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Chapéu
Entrevista

"O trabalhador está exausto física e mentalmente", afirma deputado Alencar Santana ao defender fim da escala 6x1

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Alencar Santana durante audiência pública sobre o fim da 6x1 (PEC 221/19) | FOTO: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Alencar Santana durante audiência pública sobre o fim da 6x1 (PEC 221/19) | FOTO: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

O deputado federal Alencar Santana (PT) é uma das principais lideranças na luta pela redução da jornada de trabalho. Presidente da comissão especial que discute o fim da escala 6x1, o parlamentar esteve no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, no dia 11 de maio, para um debate sobre o tema.

Sempre em diálogo com a categoria bancária, Alencar Santana concedeu entrevista nesta semana para a Fenae (Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal). Em sua conversa com a entidade, Santana avaliou os impactos do fim da escala 6x1 para a saúde dos trabalhadores, rebateu críticas de setores resistentes à proposta e destacou efeitos positivos para as famílias brasileiras. Confira a entrevista a seguir.

Fenae: Deputado, quais são os principais impactos da jornada 6x1 na saúde física e mental dos trabalhadores, e por que o senhor considera necessária a revisão desse modelo?

Alencar Santana: É fácil perceber o quanto a sociedade, de certa maneira, está doente. O trabalhador está exausto física e mentalmente. Existem alguns sinais muito claros disso. Se você andar em qualquer grande centro, em qualquer grande avenida, vai perceber farmácias por todos os lados. Outra coisa que cresce nas periferias e nos grandes centros são as adegas [locais de vendas de bebidas alcóolicas]. Isso demonstra que o trabalhador está adoecido e procurando algum tipo de saída, seja por meio de medicamentos ou de outras alternativas. Se pegarmos os números de afastamentos no INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] por problemas de saúde mental, em 2025, foram mais de 500 mil casos. Além disso, vemos uma sociedade em que muitas pessoas estão resolvendo pequenos conflitos com atitudes violentas, por motivos banais. Isso também reflete o quanto o trabalhador está sob forte estresse mental, com a saúde emocional comprometida. Por isso, o fim da escala 6x1, garantindo ao menos dois dias de descanso por semana, é algo muito importante para a saúde do trabalhador, para o convívio familiar e para a sociedade como um todo. Na proposta, defendemos também a redução da jornada para 40 horas semanais e sem redução salarial. Hoje o limite é de 44 horas. Portanto, estamos discutindo dois avanços importantes: garantir dois dias de descanso e reduzir a jornada de trabalho. Acredito que isso vai trazer ganhos para a saúde, para a qualidade de vida e para o bem-estar, não apenas do trabalhador, mas também da família e da sociedade.

Alencar Santana ao lado de Neiva Ribeiro e Lucimara Malaquias, presidenta e secretária-geral do Sindicato, durante debate sobre o fim da 6x1

Deputado, setores empresariais argumentam que mudanças na escala podem aumentar os custos e afetar empregos. Como o senhor responde a essas críticas? Acha que essa redução pode afetar negativamente a economia, como muitos especialistas argumentam?

As experiências em outros países e até mesmo em empresas brasileiras que já adotaram o fim da escala 6x1 e a redução da jornada demonstram exatamente o contrário. Houve diminuição dos afastamentos, aumento da satisfação pessoal, da motivação e melhoria no ambiente de trabalho, refletindo diretamente na prestação do serviço e na produtividade. Então, os resultados observados são opostos ao argumento utilizado por alguns setores empresariais. E vamos ser sinceros, não serão quatro horas a menos de trabalho por semana ou um dia a mais de descanso que vão prejudicar a economia brasileira. Pelo contrário. O Brasil tem capacidade tecnológica, conhecimento e condições para continuar crescendo e se desenvolvendo. Acho que existe ainda uma visão atrasada, que entende que é preciso lucrar sempre em cima do trabalhador e da mão de obra. Quando uma empresa se moderniza, adota novas tecnologias ou máquinas e demite trabalhadores, ninguém fala em compensação para esses trabalhadores. Então, por que agora, quando estamos debatendo melhores condições para quem trabalha, alguns setores entendem que precisam ser compensados? Na verdade, vejo muito mais resistência de quem não quer abrir mão desse modelo tão exploratório que existe hoje.

Atualmente, 51,7% das famílias dependem da renda feminina. Considerando essa realidade, na avaliação do senhor, o fim da jornada 6x1 impacta especialmente na jornada das mulheres?

Sem dúvida alguma, as mulheres serão profundamente beneficiadas com o fim da escala 6x1 e com a redução da jornada. Muitas enfrentam diariamente jornadas duplas ou até triplas de trabalho. Garantir um dia a mais de descanso significa possibilitar mais convívio familiar, mais tempo para o bem-estar pessoal e para outras atividades da vida cotidiana. Portanto, o benefício será muito grande, assim como também para a juventude.

Deputado, diante de todo esse histórico que a gente conversou, o senhor acredita que o Congresso Nacional vai aprovar a proposta? Como está o clima e as discussões entre deputados e senadores no Congresso?

Existe um setor que resiste. Na Câmara, por exemplo, chegaram a apresentar uma proposta de transição de 10 anos para implementação da redução da jornada e do fim da escala 6x1. Isso demonstra uma visão atrasada e exploratória da sociedade, como se o trabalhador tivesse apenas que trabalhar, trabalhar e trabalhar para enriquecer outras pessoas, sem poder viver plenamente. E a vida não tem hora extra. Mesmo assim, acredito que temos condições de aprovar a proposta. Estamos vivendo um momento importante com o governo do presidente Lula, em que os trabalhadores voltaram a conquistar avanços. Posso citar alguns exemplos: a retomada da política de valorização do salário mínimo, encerrada no governo anterior; a aprovação da igualdade salarial; a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, além da redução parcial para quem recebe até R$ 7.350; e agora o próprio governo defendendo o fim da escala 6x1, com garantia de dois dias de descanso, redução da jornada e sem redução salarial. Acho que tudo isso ajudou a pauta a ganhar força no Congresso. Além disso, os deputados estão percebendo o anseio e o apoio popular. Talvez esse seja o único tema desta legislatura que virou assunto em todos os lugares: na padaria, na igreja, na escola, na feira, no ponto de ônibus, na fábrica, no banco, em qualquer lugar. As pessoas estão debatendo o fim da escala 6x1 e a redução da jornada. O Parlamento está percebendo isso. Portanto, acredito que teremos apoio para aprovar essa matéria.

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