Mobilização

Metalúrgicos fazem passeata contra fechamento da Ford, em São Bernardo

Enquanto nos EUA, sindicalistas negociavam com a Ford Mundial, trabalhadores da multinacional caminhavam em São Bernardo para explicar a situação à população - fechamento impactará muito a economia da cidade

  • Érica Aragão, da CUT, com Redação Spbancarios
  • Publicado em 08/03/2019 15:40 / Atualizado em 08/03/2019 16:16

Foto: Roberto Parizotti/CUT

Metalúrgicos da Ford organizaram uma passeata contra o fechamento da planta de São Bernardo do Campo, anunciado pela montadora no dia 19 de fevereiro. Os manifestantes saíram, no na quinta-feira 7, por volta das 10h20, da frente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC) e caminharam até a Praça da Matriz, onde foi realizado um ato inter-religioso.

A reportagem é do Portal CUT.

No mesmo horário, o presidente do SMABC, Wagner Santana, o presidente do Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID-Brasil), Rafael Marques, e o coordenador do Comitê Sindical na Ford, José Quixabeira de Anchieta, se reuniam com a direção mundial da Ford, em Dearborn, nos Estados Unidos, para tentar reverter decisão e manter empregos na região. Na próxima terça-feira 12, eles vão informar o resultado da negociação, em uma assembleia no pátio da Ford.

A passeata

Os trabalhadores caminharam até a Igreja da Matriz empunhando faixas e cartazes com dizeres como “não vou desistir do meu emprego”, “a Ford só pensa no lucro” e “minha família depende do meu emprego”. Eles também estão fazendo uma campanha para que as pessoas deixem de comprar veículos da Ford enquanto a situação da planta de São Bernardo não for resolvida.

Durante os 4 quilômetros de caminhada, dirigentes do SMABC, deputados  federais e estaduais e o ex-prefeito da cidade, Luiz Marinho, discursaram no caminhão de som para explicar a população o motivo da luta dos trabalhadores da Ford e convidar a todos para participar da luta.

“Nós conseguimos reverter uma decisão da Ford parecida com esta em 1998 e tenho fé que conseguiremos revogar mais essa. 20 anos se passaram e a luta não foi só da direção do sindicato, nem da comissão de fábrica, nem minha, foi uma luta de toda sociedade por empregos e por dignidade”, disse Marinho.

A secretária da Mulher Trabalhadora da Federação Estadual dos Metalúrgicos de São Paulo (FEM-CUT), Andréa Souza, também ressaltou que a luta deve ser de todos porque os impactos da decisão da Ford são alarmantes e afetarão muita gente.

“As vendas dos comércios vão cair, a compra na padaria vai diminuir e a economia da região será fortemente impactada. Além disso, vocês [se referindo aos lojistas da Rua Marechal Deodoro, uma das principais ruas comerciais da cidade] também podem perder seus negócios se não tiverem comprador dos produtos que vocês vendem. Todo mundo sofrerá com a saída da Ford de São Bernardo do Campo. O #FicaFord é uma luta de todos”.  

Bancários, professores, servidores, rodoviários, trabalhadores da saúde, movimentos sociais e diversas outras categorias e de outras fábricas e parlamentares da região estiveram presente na caminha e no ato inter-religiosos em solidariedade aos trabalhadores da Ford e ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

“Outras categorias vão se espelhar na luta de vocês a qualquer sinal de ataque contra emprego, direito ou mesmo qualquer ato de irresponsabilidade como este da Ford. A empresa precisa investir sim, dar melhores condições de trabalho e garantir esses empregos de pais e mães que dedicaram seu trabalho para aumentar a riqueza desta multinacional”, afirmou o coordenador da CUT no ABC, José Almeida Freire. 

As falas dos sindicalistas e parlamentares eram saudados com gritos de  #FicaFord e de “trabalhador unido jamais será vencido”.

“Vamos lutar pelo nosso emprego e exigir do presidente faça seu papel e governe esse país, trabalhe e discuta com todas montadoras, principalmente com a Ford para se manter em SBC e com empregos para que os trabalhadores continuem sonhando com dias melhores”, disse a coordenadora do macrossetor da Indústria da CUT, Cida Trajano.

Ato inter-religioso

No final da manhã, os trabalhadores da Ford e de outras categorias profissionais que se uniram a luta pelos empregos chegaram a Igreja Matriz, o maior símbolo de resistência e luta por transformações sociais nas décadas de 1970 e 1980.

E, no ato inter-religioso, organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC), espíritas, umbandistas, católicos, evangélicos, mulçumanos e candomblecistas, unidos, fizeram suas orações pela revogação da decisão unilateral da multinacional.

