Pauta de reivindicações foi entregue à Fenaban há dois meses e, até agora, bancos ainda não apresentaram proposta global de valorização da categoria, com índice de reajuste (fotos: Seeb-SP)
A Campanha Nacional Unificada dos Bancários 2026 chegou à nona rodada de negociação sem uma proposta global de valorização da categoria por parte dos bancos. A Fenaban ainda não apresentou proposta de índice de reajuste para salários e demais verbas. Ao longo das mesas, além das reivindicações econômicas, o Comando Nacional dos Bancários também apresentou outras sobre emprego, saúde e condições de trabalho e igualdade de oportunidades.
Confira, abaixo, um resumo dos principais temas e impasses das mesas com a Fenaban.
Entrega da pauta
A pauta de reivindicações da categoria foi entregue à Fenaban em 24 de junho, dando início às negociações com os bancos. Entre as principais reivindicações estão reajuste com reposição da inflação mais 5% de aumento real, PLR maior, valorização do VA e VR, defesa do emprego, ampliação das agências, fim das metas abusivas e manutenção dos direitos previstos na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). A categoria também cobra medidas diante dos impactos da inteligência artificial e da digitalização, melhores condições de trabalho e proteção à saúde dos trabalhadores.
Construída a partir de consulta nacional que recebeu quase 55 mil respostas e das conferências da categoria, a pauta também defende a regulamentação do Sistema Financeiro Nacional, o fortalecimento dos bancos públicos e maior participação dos trabalhadores nos ganhos proporcionados pela tecnologia.
Durante a entrega da pauta, o Comando Nacional dos Bancários também defendeu a assinatura de um pré-acordo garantindo a ultratividade da CCT, medida fundamental para dar segurança aos trabalhadores durante o processo de negociação. A ultratividade assegura a validade da CCT até a assinatura de um novo acordo, garantindo assim todos os direitos e conquistas previstos no documento mesmo após sua validade, que é 31 de agosto. A data-base da categoria é 1º de setembro.
Mesa 1: Mais inclusão, jornada 4x3 e direito à desconexão
A primeira rodada, realizada em 2 de julho, abriu as negociações pelas cláusulas sociais. O Sindicato, por meio do Comando Nacional dos Bancários Nacional, apresentou reivindicações relacionadas à inclusão de pessoas com deficiência (PCDs), à redução da jornada, ao teletrabalho e ao direito à desconexão, além de medidas para reforçar a segurança bancária digital.
Também reivindicou que a Fenaban fechasse o acordo para garantir a ultratividade da CCT, apresentado na entrega da pauta.
Entre os destaques esteve a defesa de mais contratações e oportunidades de carreira para PCDs. Apesar de representarem 4,5% da categoria em 2025, os trabalhadores com deficiência tiveram saldo negativo de empregos entre 2020 e abril de 2026: foram 8.361 desligamentos contra 7.840 admissões.
O Comando Nacional dos Bancários também defendeu a implantação da jornada 4x3, sem redução de salários e direitos, argumentando que os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia permitem reduzir a jornada e, ao mesmo tempo, ampliar o emprego. A estimativa apresentada foi de potencial para mais de 429 mil novos postos no setor.
“A redução da jornada resultaria em ganhos na qualidade de vida dos bancários, sem prejuízos à produtividade das empresas, como demonstram exemplos de outros países e de empresas aqui no Brasil, que já implementam a escala 4x3", destacou a presidenta do Sindicato e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Neiva Ribeiro.
Outra reivindicação apresentada foi a garantia do direito à desconexão, especialmente diante da expansão do teletrabalho e da intensificação do uso de tecnologias.
O Comando Nacional dos Bancários também levou dados sobre fraudes digitais e cobrou dos bancos mais investimentos para garantir a segurança digital dos clientes, bem como o fortalecimento do atendimento presencial e da rede de agências.
A Fenaban se dispôs a pensar sobre a possibilidade de um estudo conjunto sobre a escala 4x3, mas não aceitou assinar a ultratividade da CCT.
