A desregulação do sistema financeiro, intensificada durante a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central (BC), gerou consequências diretas para a própria autoridade monetária. No fim do ano passado, o BC teve de abrir investigação interna para apurar condutas de fiscalização no caso do Banco Master, abrangendo desde a expansão acelerada do conglomerado de Daniel Vorcaro até sua liquidação em novembro de 2025.
Segundo o BC, houve uma demora injustificada na identificação de operações de alto risco. O atual presidente da instituição, Gabriel Galípolo, determinou a abertura de uma auditoria interna para avaliar se a autarquia já possuía elementos suficientes para decretar a liquidação antes do agravamento do cenário.
Afastamentos na cúpula de fiscalização do BC
O desdobramento do caso provocou mudanças estruturais. Paulo Souza, ex-diretor de Fiscalização e figura central na gestão de Campos Neto (2019-2024), foi afastado uma semana após a liquidação do Master. Belline Santana, então chefe do departamento de Supervisão Bancária, também foi retirado da função. As informações são d´O Globo.
Segundo reportagem publicada no jornal Estadão, Roberto Campos Neto tinha ciência dos problemas de liquidez do Banco Master já em 2024, mas optou por não intervir. A decisão de liquidação só foi efetivada sob a gestão de Galípolo.
O impacto no bolso e na vida do bancário
Para o Sindicato dos Bancários de São Paulo, o caso não é apenas uma falha técnica de fiscalização, mas uma consequência da desregulação que coloca em risco os trabalhadores bancários, a população e o próprio sistema financeiro.
“O Master e o Will Bank são exemplos das consequências da desregulação, principalmente na gestão de Campos Neto. Isso afeta diretamente os trabalhadores, que encaram o fantasma do desemprego, e o sistema financeiro como um todo, que terá de desembolsar bilhões via Fundo Garantidor de Crédito [FGC]”, afirma Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato.
As liquidações do Master e do Will Bank devem resultar em resgates de aproximadamente R$ 47 bilhões. Neiva alerta que esse valor precisará ser reconstituído pelos demais bancos.
“Para arcar com esse rombo, as instituições tendem a elevar metas e encarecer o crédito. Ou seja: o bancário é pressionado na ponta e a sociedade paga a conta do descontrole regulatório”, avalia.
Defesa de um novo marco regulatório
O Sindicato defende que a estabilidade do sistema financeiro passe pela fiscalização integrada entre BC, CVM, Ministério do Trabalho e Receita Federal. Até mesmo a Fenaban (federação dos bancos) passou a criticar as assimetrias regulatórias, um tema que o Sindicato denuncia há anos sob a ótica trabalhista.
“A sociedade brasileira precisa discutir um novo marco regulatório que assegure proteção social e respeito aos direitos trabalhistas. Sem regulação firme e fiscalização eficaz, as crises continuarão sendo transferidas para os trabalhadores e a sociedade”, conclui Neiva Ribeiro.