Os religiosos deram um duro recado à direção da Ford. A empresa precisa se sensibilizar e cumprir sua responsabilidade social tanto para com seus trabalhadores, quanto para com a cidade e com o país, onde a multinacional lucrou muito e explorou a mão de obra dos brasileiros.

“Não se pode tomar uma decisão que prejudique toda sociedade, com aumento do desemprego e fome, e sair ileso. Quando a Ford precisou de vantagens de impostos para lucrar mais ela teve e agora tem que honrar com sua responsabilidade social. Fica Ford é uma demanda da justiça, da verdade e da ética”, afirmou o Pastor Ariovaldo, da Frente dos Evangélicos pelo Estado de Direito.

Para o Padre Joel, que representou os católicos, nenhuma injustiça e maldade é maior que o amor e a solidariedade. “Amai-vos uns aos outros como Jesus nos ensinou. Temos que sair daqui e convidar mais gente para luta, porque o amor não é egoísta e só juntos conseguiremos mudar o rumo deste país”, afirmou o padre que citou outras lutas que aconteceram na  igreja matriz. “A história do país foi mudada com unidade e solidariedade e assim devemos seguir”, finalizou.

Para Mãe Adriana, que representa o Candomblé, todas as religiões precisam estar unidas para que o resultado desta negociação nos Estados Unidos seja positivo para todos. “Que Ogum, um trabalhador ferramenteiro, abra nossos caminhos e que a Ford não feche e não deixe tantas famílias desempregadas. Que Ogum abra a mente dos negociadores e traga fortuna, felicidade e solidarize com a dor dos seus filhos. E que nenhum metalúrgico seja dispensado”, concluiu.

Impacto negativo no ABC

“Mais de quatro mil empregos diretos e mais de 30 mil empregos na cadeia produtiva que serão impactados”, se a Ford fechar a fábrica de São Bernardo do Campo, afirmou o secretário-geral do SMABC, Aroaldo Oliveira.

“A região do ABC já tem mais de 100 mil desempregados e mais 30 mil seria uma tragédia. A cidade deixará de arrecadar 300 milhões de reais, um impacto direto no desemprego, na queda de arrecadação e nas políticas públicas da cidade”.

Fake news

O secretário-geral da CUT São Paulo, João Cayres, que também é trabalhador na Ford, alertou sobre os fakes news (notícias falsas) que estão rolando de pessoas mal intencionadas.

“As mentiras que estão dizendo por aí de que o Sindicato é responsável por esta decisão da Ford são cruéis e irresponsáveis. Os trabalhadores da multinacional são testemunhas que o SMABC está num esforço total para revogar esta decisão da Ford e manter os empregos de milhares de pais e mães de famílias. Nós estamos firmes e fortes na luta, que é de todos”, afirmou.

João Caires

O presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, Paulo Cayres, reafirmou a indignação do João e disse que qualquer informação sobre o resultado da reunião nos Estados Unidos é só com o Sindicato.

“Não vamos acreditar em boatos, qualquer informação virá do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e será preciso dialogar e convidar as famílias para, no dia 12, saber o resultado da reunião e decidir os próximos passos da luta. Porque independente do resultado a luta continua”, disse Paulão, finalizando o ato na Praça da Matriz.

Paulo Cayres

Trabalhadores e trabalhadoras da Ford estão preocupados, mas têm esperanças

O olhar de esperança de cada trabalhador da Ford expressado na luta não esconde a preocupação deles, caso a decisão da Ford seja mantida.

Geovane José Marques, que trabalha há 24 anos na Ford, é um dos 4 mil trabalhadores que serão impactados diretamente com a decisão da empresa em fechar a planta em São Bernardo do Campo.

Segundo ele, só a luta pode mudar o destino dele e de outros milhares de trabalhadores, mas Geovane disse que não quer nem pensar na possibilidade da decisão da empresa não ser revogada, já que além de ser a única renda da família, ficou doente durante estes anos de trabalho na Ford.

“Dediquei minha vida a esta empresa e ganhei duas hérnias de discos e problema nos dois ombros como é que vou arrumar outro trabalho? Eu queria que a Ford desse essa resposta”, afirmou.

Eliane Aparecida da Conceição, operadora de produção da Ford há 5 anos, é arrimo de família e disse que o que a mantém de pé é a luta. “Foi um baque muito grande a notícia do fechamento da Ford, porque minha família depende da minha renda. Se essa situação não se reverter vai impactar a vida da minha mãe e dos meus irmãos. Eu to com muita esperança que a Ford vá reverter essa decisão que ela tomou, muita mesmo”, disse Eliane emocionada.



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