Mesa 2: Pelo fim das demissões e do fechamento de agências
Na segunda mesa, em 7 de julho, o foco foi o emprego bancário. Os dados apresentados pelo Comando Nacional dos Bancários mostraram a dimensão da redução dos postos de trabalho e da rede de agências: entre 2015 e maio de 2026, os bancos eliminaram 93,3 mil empregos e encerraram 9,5 mil agências físicas, uma redução de 42% da rede.
Os representantes dos trabalhadores denunciaram que o trabalho bancário não está desaparecendo, mas sendo transferido para correspondentes bancários e outros segmentos do sistema financeiro. Enquanto isso, os cinco maiores bancos registraram lucro líquido de R$ 124 bilhões em 2025.
Diante desse cenário, os trabalhadores exigiram a suspensão das demissões e do fechamento de agências durante a Campanha, além do fim das terceirizações de atividades bancárias, retorno das homologações nos sindicatos, indenização adicional em caso de demissão, criação de um banco de talentos; proteção ao emprego das mulheres, com estabilidade para vítimas de violência doméstica e fortalecimento da qualificação em TI.
A Fenaban rejeitou a suspensão das demissões e do fechamento de agências, assim como a estabilidade durante as negociações, a estabilidade para mulheres vítimas de violência doméstica e a indenização adicional. E ficou de avaliar o retorno das homologações aos sindicatos, a qualificação profissional na área de tecnologia e a criação do banco de talentos.
Mesa 3: Igualdade de oportunidades e medidas contra endividamento
A terceira rodada, em 16 de julho, colocou no centro da negociação as desigualdades existentes no sistema financeiro. Com dados do Dieese, o Comando Nacional dos Bancários mostrou que a diferença salarial entre homens e mulheres segue elevada: em 2025, a remuneração média das bancárias correspondia a 81,6% da recebida pelos homens.
“Os dados mostram que, no ritmo atual, serão necessários cerca de 40 anos para eliminar a diferença salarial entre homens e mulheres na categoria bancária. Não podemos esperar quatro décadas para que a igualdade se torne realidade”, afirmou Neiva Ribeiro.
O cenário é ainda mais desigual para mulheres negras, cuja remuneração média é 34,2% inferior à dos homens brancos. A presença de mulheres e pessoas negras também continua baixa nos espaços de liderança e na área de tecnologia.
Por isso, foram reivindicadas metas de contratação de grupos sub-representados; programas de formação e ascensão profissional, especialmente para mulheres negras; ampliação da presença feminina em TI e medidas efetivas de combate ao racismo, à LGBTfobia e às demais formas de discriminação.
O Comando Nacional dos Bancários também cobrou um protocolo nacional de prevenção e enfrentamento ao racismo. A Fenaban concordou que o canal de assédio passará a receber denúncias de racismo (inclusive por clientes) e de LGBTfobia.
Reivindicou ainda outras medidas de combate ao assédio sexual, e a Fenaban concordou em incluir na CCT a definição de assédio sexual e importunação, com caráter orientativo (letramento).
Outro eixo da mesa foi o endividamento da categoria: 71% dos bancários que participaram da Consulta Nacional de 2026 declararam ter algum tipo de dívida. Os representantes dos trabalhadores defenderam a redução de juros, isenção de tarifas para empregados e a criação de um mecanismo semelhante ao Desenrola para os bancários. A Fenaban pediu os dados apresentados para análise e continuidade do debate.
Mesa 4: Bancos ameaçam mesa única e colocam saúde em xeque
A Fenaban ameaçou acabar com a mesa única, defendendo a separação das negociações entre bancos privados e públicos, durante a quarta rodada, ocorrida em 21 de julho. O Comando Nacional dos Bancários rejeitou a proposta e reafirmou que a unidade da categoria é fundamental para preservar direitos e conquistar avanços.
“Nossa mesa única, com bancos públicos e privados, é um dos maiores exemplos de negociação coletiva bem-sucedida do país. Não aceitaremos qualquer iniciativa que enfraqueça esse modelo ou divida a categoria”, ressaltou Neiva Ribeiro.
Além disso, a Fenaban rejeitou proposta apresentada pelo Comando Nacional dos Bancários na mesa anterior, de criação de um programa de crédito com juros reduzidos para auxiliar bancários endividados.
A saúde dos bancários também esteve no centro do embate. Os representantes dos bancos questionaram dados apresentados pelos trabalhadores sobre adoecimento e colocaram em xeque cláusulas de saúde da CCT.
