A superação da violência contra as mulheres passa necessariamente pela construção de uma sociedade livre de machismo e misoginia, e para isso, a educação e o debate público são fundamentais
Os instrumentos do Estado para a prevenção e combate à violência de gênero — como leis, delegacias da mulher e casas de acolhimento — são fundamentais e têm papel decisivo na proteção das vítimas. No entanto, eles não são suficientes para pôr fim a essa realidade. A superação da violência contra as mulheres passa necessariamente pela construção de uma sociedade livre de machismo e misoginia, e para isso, a educação e o debate público são fundamentais.
A antropóloga Lia Zanotta Machado, da Universidade de Brasília (UnB), destaca que o enfrentamento à violência contra a mulher depende mais de mudanças culturais do que do endurecimento das leis. Ela reconhece a importância da Lei Maria da Penha na proteção das mulheres e seu papel na mudança da percepção da sociedade sobre a violência de gênero, mas observa: “A opinião pública mudou, mas a violência continua porque existe uma cultura que ainda legitima o controle dos homens sobre as mulheres.”
E segundo Zanotta, a educação tem um papel central na mudança dessa cultura: “A desigualdade entre homens e mulheres é histórica e ainda é reproduzida dentro das famílias. Por isso, é fundamental que esse debate chegue às escolas”.
Papéis sociais construídos e reproduzidos
A historiadora e doutora em Educação Guacira Lopes Louro, referência no tema pedagogia e relações de gênero, defende que em qualquer disciplina escolar se pode rediscutir os papéis sociais impostos a homens e mulheres, papéis estes que resultam na ideia de que homens dominam e mulheres são dominadas. “Na Matemática, na História, na Educação Física... em qualquer disciplina se pode abordar a questão e desconstruí-la”, disse, em entrevista ao canal Nós da Educação.
Guacira destaca que o feminino e o masculino são socialmente produzidos. “Simone de Beauvoir disse: ‘não se nasce mulher, torna-se mulher’. Ela quis dizer que o gênero feminino é uma construção social. Da mesma forma, a masculinidade também é socialmente produzida. E historicamente a escola veio reforçando essa construção da masculinidade de várias formas: nos livros didáticos, nas falas dos professores, na própria ocupação do espaço escolar. Há muita coisa para além do que é dito explicitamente que reforça essa diferenciação.”
Essa escola que não questiona e reforça valores machistas, segundo ela, acaba reforçando uma divisão social do trabalho injusta. “Se a gente censurasse menos as crianças, elas brincariam juntas, mas a educação reforça que meninas brincam com bonecas, meninos com carros e super heróis, assim, as meninas são levadas para o lar e para a maternidade, e os meninos são afastados dessas tarefas, e ainda que hoje se fale e se defenda as relações compartilhadas em casa e com a família, não são adultos preparados para isso que uma educação conservadora está formando.”
Sindicato aposta na transformação
Para o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, o enfrentamento à violência contra a mulher passa tanto pela luta por direitos quanto pela mudança de mentalidades. A presidenta da entidade, Neiva Ribeiro, reforça que essa é uma agenda histórica da categoria.
“A luta do Sindicato por um mundo sem machismo e sem violência contra as mulheres é de décadas. Já conquistamos avanços importantes para as bancárias, mas sabemos que isso não basta. Por isso, também atuamos para contribuir com o debate na sociedade, ajudando a desconstruir valores machistas e misóginos que sustentam a violência”, afirma.
Entre as iniciativas, estão as cartilhas “Sexo frágil: um manual sobre masculinidade e suas questões" e "Como conversar com homens sobre violência contra meninas e mulheres", elaboradas respectivamente pelas ongs Instituto Maria da Penha e Papo de Homem. Lançadas em 2024, as publicações são um desdobramento da conquista das cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) dos bancários que tratam de prevenção à violência contra a mulher. Os materiais discutem estereótipos e orientam trabalhadores e trabalhadoras a identificar e prevenir situações de violência.
Outro destaque é o curso “Paternidade e Maternidade com Relações Compartilhadas” (antigo curso de Paternidade Responsável), criado a partir da conquista da licença-paternidade estendida de 20 dias na categoria, em 2016.
Mais do que uma exigência formal para acesso ao benefício, o curso se consolidou como um espaço de formação e reflexão. Com abordagem interdisciplinar e formato online ao vivo, ele reúne especialistas para discutir temas como divisão do trabalho doméstico, masculinidade, cuidado com os filhos e igualdade de gênero.
A proposta é preparar pais e mães para uma vivência mais equilibrada da parentalidade, questionando a lógica tradicional que sobrecarrega as mulheres.
Ao longo de 40 turmas, mais de mil participantes já passaram pela formação, que estimula reflexões sobre o papel dos homens na sociedade, os impactos da masculinidade tóxica e a importância de relações mais justas e igualitárias.
“Ao incentivar a corresponsabilidade no cuidado com a casa e os filhos, a iniciativa contribui diretamente para reduzir desigualdades que impactam a vida profissional e pessoal das mulheres. Também forma homens mais conscientes, capazes de atuar na educação das futuras gerações com valores menos violentos e mais igualitários”, diz Ana Tércia Sanches, dirigente sindical do banco Itaú e professora do curso.
Série de reportagens
Neste mês de março, o Sindicato está produzindo uma série de reportagens sobre violência contra as mulheres. Os dados são alarmantes: números de feminicídios, estupros e agressões têm crescido ano a ano. Esta é a terceira matéria da série e, ao longo dos próximos dias, publicaremos outras, abordando aspetos variados da questão. Acompanhe pelo site e redes sociais do Sindicato.
Leia as demais matérias da série:
- Combate à violência contra a mulher passa por regulamentar redes sociais e criminalizar discursos misóginos
- Cultura Red Pill: o discurso de ódio às mulheres que se concretiza em violências físicas, psicológicas e letais
- Ódio que dá lucro: big techs e influenciadores da “machosfera” transformam misoginia em negócio