfrentando um setor econômico gigantesco, altamente concentrado, tecnologicamente estruturado e com enorme capacidade financeira.

Isso não significa que não possamos enfrentá-lo.

Podemos. E a história da categoria bancária prova isso.

Podemos fazer greve. Podemos paralisar. Podemos mobilizar.

Mas precisamos entrar em qualquer enfrentamento sabendo exatamente quem está do outro lado — e também sabendo o que está em jogo.

Porque não estamos apenas discutindo um índice.

Estamos discutindo empregos, agências, atendimento à população e a preservação de direitos que não estão garantidos apenas pela legislação.

O risco não é uma invenção

Não é exagero afirmar que os bancos têm capacidade para aprofundar a terceirização e a fragmentação da categoria.

O que aconteceu no Santander, com a transferência de trabalhadores para empresas do próprio grupo e o risco de retirada da representação e dos direitos da categoria bancária, é um exemplo concreto de como a reorganização empresarial pode afetar diretamente a proteção dos trabalhadores.

Por isso, quando falamos em unidade, não podemos falar dela apenas como uma palavra de ordem.

Unidade é correlação de forças.

E a correlação de forças não se constrói enfraquecendo a nossa própria organização.

É possível criticar. É necessário perguntar. Mas precisamos compreender o que está em jogo.

Ninguém deve abrir mão do direito de questionar.

A categoria tem o direito de perguntar:

Poderíamos ter conquistado mais?

Havia espaço para avançar?

A proposta corresponde à nossa mobilização?

A greve poderia produzir outro resultado?

Todas essas perguntas são legítimas.

Mas existe outra pergunta que também precisa ser feita:

Qual seria o custo de não construir um acordo diante do fim da vigência da Convenção Coletiva e de um setor que vem, sistematicamente, reduzindo empregos, fechando agências e pressionando pela flexibilização de direitos?

Essa pergunta não pode ser ignorada.

Não se trata de defender qualquer acordo.

E muito menos de dizer que a proposta é perfeita.

Trata-se de compreender que negociar não é escolher entre uma proposta ideal e uma proposta ruim. Muitas vezes, é preciso escolher diante de riscos concretos e de uma correlação de forças determinada.

Precisamos fortalecer a unidade e repensar permanentemente nossa organização.

Precisamos discutir como mobilizar mais.

Como enfrentar a transformação tecnológica.

Como impedir que a digitalização seja sinônimo de desemprego.

Como proteger os trabalhadores.

Como garantir atendimento digno à população.

Como ampliar a participação da categoria nas decisões.

Mas essa reflexão precisa fortalecer a nossa organização.

Porque atacar os sindicatos e fragmentar a representação dos trabalhadores não torna a categoria mais forte diante dos bancos.

Torna os bancos mais fortes diante dos trabalhadores.

Os bancos já atuam de forma coordenada.

Têm poder econômico.

Têm tecnologia.

Têm capacidade de eliminar postos de trabalho.

Têm capacidade de fechar agências.

E têm condições de pressionar por mudanças profundas nas relações de trabalho.

O que os trabalhadores têm para equilibrar essa relação?

Organização. Mobilização. Sindicato. Unidade.

Não uma unidade silenciosa.

Não uma unidade que impeça críticas.

Mas uma unidade consciente, capaz de divergir, discutir e decidir — sem entregar ao outro lado o benefício da nossa fragmentação.

”Por isso, independentemente das decisões tomadas nas assembleias nas próximas 24 horas, a categoria sairá unida e fortalecida, reforçando a mobilização e a unidade para defender os direitos conquistados com muita luta, avançar em novas conquistas, defender os bancos públicos e debater questões específicas de cada banco. Boa assembleia para todos”, afirma a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Neiva Ribeiro

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