O Comando Nacional dos Bancários relacionou o adoecimento às formas de organização do trabalho, como metas abusivas, pressão permanente, sobrecarga, insegurança profissional e mudanças constantes. A partir da nova NR-1, defendeu a participação dos trabalhadores na identificação, avaliação e prevenção dos riscos psicossociais.
Os dados da Consulta Nacional reforçaram a gravidade do problema: 73% dos participantes disseram que o ambiente de trabalho prejudica a saúde mental e 40% relataram ter utilizado medicamento controlado nos 12 meses anteriores.
Diante da postura dos bancos, o Comando Nacional dos Bancários convocou um Dia Nacional de Luta para 28 de julho, em defesa da mesa única e da valorização da remuneração.
Mesa 5: Lucros bilionários, aumento real é possível
A quinta rodada, em 30 de julho, inaugurou a discussão sobre remuneração e cláusulas econômicas. O Comando Nacional dos Bancários foi direto: diante da lucratividade do setor e da produtividade dos trabalhadores, os bancos têm condições de conceder aumento real.
A reivindicação apresentada foi de 5% de aumento real, além da inflação, para salários e demais verbas. Os bancários também defenderam a valorização do piso, aumento maior para VA e VR e uma PLR mais condizente com os resultados obtidos pelo setor.
Os números apresentados pelo Comando Nacional dos Bancários na negociação mostraram a distância entre a evolução dos lucros e a remuneração dos trabalhadores. Entre 2003 e 2025, o lucro líquido dos maiores bancos cresceu 178% acima da inflação. Já a massa salarial real da categoria caiu 17% desde 2014.
Outro dado mostra a capacidade financeira das instituições: em 2025, a receita com tarifas dos cinco maiores bancos correspondeu a 123% das despesas com pessoal, incluindo a PLR. Sem considerar a PLR, a cobertura chegou a 142%.
A mesa, portanto, estabeleceu o principal eixo econômico da campanha: os bancos lucram e os bancários querem participar de forma mais justa da riqueza que ajudam a produzir.
Mesa 6: Bancários cobram proposta global
Os trabalhadores esperavam uma resposta concreta às reivindicações econômicas na sexta rodada, realizada em 4 de agosto, mas ela não veio.
A Fenaban novamente adiou a apresentação de uma proposta e deixou para uma rodada posterior. O movimento sindical reforçou que não bastava discutir isoladamente pontos da pauta: era necessária uma proposta global, capaz de responder ao conjunto das reivindicações da categoria.
Enquanto os bancos postergavam uma resposta, os resultados financeiros reforçavam a cobrança por valorização. O Comando Nacional dos Bancários sustentou que um dos setores mais rentáveis da economia brasileira tem condições de garantir aumento real, melhorar a PLR e recompor os valores de alimentação.
A ausência de uma proposta ampliou a pressão sobre a negociação e reforçou a necessidade de mobilização nacional.
Mesa 7: Tentativa de dividir a categoria
Na sétima rodada, em 13 de agosto, a Fenaban apresentou o que o Comando Nacional dos Bancários denunciou como uma tentativa de dividir a categoria: um modelo de reajuste diferenciado em três faixas salariais — menores, intermediários e maiores salários —, sem sequer indicar os índices correspondentes.
A mesma lógica seria aplicada ao vale-alimentação e ao vale-refeição. Além disso, os bancos propuseram congelar o piso de ingresso da categoria.
A proposta foi rejeitada pelo Comando Nacional dos Bancários porque rompe com a lógica de valorização coletiva e poderia criar diferenças entre trabalhadores. Em vez disso, os bancários defendem aumento real para todos, valorização do piso, da PLR e dos vales.
A postura dos bancos levou o Comando Nacional dos Bancários a convocar assembleias em todo o país para 17 de agosto, com a orientação de rejeição da proposta e de aprovação de uma paralisação de 24 horas.
Ao mesmo tempo, os dados financeiros apresentados pelo movimento sindical mostravam que os bancos tinham condições de atender às reivindicações: os três maiores bancos privados — Bradesco, Itaú e Santander — somaram R$ 45,4 bilhões de lucro no primeiro semestre de 2026.
Mesa 8: Mobilização faz bancos recuarem, mas índice continua sem aparecer
A oitava rodada, em 18 de agosto, mostrou na prática a força da mobilização. Depois de mais de 50 mil trabalhadores participarem das assembleias nacionais, a categoria rejeitou por ampla maioria a proposta de reajuste por faixas e aprovou a paralisação de 20 de agosto.
Em São Paulo, Osasco e região, 97,66% rejeitaram a proposta dos bancos e 89,34% aprovaram a paralisação. Em todo o país, os percentuais foram de 97% de rejeição e 90% de aprovação do movimento.
Diante desse resultado, a Fenaban recuou do modelo de reajuste por faixas salariais e do congelamento do piso de ingresso. Foi uma vitória importante da organização dos trabalhadores.
Mas a rodada terminou com uma contradição: apesar do recuo, os bancos mais uma vez não apresentaram um índice de reajuste para salários e demais verbas.
O Comando Nacional dos Bancários também voltou a cobrar a ultratividade da CCT, negada pelos bancos, e manteve a paralisação de 20 de agosto como instrumento de pressão. A reivindicação continua sendo uma proposta que contemple aumento real, valorização da PLR e recomposição do VA e do VR.
Mesa 9: Banqueiros seguem enrolando e atacam mobilização
A nona mesa, realizada nesta segunda-feira (24), ocorreu depois da grande paralisação nacional de 20 de agosto. O Comando Nacional dos Bancários esperava que a mobilização levasse os bancos finalmente a apresentar uma proposta econômica concreta. Isso, porém, não aconteceu.
A Fenaban novamente não apresentou um índice de reajuste para salários e demais verbas. Segundo o Comando Nacional dos Bancários, em nenhuma das campanhas nacionais anteriores os bancos haviam postergado tanto a apresentação de uma proposta concreta.
Em vez de apresentar uma proposta, os banqueiros criticaram e tentaram descredibilizar a paralisação de 20 de agosto, aprovada por mais de 50 mil trabalhadores. O Comando Nacional dos Bancários rebateu, destacando que o movimento foi legítimo, teve forte adesão e repercussão e contou com o apoio da sociedade.
Um episódio que demonstra a força da paralisação foi a tentativa dos bancos de impedir judicialmente o movimento. A liminar solicitada para barrar a paralisação e punir financeiramente os sindicatos foi negada pela Justiça do Trabalho.
Os banqueiros também voltaram a ameaçar a mesa única, tentando separar as negociações entre trabalhadores de bancos públicos e privados. O Comando Nacional dos Bancários reafirmou que essa possibilidade não está em discussão e que a unidade nacional é uma conquista histórica da categoria.
A reunião terminou sem proposta de índice. E o tempo está se esgotando: faltam apenas sete dias para a data-base de 1º de setembro, enquanto a atual CCT se aproxima do fim de sua vigência. O Comando Nacional dos Bancários voltou a cobrar a ultratividade, mas os bancos mantiveram a negativa.
As negociações foram retomadas nesta terça-feira (25) e devem prosseguir ao longo da semana.
Leia as matérias completas de cada mesa:
- Mesa 1: Em 1ª negociação da Campanha Nacional, Sindicato pleiteia mais vagas para PCDs, jornada 4x3 e garantia do direito à desconexão
- Mesa 2: Comando Nacional exige suspensão das demissões e do fechamento de agências
- Mesa 3: Comando Nacional cobra igualdade de oportunidades e medidas para combater discriminação, diferenças salariais e endividamento da categoria
- Mesa 4: Fenaban ameaça mesa única e Comando Nacional reforça unidade na defesa da categoria
- Mesa 5: Diante dos lucros bilionários dos bancos, bancários cobram aumento real para salários e demais verbas
- Mesa 6: Banqueiros, mais uma vez, não apresentam proposta. Bancários cobram aumento real!
- Mesa 7: Banqueiros apostam na divisão da categoria e não apresentam índice. Assembleia dia 17
- Mesa 8: Mobilização dos bancários fez bancos retirarem proposta de reajuste por faixas salariais
- Mesa 9: Banqueiros, mais uma vez, não apresentam proposta. Bancários cobram índice de reajuste!